Paulo Rocha, Agência Ecclesia

O mês de fevereiro, dos amores e de São Valentim, tem o debate sobre a morte na agenda parlamentar. Ciclos políticos assim o exigem e a conquista da agenda mediática a isso obriga. No caso, em torno de um tema que jamais pode ser equacionado e debatido a partir do contorcionismo político ou do menosprezo do humano, jogado numa lei como se se tratasse da determinação de uma taxa ou da aprovação de qualquer infraestrutura! É o humano que está em causa!

Na busca de protagonismo político, repetem-se propostas de legislação sobre o fim da vida. Como noutros casos, a casa da democracia, onde todos os trabalhos deveriam ter por objeto o cuidado do humano, pessoal e coletivo, ocupa-se administrativamente do fim do humano, da liberalização da morte. No entanto, esta não é uma questão administrativa, não pode ter por premissas folhas de cálculos nem pergaminhos impossíveis de alcançar a respeito dos sentimentos de cada pessoa diante do sofrimento e da possibilidade ou impossibilidade de o ultrapassar.

Curiosamente, o debate político em torno da eutanásia não é acompanhado por uma larga maioria dos cidadãos e por várias ordens profissionais, nomeadamente aquelas que têm por objeto a arte do cuidar. Enfermeiros e médicos, convocados por vocação e por formação para acolher, diagnosticar, prescrever, cuidar e acompanhar, afirmam globalmente essa exclusividade das suas ocupações e rejeitam o paradoxal mandato de morte que lhes pode cair nas mãos.

Num contexto de distanciamento dos cidadãos da política, que relega cada vez mais  as noites eleitorais para uma mórbida curiosidade acerca da fasquia da abstenção, o debate dos representantes do povo no Parlamento em torno do fim da vida a pedido acentua a indiferença das mulheres e homens pela política. É caso para dizer, infelizmente, que até a morte os separa.

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