«Ainda hoje vemos muita gente com o cordão umbilical à volta do pescoço» – Nádia Duvall

Lisboa, 04 jul 2019 (Ecclesia) – A exposição coletiva ‘Estoutro’ pensada pelo Dia Mundial do Refugiado “não resolve o mundo” mas pretende ser uma “ajuda” para “um mundo bem melhor, mais justo, com pessoas mais em alerta” para as necessidades e fragilidades” dos outros.

“Queremos com ‘Estoutro’ pensar que, de facto, temos de olhar para o concreto, esta pessoa, este outro que está ao pé de mim e é este que precisa de mim e se calhar também preciso dele”, disse Inês Espada Vieira, uma das comissárias da mostra coletiva, esta quarta-feira à margem da sua inauguração no Espaço Cultural Mercês, em Lisboa.

Para a investigadora, esta exposição “ajudará, provavelmente, a transformar” que em Portugal acolhe ou “podem vir a acolher” refugiados e vai ajudar “a pensar mais em modos de interpretar o mundo” e como é que cada um quer “agir” e “continuar o trabalho que tem sido inexcedível de associações, instituições, organizações da Igreja, do Estado e civis “no acolhimento concreto dos refugiados”.

Nádia Duvall tem 33 anos, é de origem argelina, criou a peça ‘Que angústia comer o mar’ que é um cordão umbilical, mas pode ser vista como uma forca, que “começa como uma memória” de quando veio para Portugal há 30 anos mas, essencialmente, da sua vivência desde ai.

A artista conta que a relação entre a mãe cristã, que já faleceu, e o pai muçulmano “acabou por correr muito mal”, o que fez com que a progenitora “tivesse de fugir” e ainda pequenina fosse “adotada” pela família materna, sofreu bullying na escola e foi “como se tivesse nascido com uma corda ao pescoço”.

“Ainda não me libertei, ainda hoje vemos, pelo contexto que estamos a viver, há muita gente com o cordão umbilical à volta do pescoço, cada vez a Extrema-direita sobre mais, cada vez há mais pessoas que dizem que não são racistas mas são de facto. Dizem que os portugueses são muito hospitaleiros mas na verdade não são”, desenvolveu, adiantando que “a corda ao pescoço é mais um símbolo do que uma coisa física” e realça que “ser mulher e ser refugiada tem de se lutar em duas frentes”.

 

Neste contexto, Nádia Duvall explica que “qualquer coisa que seja o outro há uma constante sensação de estranheza” e se esta existe “há sensação de perigo como se de alguma forma esse outro fosse roubar o território, destruir a família”, por isso, a exposição “é um pequenino gesto” porque “a grande força” é todos realizarem alguma coisa.

A investigadora Inês Espada Vieira explica que ‘Estoutro’ “é uma palavra da língua portuguesa” mas que não se usa muito, por isso, “não é nenhuma novidade”.

“Tem a particularidade de fazer a aproximação do outro que vemos com fascínio, com muito fascínio apenas na sua dimensão salvífica quando olhamos para as imagens terríveis do menino Alan Kurdi nas praias da Turquia. Temos um impulso de salvação, queremos ajudar, mudar mas depois no contacto real com as pessoas refugiadas que chegam a Portugal, perdemos esse fascínio, existe até um momento, se calhar, de alguma desilusão, o outro não é aquele que imaginamos”, acrescenta.

A comissária, da Paróquia lisboeta de São Tomás de Aquino que acolheu uma família de refugiados, realça que têm dados para dizer “com tranquilidade” que no geral os portugueses “acolhem e estão de braços abertos”.

A mostra coletiva apresenta obras – fotografia, instalação, pintura, escultura – de 12 artistas plásticos portugueses e foi pensada pelo Dia Mundial do Refugiado 2019, que se assinalou no dia 20 de junho, foi instituído pela ONU – Organização das Nações Unidas no ano 2000.

Francisco Duarte Coelho, por exemplo, apresenta um microscópio onde se pode ler ‘E.U’ e dentro de um telescópio instalou um vídeo com “um zoom in para dentro do mapa da Europa com a palavra Shangri-La”.

“São dois pontos de vista: Uma do refugiado à distância que olha para a Europa e a vê como sendo um ‘el dourado’, uma terra prometida onde tudo se vai resolver na sua vida e conseguir fugir aos problemas da sua terra natal. O microscópio tem a ver com a integração do refugiado dentro do espaço Europeu e da nossa cultura, é um ponto de vista de proximidade e tem a palavra E.U. que nos identifica como pertença a um sítio, a uma cultura, e também dualidade com European Union”, desenvolveu o artista que tem “a sorte de viver e trabalhar em Lisboa”.

O cineasta explica que este não é o tema do seu trabalho artístico mas “é uma problemática” que não o deixa indiferente, que “não deixa ninguém indiferente” e a realidade dos refugiados e dos migrantes forçados “é uma questão que deve ser pensada”, uma vez que “ninguém está livre de ter de abandonar a sua vida para outro país”.

De entrada livre, a exposição coletiva ‘Estoutro’ pode ser visitada até dia 10 de julho no Espaço Cultural Mercês, no Príncipe Real, em Lisboa, nos dias úteis entre as 14h00 e as 20h00.

Na próxima semana, nos dias 8 e 9, vão ser realizadas Oficinas sobre Interculturalidade e Cidadania Global para jovens e adultos que são um momento paralelo à exposição que vai “ajudar a refletir sobre as obras” com histórias de refugiados recolhidas em campos na Grécia e na Jordânia onde Joana Simões Piedade esteve como voluntária.

“O objetivo é também criar um diálogo entre essas vozes, histórias, percursos e os próprios percursos e próprias histórias desses jovens que vivem em Portugal a partir também do diálogo que podemos criar com estes doze artistas portugueses”, explicou.

À Agência ECCLESIA, Joana Simões Piedade adianta que entrevistou “várias pessoas da Síria, Afeganistão, Iraque” e algumas dessas histórias e vozes vão fazer parte das oficinas para “criar ponte, encontro, dessas pessoas nesses contextos com as crianças e adultos que vão estar a participar”.

A jovem portuguesa, formada em Direito e que já trabalhou como jornalista, contextualiza que foi este voluntariado surgiu quando foi “confrontada com as notícias das mortes no Mediterrâneo, das pessoas que ficam durante meses a fio, mesmo anos” nos campos de refugiados para “compreender em que contexto é que arriscavam a vida, a forma, a razão, muitas vezes com crianças, famílias”.

“E perceber de que forma poderia ajudar e contribuir para este momento da história que é uma crise humanitária, de solidariedade”, acrescentou, sobre o voluntariado de curta duração onde fez, por exemplo, a receção e acomodação de pessoas e atividades com crianças e jovens.

A exposição ‘Estoutro’ tem o apoio de diversas organizações como a Obra Portuguesa Católica das Migrações e o Serviço Jesuíta aos Refugiados – JRS, o Centro de Reflexão Cristã, o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados e o Comité Olímpico Português.

A Igreja Católica assinala o Dia Mundial do Migrante e Refugiado este ano com o tema ‘Não se trata apenas de migrantes’, no dia 29 de setembro.

CB/PR

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