«A descoberta da década para a história da arte no Algarve», disse historiador Marco Sousa Santos sobre as obras doados por um particular à Diocese do Algarve

Foto Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Faro, 23 jul 2020 (Ecclesia) – A Diocese do Algarve tem dois novos retratos de D. Jerónimo Osório na galeria dos bispos no Paço Episcopal em Faro, pinturas que foram restauradas depois de terem sido descobertas em “muito mau estado de conservação”, em fevereiro.

“Nos quadros – realizados provavelmente em épocas diferentes mas próximas – apercebemo-nos de que a pessoa retratada é a mesma”, explicou o investigador Nuno Campos Inácio ao jornal ‘Folha de Domingo’.

O jornal da Diocese do Algarve informa que as pinturas do bispo D. Jerónimo Osório (1506-1580), responsável pela diocese entre 1564 e 1580, estavam na posse de um particular que as recebeu numa herança e contactou o investigador Nuno Campos Inácio para “ter uma ideia de quanto é que poderia valer”.

“O interesse era que a tela ficasse na diocese”, disse o padre Mário de Sousa, contextualizando que foi contactado pelo investigador algarvio para saber qual o interesse da diocese na aquisição da pintura com data inscrita de 1577.

Neste contexto, o proprietário manifestou o desejo de oferecer a pintura e a doação incluiu uma segunda tela encontrada posteriormente entre os bens herdados.

A primeira pintura encontrada – um óleo sobre tela com aproximadamente 1,60m de altura e cerca de 1m de largura – retrata o antigo bispo de corpo inteiro, em pé, com casula, anel, báculo e mitra, com a inscrição ‘Hieronymus Osorius Algarbiensis Episcopus (Jerónimo Osório, bispo do Algarve)’ e o seu brasão de armas; Na segunda pintura, mais pequena, o bispo é retratado, de batina, sentado à secretária a escrever e com a inscrição ‘Hieronymus Osorius Sylvensis Episcopus (Jerónimo Osório, bispo de Silves)’.

O historiador Marco Sousa Santos, que analisou a primeira pintura antes de ser restaurada, escreveu em parecer técnico sobre a obra que “os traços de individualidade que se reconhecem nas feições do retratado, sugerindo que não se trata de uma figura estilizada (imaginada) mas da representação de um indivíduo em particular, parecem corroborar a hipótese de estarmos perante um retrato minimamente fidedigno e, nesse sentido, provavelmente executado em vida de D. Jerónimo ou pouco tempo após o seu desaparecimento físico”.

Foto Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Ao jornal diocesano, o mestre em História da Arte disse não ver “qualquer motivo para duvidar da datação” e destacou que “há pormenores do desenho e do próprio suporte que corroboram a hipótese de se tratar de uma obra pintada no último quartel do século XVI ou porventura nos primeiros anos do século XVII”.

Sobre a segunda pintura o historiador que só viu em fotografias salienta que “apresenta maior qualidade em termos do desenho e da técnica” e são “duas peças magníficas e que constituem a descoberta da década para a história da arte no Algarve”.

“São as únicas representações que se conhecem de D. Jerónimo Osório, figura de primeira linha do panorama cultural português da centúria de quinhentos. Depois, são dois retratos que marcam um momento fundamental da história da diocese algarvia; Mais do que pelo valor artístico, que existe (apesar de não ser extraordinário) estas peças valem pelo valor histórico e simbólico que têm”, desenvolveu Marco Sousa Santos.

O jornal ‘Folha do Domingo’ recorda que o bispo D. Jerónimo Osório concretizou a mudança da sede episcopal de Silves para Faro, em 1577, e as telas foram recuperadas na oficina do restaurador José Manuel Domingos, no concelho de Olhão.

CB

 

Foto Samuel Mendonça/Folha do Domingo

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