Capelão António Borges da Silva esteve meio ano em território afegão e apela à importância do «diálogo» no momento atual

Lisboa, 17 ago 2021 (Ecclesia) – O capelão António Borges da Silva afirmou que entre os talibãs, que chegaram rapidamente ao poder no Afeganistão, existem “pessoas boas”, sendo necessário “encontrar a melhor forma de diálogo”, e recorda o trabalho “competente, profissional” dos militares portugueses.

“Estávamos num território estrangeiro a fazer manutenção de paz e a formar os quadros, todo o nosso trabalho foi muito competente, muito profissional, em circunstâncias muito hostis e devemos estar honrados do trabalho que fizemos com muito mérito”, disse hoje o sacerdote em declarações à Agência ECCLESIA.

O capelão António Borges da Silva, que esteve no Afeganistão entre janeiro e julho em 2011, acompanha a atual situação, da chegada dos talibãs ao poder, com “emoção mas também com uma cognição”.

“Podemos, às vezes, não ter ecos disso a nível interno mas certamente as outras forças internacionais que estavam connosco no terreno percebiam que os portugueses estavam ali de alma e coração por aquele povo. Sentimos como resultado disto que se calhar a formação foi pouca, não fomos só nós a estar ali, se calhar houve alguma coisa que falhou sendo muitos países estrangeiros a dar formação às futuras forças de defesa e de segurança interna”, desenvolveu.

Contudo, para o tenente-coronel, “mais do que apontar o dedo”, é necessário refletir sobre o que é que se poderia ter feito melhor “enquanto puzzle internacional” e acrescenta que, neste momento, tem um “misto de alguma desilusão”, que é a parte da emoção, mas têm de “chamar ao de cima a cognição”.

Foto Exército Português

O sacerdote observa que no Afeganistão existem “muitos povos, muitas tribos, muitas tradições antigas”, e os afegãos são pessoas muito honradas, “para quem a vida é subserviente à honra, ao prestígio, ao domínio sobre o território”.

“Nós temos a perceção da democracia, dos ambientes sociais. Nós somos a nossa cultura e eles, cada tribo, cada grupo, têm a sua cultura e acham que são tão bons como os outros. Nós portugueses soubemos sempre tratar desta dignidade”, desenvolveu o capelão António Borges da Silva.

Neste contexto, acrescenta que é óbvia a promoção do “desenvolvimento, a socialização e a dignificação do ser humano” – homem e mulher, mulher e homem, crianças e idosos, pessoas portadoras de deficiência – mas é preciso “dar passos com aquela cultura, ter mais paciência”.

O entrevistado espera que o Afeganistão não caía no “esquecimento para bem internacional”, um país muito grande, “com muita juventude, que tem memória”, onde encontrou um povo com “muita esperança” e com “muita gente boa que estava a tentar construir comunhão, civilização”.

“A comunicação social gosta mais de se agarrar aos episódios de corrupção, de conflito, etc, também há episódios desses mas não era o pano comum. Continuo a achar que entre estes talibãs, que chegaram rapidamente ao poder também, existiram pessoas boas, temos é de encontrar a melhor forma de diálogo”, acrescentou o capelão.

O padre António Borges da Silva encontrou “afegãos sofridos” que lhe mostraram sinais de um “regime difícil” que agora volta ao poder, por isso, está “solidário com eles”.

A missão do sacerdote no Afeganistão foi sobretudo “servir o bom ânimo, o bom espírito,” dos militares portugueses e só tem a dizer “bem”, pessoas que diante do perigo “a fé se tornou avassaladora”, com uma vontade de “justiça, de retidão, de cordialidade com todos, de dignificação de todos”.

“Levamos muitas coisas e conseguimos fazer ações solidárias magníficas com as escolas, com os mais jovens, com os mais desfavorecidos”, realçou o tenente-coronel António Borges da Silva.

Em menos de duas semanas, após o início da retirada das tropas da coligação internacional encabeçada pelos Estados Unidos da América, os Talibãs tomaram o controlo do Afeganistão, chegaram à capital Cabul e preparam-se para formar um novo governo, após a governação entre 1996 e 2001.

HM/CB/PR

 

Afeganistão: Capelães militares portugueses acompanham com preocupação a tomada do poder por um sistema que é «injusto, cruel, terrorista»

Partilhar:
Share