Cónego Manuel Maria Madureira, Arquidiocese de Évora

Eu nunca fui à bruxa para saber o meu “futuro” nem para coisa nenhuma. Há quem, nas revistas cor-de-rosa, nas da especialidade e em programas lúdicos na TV, faça propaganda a isso, lendo as cartas e descobrindo o futuro nas linhas da mão! É um assunto que não pode ser levado a sério. Quero, no entanto, saber o meu futuro, mas noutra perspetiva e dimensão. Entra aqui o alcance da palavra Advento que me explica o futuro (não temporal, mas transcendente) sem que eu tenha de ir à bruxa. A palavra Advento deriva do verbo “advir” e significa “vir de lá para cá”. Não se identifica com a palavra futuro. O futuro é o verbo “ser” e refere o que pode acontecer, indo «de cá para lá». Devo preocupar-me, isso sim, em tentar saber que ensinamentos trouxe sobre o Além quem veio “de lá para cá”. Eis a razão de, agora, ter de jogar com o conceito de Advento. Se eu tivesse vivido há mais de dois mil anos, chamaria Advento ao tempo de espera da vinda do Messias-salvador, a vinda de Deus feito criança – que foi o que aconteceu em Belém. Mas, como vivo depois desse acontecimento, não posso relacioná-lo com essa vinda, porque Jesus não vai nascer de novo. A relação é com outra vinda, conforme disse: «hei de voltar para julgar os vivos e os mortos». Nessa linha, o meu futuro há de ser um encontro com este Deus-Juiz, com este Deus-Senhor de todo o mundo. E por causa desse encontro é-me ensinado: «vigia, prepara-te, está alerta, acorda do teu sono». Nas celebrações litúrgicas, os celebrantes revestem-se com um paramento roxo. A cor roxa não simboliza festa nem alegria. Pelo contrário, é muito utilizada em momentos de tristeza, de dor e de saudade, nos funerais, por exemplo. É também utilizada em liturgia com um sentido de penitência e de preparação de qualquer coisa a acontecer lá mais além. É a cor da quaresma e é a cor do advento. Vamos fazer a aplicação. A cor roxa recorda-nos a preparação para a vinda de Jesus não no natal – isso já aconteceu há mais de dois mil anos – mas dum Jesus que há de vir para nos julgar. Ao fim e ao cabo, é a preparação para a eternidade. O evangelho que se lê no primeiro domingo (do ano A) chama a atenção para as nossas distrações. Jesus o diz: «lembram-se do que aconteceu no tempo de Noé? Davam-se em casamento, comiam, bebiam. Não deram por nada até ao dia em que veio o dilúvio que a todos levou». Não deram por nada! Viviam distraídos! «Vigiai, porque na hora em que menos pensais, virá o Filho do Homem». Vivemos distraídos, pouco preparados, pouco preocupados. “Distraídos”. A vida é toda ela uma distração. Acontece que, quando se está distraído de uma coisa, está-se atento a outra. Toda a gente anda atenta e ocupada com preocupações, as suas! Infelizmente, nossa vida não é uma distração, é uma ocupação com futilidades. E há tanta gente que vive de futilidades! Distraída da preocupação com a vida eterna, porque ocupada com ninharias.

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