O culto ao Espírito Santo tem grande visibilidade nos Açores. A Caritas da Terceira está a dinamizar várias actividades com o intuito de divulgar o Espírito Santo. No bairro social do Lameirinho existe um jardim-de-infância onde as educadoras, juntamente com as crianças “fizeram um altar e envolveram todas as valências da Caritas” – frisou à Agência ECCLESIA Anabela Borba, Presidente da Caritas daquela ilha e também dos Açores.

Esta iniciativa prolonga-se até 29 deste mês (teve início a 25 de Maio) e terá várias iniciativas. Ontem, “tivemos uma palestra e rezámos o terço com a presença de público adulto que está em formação connosco” – disse a responsável. Como é tradição nos Açores, quando se reza o terço na casa onde está o Espírito Santo – neste caso era a Caritas – “oferece-se um lanche” – afirmou Anabela Borba.

Na próxima sexta-feira, 29 de Maio, “teremos a coroação dos meninos do colégio e de alguns jovens que recebem formação na Caritas”. Após a coroação, haverá o almoço para as crianças do jardim-de-infância. O culto do Espírito Santo tem grandes raízes nos Açores, mas é celebrado “de forma diferente de ilha para ilha” – sublinha Anabela Borba. E acentua: “É a festa mais importante nos Açores, a seguir ao Senhor Santo Cristo”.

Culto ao Espírito Santo

A Igreja professa a sua fé no Espírito Santo como Aquele «que é o Senhor que dá a vida» e proclama-o no Símbolo da Fé, chamado Niceno-Constantinopolitano, do nome dos dois Concílios – Niceia (em 325) e de Constantinopla (em 381). Este ano celebra-se o vigésimo aniversário da Encíclica «Dominum et Vivificantem» do Papa João Paulo II. Apresentada a 18 de Maio de 1986, «O Espírito Santo na Vida da Igreja e do Mundo» relata que esta fé, professada ininterruptamente pela Igreja, “precisa de ser incessantemente reavivada e aprofundada na consciência do Povo de Deus. Nos últimos dois séculos assim aconteceu por mais de uma vez: desde Leão XIII, que publicou a Encíclica «Divinum illud munus» (ano de 1897), exclusivamente dedicada ao Espírito Santo, a Pio XII, que na Encíclica «Mystici Corporis» (ano 1943) se referiu de novo ao Espírito Santo como princípio vital da Igreja, na qual opera conjuntamente com a Cabeça do Corpo Místico, Cristo, até ao II Concílio Vaticano que fez notar a necessidade de renovada atenção à doutrina sobre o Espírito Santo, como acentuava o Papa Paulo VI: “à Cristologia e especialmente à Eclesiologia do Concílio deve seguir-se estudo renovado e culto renovado do Espírito Santo, precisamente como complemento indispensável do ensino conciliar” (Audiência geral de 6 de Junho de 1973).

Inspiradas pelos modelos mendicantes

Em Portugal, as Confrarias, Irmandades ou Fraternidades – típicas do Corporativismo sócio-religioso medieval – «beberam» sempre da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Inspiradas pelos modelos mendicantes, estas formulavam um compromisso de vida e definiam propósitos – culto ao Salvador, Nossa Senhora ou algum santo – apoiados numa obra de misericórdia: “dar de comer aos famintos, vestir os andrajosos ou sufragar os irmãos falecidos” (Gomes, Pinharanda; In: «A cidade Nova»). E acrescenta: “são sufragâneas da caridade, servas do amor, que é este o verdadeiro nome do Senhor Espírito Santo”. As confrarias do Espírito Santo, promotoras do culto, dos dons e dos frutos, surgiram em quase todos os tempos da medievalidade e da modernidade, um pouco por todo o país. Entre os rios Douro e Tejo e, neste espaço, com maior intensidade nas dioceses de Lamego, Viseu, Coimbra, Leiria, Santarém e no extinto bispado da Egitânia (hoje divido pela diocese da Guarda e Portalegre) “os “inventários” (Gomes, Pinharanda) demonstram que existia nestas terras um arreigado culto ao Espírito Santo. Portugal continental tinha mesmo o epíteto de «Império do Espírito». Para além das localidades citadas tínhamos também na Costa Alentejana e no litoral Algarvio enclaves onde os cristãos viviam intensamente o culto ao Espírito Santo.

Os pescadores associavam-se em Confrarias de Misericórdia – de invocação ao Divino Espírito Santo – e dispunham mesmo de hospitais próprios como foram os casos de Alfama, Lagos e Tavira. Quando se olha para o mapa dos conventos franciscanos fundados na medievalidade e as zonas de influência da Ordem de Cristo (de Tomar às fortes posses no interior da Beira Egitaniense) percebe-se o porquê do culto ao Espírito Santo e às instituições que estão na rectaguarda deste mesmo culto. A teoria deste «nascimento» não é consensual para todos os historiadores. Há quem defenda que a «mãe» destas festividades – de acordo com um conjunto de narrativas eclesiásticas seiscentistas – é a rainha Santa Isabel.

Império significa, no contexto do culto, as festas dedicadas ao Divino Espírito Santo, “por antonomásia, já que Império é o nome conferível às Irmandades e às Mordomias que promovem as festividades. (Gomes, Pinharanda). Também por antonomásia, nas ilhas açorianas o nome de Império é dado a uma espécie de capelas – em alvenaria ou madeira – onde se realiza uma parte das funções ou cerimónias das festas e onde se expõem as insígnias do Divino. Existem Impérios de homens, de jovens (nas Beiras, as festas são muitas vezes promovidas pelas «confrarias da mocidade» – não têm estrutura permanente – visto que são constituídas por rapazes que nesse ano atingem a maioridade), e casais, de mulheres (caso dos Açores, na região de Viseu e do Alto Alentejo) e de meninos (Açores e Lisboa). Segundo informação de Mons. Manuel Ferreira da Silva a Pinharanda Gomes, em 1787, na Igreja de Santa Isabel (Lisboa) foi instituída a Real Irmandade do Divino Espírito Santo Império dos meninos. Existem igualmente relatos que referem que em determinados conventos de Lisboa e dos Açores se faziam Impérios de Freiras.

A mais antiga Confraria do Espírito Santo

A mais antiga Confraria do Espírito Santo de que há noticia é a de Benavente, anterior às festas de Alenquer, e que cuidava de duas obras de misericórdia: dar de comer aos famintos e enterrar os mortos. “Os confrades participavam nos funerais com uma dança de carácter sagrado, a celebração jubilosa da morte” (Azevedo, Ruy Pinto; “O compromisso da Confraria do Espírito Santo de Benavente”; in: Lusitânia Sacra, 6, 1962). Apesar de Benavente ver nascer a sua confraria primeiro, a localidade de Alenquer – por iniciativa da rainha Santa Isabel – viu “as primeiras e mais importantes festas” (Gomes, Pinharanda) dedicadas ao culto do Espírito Santo.

A partir do continente, as Festas do Espírito Santo irradiaram para um conjunto de territórios povoados e colonizados pelos portugueses. A sua existência é conhecida na Madeira e no Brasil mas foi, sobretudo no arquipélago dos Açores – onde a sua origem “parece remontar aos tempos iniciais do povoamento” (Frutuoso, Gaspar; in: “Saudades da Terra”) – que elas conheceram uma difusão mais importante. Atestada pela sua presença em todas as freguesias do arquipélago açoriano, esta vitalidade das Festas do Espírito Santo “expressa-se também na constante capacidade de diálogo entre tradição e modernidade que elas evidenciam”. (Leal, João; “As Festas do Espírito Santo nos Açores”; in: Communio, 2, 1998). Esta vitalidade expressa-se também no modo como, a partir destas ilhas atlânticas, as Festas se difundiram nos principais contextos de acolhimento da emigração açoriana: primeiro o Brasil e depois nos Estados Unidos da América e no Canadá.

As Festas do Espírito Santo não se limitam somente ao Domingo de Pentecostes. Elas começam à meia-noite de Sábado de Aleluia e prolongam-se até à Festa de Pentecostes, data em que a Igreja celebra a descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos. Em determinadas localidades dos Açores, elas estendem-se “pelo Verão adentro, incluindo as «festas joaninas» e, nalgumas ilhas, ainda se festejam em Outubro, pouco antes do início do Advento”. (Gomes, Pinharanda). Esta dilatação do tempo deve-se ao facto do bispo de Angra, D. António Vieira Leitão, ter determinado, no início do século XVIII, “que não houvesse mais do que um Império ou festa com «vôdo» em cada freguesia e que não fossem celebrados no mesmo dia em todas as freguesias mas que estas o fizessem em cadeia ao longo dos Domingos a partir da Páscoa” (Gomes, Pinharanda). Uma forma dos pobres terem mais oportunidade de receber esmola, assistência e alimento durante mais tempo.

Coroas do Espírito Santo

No centro dos festejos encontra-se uma ou mais Coroas do Espírito Santo, forma consagrada de representação da divindade. Estas coroas são de prata trabalhada – encimadas por uma pomba – e constituem a insígnia central de um conjunto de que fazem ainda arte um ceptro e uma salva, ambos em prata. As formas de organização dos festejos, ao mesmo tempo que prevêem a participação e intervenção do conjunto comunidade, caracterizam-se sobretudo “pelo relevo que concedem a formas de patrocínio individual dos festejos, resultantes em muitos casos de promessas feitas ao Espírito Santo”. (Leal, João). Depois dos anos 60, devido à influência da emigração, tornaram-se frequentes os casos em que este patrocínio individual tende a ser assegurado por emigrantes, que se deslocam expressamente aos Açores.

O imperador é secundado por um determinado número de ajudantes que assumem determinadas funções. Entre estes destaca-se a «folia» que assegura a direcção e o acompanhamento musical dos festejos. Em muitas ilhas, as folias têm vindo a ser gradualmente substituídas por filarmónicas. Em geral, a sequência dos festejos articula-se em torno de três referentes espaciais: a casa do imperador (onde a coroa é instalada num altar); o Império e a Casa do Espírito Santo (dois edifícios ligados exclusivamente ao culto do Espírito Santo) e a Igreja paroquial. A cerimónia religiosa “mais importante das Festas é sem dúvida a coroação, que consiste na imposição solene da Coroa ao imperador ou mordomo, ou alguém por ele escolhido, realizada pelo padre no termo da missa” (Leal, João).

Sopas do Espírito Santo

A sequência ritual das Festas do Espírito Santo concede também um lugar de relevo a um conjunto de refeições, dádivas e distribuições de alimentos cerimoniais. Nestas dádivas estão incluídas as «célebres» sopas do Espírito Santo – feitas à base de carne de vaca cozida e de fatias de pão de trigo – diversas variedades de pães de massa sovada, biscoitos e doces. Apresentam uma importante dimensão religiosa mas caracterizam-se também pelo relevo que concedem às relações sociais: tanto dos residentes como daqueles que se deslocam propositadamente dos países onde estão a laborar.

Estes festejos contrariam as leis dominantes da mentalidade actual que vive baseada “no interesse e na eficiência” (Dias, Manuel Madureira; “Com o Espírito Santo rumo ao ano 2000”). Por isso, “poucas coisas têm uma força tão irresistível como o gesto gratuito do dom, porque contradiz a lógica fria do lucro”. Para que o Espírito Santo alimente em nós a esperança e a torne eficaz precisa de encontrar receptividade e cooperação. As festas dos Espírito Santo são um exemplo dessa receptividade.

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