Pedro Strecht sublinha que «não falta nenhuma colaboração de ninguém», por parte dos bispos diocesanos

Foto: Lusa

Lisboa, 10 mai 2022 (Ecclesia) – O coordenador da Comissão Independente para o Estudo de Abusos Sexuais contra Crianças na Igreja em Portugal disse hoje que a maioria das vítimas que testemunharam continua a afirmar-se como católica.

“A grande percentagem das pessoas que responde ao inquérito considera-se católica, como era à data dos abusos, e continua a descrever-se, após os abusos, como maioritariamente católica. É gente da própria Igreja que, à Igreja em geral, interessa continuar a cuidar, tanto agora como no futuro”, referiu Pedro Strecht, em declarações aos jornalistas.

O responsável falava após a abertura do colóquio sobre ‘Abuso sexual de crianças: Conhecer o passado, cuidar do futuro’, que decorre na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Questionado sobre a resposta dos bispos diocesanos aos pedidos de entrevistas da comissão, o pedopsiquiatra adiantou que as mesmas já foram realizadas ou estão agendadas.

“Não falta nenhuma colaboração de ninguém”, precisou.

A comissão informou ter recolhido 326 testemunhos até à noite de segunda-feira, de todos os grupos etários, os níveis de escolaridade e modalidades de abuso representadas no inquérito.

“Em mais de metade dos testemunhos, as pessoas apontam com elevado grau de certeza a possibilidades de existirem mais vítimas. Como sabemos aliás, no geral, isto é sempre a ponta de um icebergue”, observou Pedro Strecht.

Para o especialista, nas vítimas “continua a prevalecer o medo, a vergonha”, embora algumas pessoas se sintam motivadas a falar pelo testemunho de outras, percebendo que “não estão sozinhas”.

“É preciso vencer o medo”, acrescentou, sublinhando a necessidade de conseguir distinguir, “cada vez melhor, pessoas de uma estrutura ou uma entidade”.

A Igreja tem de continuar, também na sua hierarquia, a vencer o medo, a perceber que se nos encomendou este estudo, o principal interesse da sua realização e da obtenção de resultados é da própria Igreja”.

O coordenador precisou que a comissão tem falado em “ocultação” e não em “encobrimento de casos”, por parte da hierarquia católica.

“Existiu ocultação de várias situações por parte de membros da Igreja Católica portuguesa”, indicou, esperando que não se faça “ocultação da ocultação” com o estudo dos arquivos.

Este trabalho está a cargo de uma equipa de historiadores e arquivistas, liderada por Francisco Azevedo Mendes, professor da Universidade do Minho.

A Conferência Episcopal Portuguesa e a Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal reiteraram, em abril, “todo o interesse em colaborar com a Comissão Independente e a equipa por esta designada, respeitando a Lei Civil, a Lei Canónica e o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados”.

Pedro Strecht apelou ainda à colaboração das várias paróquias, admitindo que existem várias sensibilidades sobre o tema.

“Quantos mais puderem colaborar, incluindo a própria sociedade civil, melhor para todos”, sustentou.

Em resposta aos jornalistas, o pedopsiquiatra recordou que já há 16 casos enviados ao Ministério Público e adiantou que outros se deverão seguir, esperando não ser confrontado com uma “total ausência de respostas jurídicas”.

As denúncias e testemunhos podem chegar à comissão através do preenchimento de um inquérito ‘online’ em darvozaosilencio.org; do número de telemóvel +351917110000 (diariamente entre as 10h00 e as 20h00); por correio eletrónico, em geral@darvozaosilencio.org; e por carta, para “Comissão Independente”, Apartado 012079, EC Picoas 1061-011 Lisboa.

O colóquio contou, entre outras, com uma intervenção de Anselmo Borges, padre e professor da Universidade de Coimbra, o qual rejeitou uma relação causa-efeito entre celibato e abuso sexual de menores, alertando, no entanto, para a possibilidade de “sexualidades distorcidas”.

O convidado apontou o dedo ao “clericalismo” e ao “abuso do poder”, na hierarquia católica, destacando a necessidade de um maior envolvimento das mulheres nos lugares de decisão.

LS/OC

O padre Nélio Pita, provincial dos Vicentinos em Portugal, admitiu à Agência ECCLESIA “preocupação e tristeza” por todos os casos de abuso que aconteceram no passado, bem como “uma certa esperança, um certo alívio”.

“Este caminho era absolutamente necessário fazer, o da identificação dos casos”, referiu.

O responsável considerou ser necessário que a ação “nefasta” e “horrorosa” de um número preciso de pessoas não seja confundida com “a ação da grande maioria dos homens e das mulheres que constroem a Igreja”.

“Tenho procurado mobilizar os meus irmãos, os meus confrades, para que não estejam à margem do que é a onda, a preocupação da Igreja”, acrescentou.

O provincial dos Vicentinos deseja que se dialogue sobre este tema nas comunidades, junto dos colaboradores, para “que estas situações possam vir a público, possam ser tratadas, acolhidas, que se possa avançar”.

O padre Nélio Pita adiantou que tenciona manter contactos com antigos alunos dos seminários, para saber se houve “experiências negativas”, neste campo.

“Estamos a fazer o que está ao nosso alcance para que esta situação não fique escondida, guardada”, conclui.

Partilhar:
Share