Moderador do encontro promovido pelo Papa no Vaticano fala em momento «mais intenso» da cimeira de bispos e religiosos

Foto: Osservatore Romano

Octávio Carmo, enviado da Agência ECCLESIA ao Vaticano

Cidade do Vaticano, 23 fev 2019 (Ecclesia) – Uma mulher italiana impressionou os participantes na cimeira dedicada à proteção de menores na Igreja, a decorrer no Vaticano, ao dar o seu testemunho sobre abusos sofridos por um padre, com 11 anos de idade.

“A vítima não é culpada pelo seu silêncio! As feridas não prescrevem, pelo contrário”, referiu uma das pessoas ouvidas pelos 190 presidentes de conferências episcopais e superiores de institutos religiosos convocados pelo Papa.

As intervenções que encerram os dias de trabalho, desde quinta-feira, são gravadas e projetadas em vídeo na Aula Nova do Sínodo, o auditório que acolhe as reuniões desta inédita cimeira.

A mulher italiana lamentou que o tempo entre os factos e a denúncia seja visto como uma “atenuante” para o abusador.

“O trauma e os danos sofridos crescem à medida que o tempo do silêncio aumenta, que a vítima permanece entre o medo, vergonha, distanciamento e sentimento de distância”, declarou.

Os abusos, que começaram aos 11 anos de idade da vítima, prolongaram-se durante cinco anos.

A irmã Veronica Openibo, religiosa nigeriana que foi hoje uma das conferencistas da cimeira, disse aos jornalistas que “alguma coisa aconteceu naquele auditório”, quando se ouviu este testemunho.

Já o padre Federico Lombardi, moderador do encontro, considerou-o como o “momento mais intenso” da iniciativa, que se prolonga até domingo.

A vítima relatou os vários distúrbios que se seguiram aos abusos, as dificuldades de relacionamento e o efeito de memórias que a impediram de amamentar o primeiro filho, situações usadas contra si, quando se divorciou.

“O abuso cria um dano imediato, mas não é só isso: tem de se conviver com ele para sempre”, confessou.

A mulher, cuja identidade não é revelada pelo Vaticano, deixou duras críticas a todos os que, perante esses crimes, “minimizam, escondem, mandam calar, ou ainda pior não defendem os pequenos, limitando-se com mesquinhez a deslocar os sacerdotes para fazerem mal noutros lugares”.

“Estou aqui e comigo há meninos e meninas abusadas, mulheres e homens que tentam renascer das suas feridas, mas há, principalmente, os que tentaram e não conseguiram; partindo daqui, com seus corações, devemos recomeçar juntos”, concluiu.

OC

A reportagem em Roma no Encontro sobre Proteção de Menores na Igreja é realizada em parceria para a Agência Ecclesia, Família Cristã, Flor de Lis, Rádio Renascença, SIC e Voz da Verdade.

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