A Quaresma e os cinco sentidos

O programa Ecclesia, emitido diariamente na Antena 1, iniciou na primeira semana da Quaresma um caminho através dos cinco sentidos humanos. A cada noite, através da vivência e reflexão de um convidado, quisemos propor a profundidade que cada sentido nos oferece, a capacidade de ler as relações e o mundo a partir dele, convocando-o para viver o tempo de Quaresma, que agora termina. Para revisitar esses momentos ou fazer, agora, esse caminho, fica o essencial.


António Pedro Monteiro, sacerdote dehoniano e capelão hospitalar

O Cheiro

O bom e o mau cheiro

“Ao falar de Quaresma falamos de um período de restabelecimento de saúde: é um período para arejar a casa, permitirmos um fluxo de ar, deixarmos os cheiros do Inverno, somos convidados a respirar melhor”, começa por traduzir o padre dehoniano.

O convite, continua, é perceber que da destruição máxima, simbolizada na cinza de quarta-feira de cinzas, se caminha para os “cheiros da Primavera”, onde acontece a Páscoa.

“Simbolicamente não há nada na tua vida que não se possa erguer ou ressuscitar, é isso que este período indica. Assim é recordado a crentes, mas as estações do ano também o recordam a não crentes”, reconhece o padre dehoniano.

É nesta mudança de estação e início da Primavera que o cheiro a terra tem “honras de palco”, recorda o capelão hospitalar, porque é da terra que vão surgir as flores, e o odor a terra molhada convida “à promessa e à humildade”.

“O cheiro a terra molhada mexe com memórias” e as recordações de odores podem ser caminhos trilhados: na terra suja, de onde nascem as flores, “é lugar de vida, onde a vida nasce e renasce, onde a vida não é devorada”.

Lembra o padre dehoniano que, a respiração é um fluxo: “A sua etimologia – «edo», do grego ‘comer’ e do «odo», deixar cheiro”.

“Fala-se de uma apropriação porque só há odores que apenas quando os comemos e degustamos os podemos sentir; trata-se de uma dádiva, também, quando deixamos um odor. Para que o cheiro aconteça e seja percetível falamos de um fluxo de ar, de ar que me é dado, de um cheiro que é deixado: trata-se de um ciclo vital, tal como o são as nossas relações”.

Na Quaresma, sublinha o padre António Pedro Monteiro, “há um claro convite, em especial a quem segue a vida de Jesus, a uma reconciliação com aqueles que nos são dados”.

A Quaresma é um ótimo exercício para nos lembrar a carência que temos uns dos outros, tal como a respiração”, indica.

Se há sentidos que “parecem ser de sobrevivência”, há outros, indica, que se associam ao luxo e ao prazer, ganhando outro valor ou prioridade.

“Tempos houve em que o cheiro era um fator de diferenciação, o cheiro do corpo, o mau cheiro, o cheiro do perfume, o bom cheiro, associado à riqueza e à pobreza, a estratos sociais, associados ao poder ou não poder. E tudo o que isso implica nas nossas relações: se o cheiro repugnante, é a pessoa que passa a ser repugnante. Passa a influenciar a nossa capacidade de aproximação”, indica.

Mas Jesus vem desconstruir essa lógica: “Jesus diz que os cheiros não nos explicam”.

”No episódio da morte de Lázaro, quando Jesus pede para abrirem o túmulo contra todas as expetativas, uma irmã de Lázaro diz que ele já cheira muito mal, passaram quatro dias desde a sua morte. Vemos aqui associado o mau cheiro à morte, a morte implica deixar mau cheiro e isso também agrava o conotar o mau cheiro ao pobre, que carrega o peso que é o cheiro a morte. Jesus, ainda assim, perante o cheiro nauseabundo de um corpo morto há quatro dias não desiste”.

Com este relato, Jesus “ultrapassa a barreira da diferenciação, da pobreza, da rejeição, do repugnante” e há uma promessa.

“Jesus junta os mal cheirosos e bem cheirosos, faz diluir fronteiras. Há-de ser um convite aos que se inspiram na sua vida, quaisquer que sejam os graus de pertença, serão esses que se empenham em diluir fronteiras, em ultrapassar barreiras de cheiro, barreiras que são cheiro de pobreza e de morte. É quase um programa para todos os que seguem Jesus. A capacidade de penetrar cheiros, juntar cheiros, diluir odores, fazer o que nós preferimos no dia-a-dia, uma neutralidade de odores, ou tão leve e suave que seja agradável a todos. É isto que a Igreja é chamada a fazer”.

 

O cheiro a ovelhas

Quer nos aproximemos para cheirar as ovelhas quer transportemos esse cheiro connosco, ambas as atitude implicam proximidade, conhecer o cheiro de alguém, implica sentar-se com alguém, demorar-se com alguém.

“Nos exercícios pastorais de acolher lágrimas, vidas inteiras, cicatrizes e feridas, é muito provável ficarmos com o cheiro dos que acompanhamos”, reconhece.

Cinco anos como capelão no Centro Hospitalar de Lisboa Norte e há três anos no Hospital de Santa Marta e na Maternidade Alfredo da Costa, é nestes locais que o Papa Francisco pede ao padre António Pedro Monteiro que cheire a ovelhas.

“Os hospitais têm cheiros característicos. Diria, que não são da nossa coleção de bons odores, pelo contrário: alguns são repugnantes, outros porque nos trazem memórias, trazem experiências às memórias e são descartáveis, não desejáveis. O ideal é que seja um lugar isento de odores, é possível que haja cheiros característicos”.

“Para quem está no hospital, o melhor perfume é o da companhia, é a visita, a presença, a relação.  O que faz contrastar o cheiro da doença, ao cheiro da morte, o bom cheiro associado à vida fresca e limpa, é o perfume da relação, da proximidade, deixar que o outro se narre, deixar que o outro se liberte do mau cheiro, é uma espécie de libertação na proximidade, na presença e acompanhamento hospitalar, seja por quem trabalha, ou por quem vai cuidar, mesmo que de forma informal”.

O seu trabalho, assume, “é dar espaço para que saiam perguntas, que podem ser caminhos sem saída mas que têm de ser percorridos pelo próprio”.

“Não faz sentido dar respostas antes de haver perguntas, calar uma necessidade de dizer. O trabalho que me é pedido, é cuidar a relação e seguimos. Fazer com que isso aconteça na apresentação de si próprio, na narração de si próprio, na apresentação de uma história inteira, com feridas, com cicatrizes, perdas e ganhos”.

E, indica, há uma enorme dificuldade desta narração acontecer sem proximidade, sem tempo gasto, sem atenções paradas e focadas: “É uma tarefa que não se faz de outra forma que não pela proximidade e nesta troca de odores, num respirar juntos”.

Se há cheiros inexplicáveis, é também misterioso o que “Deus quer fazer com cada um”.

“No inexplicável Jesus vai chamando sempre. O registo escolhido por Jesus é o da relação, dos laços, ele que se esforça a vida inteira por oferecer condições de relação”.

E os autores dos Evangelhos mostram “um Jesus” capaz de fazer o que outra pessoa pode fazer: “não só olhando a vida como oportunidade, pensa lá tu que tens saúde e te sentes curado, pensa na tua oportunidade, e ao mesmo tempo sente-te também capaz de curar”.

“A imagem definitiva de Jesus, o Jesus vivente, o Jesus ressuscitado e que literalmente é o Jesus reerguido, apresenta-se com feridas, em certa medida para nos dizer que é igual a ti, não precisas de capacitações para fazer determinada coisa, ou para te pores no mesmo caminho que ele, não precisas de super poderes para experimentar dares a tua vida. Em certa medida, essa semelhança de se apresentar ferido como tu, como eu, é já uma possibilidade de te dar protagonismo: tu podes fazer o que eu falo, tu nas tuas feridas, és o melhor curador, quem melhor para compreender as feridas do outro do que aquele que se sabe ferido, que não disfarça as cicatrizes, que sabe que a história é feita disto”.

 

O jardim perfumado

“O jardim é o espaço preferido dos evangelistas para colocarem esta presença de Jesus que nos convida a um recomeço. O Jesus erguido, como diz os textos, é confundido com um jardineiro e é buscado num jardim”, destaca o padre dehoniano.

O jardim é a promessa de que nada do que esteja morto não possa reerguer-se: “no Inverno é lugar de morte e cinzento, que depois se torna lugar das cores”.

O padre António Pedro Monteiro afirma que também nós podemos ser jardineiros que cuidam de flores, que gastam o seu tempo e o seu cuidado.

“A flor, que não é precisa, não salva o mundo, que não acaba com a fome nem a guerra, que é do domínio do inútil, leva-nos, por outro lado, a refazer a frase porque não imaginamos o mundo sem arte ou flores. Não imaginamos o mundo sem o que classificamos de inútil. A beleza é sem porquê. O olhar de Jesus sobre aqueles com quem se cruza, os discípulos sentimo-nos cruzados pelo seu olhar, é também um olhar que nos despista porque é sem porquês…Deus não quer o discurso das justificações, o olhar de Deus para nós é também sem porquê. O amor é assim, não se justifica, não se mede, não se empresta. É uma promessa e uma confiança”.

E torna-se incontornável, assume, recordar o livro «Cântico dos Cânticos».

“Há um amado e uma amada, dois enamorados que se buscam no livro, curiosos, que ouvem o rumor dos passos, sentem a voz, sentem o perfume um do outro, tal é a proximidade… Mas no livro, verdadeiramente nunca se encontram. O sonho, a imaginação, o desejo é o lugar do encontro. Fisicamente nunca se encontram e desejam-se sentindo o próprio odor um do outro”.

“Esta é a experiência dos crentes: sentirmos presença, a voz, sentirmos um rumor de passos, de perfume nas nossas relações, sentimos um Deus que nos atravessa de uma forma entre brisa e perfume, passos e rumores, e nós verdadeiramente nunca o vemos face a face. A imagem mais parecida com Deus é o nosso mais próximo, aquele feito de nós, para quem somos feitos”. 


Helena Valentim, professora de Linguística

A Visão

Os olhos e a relação

Ao nascer um bebé tem um espectro de visão de cerca de 20 centímetros, que equivale à distância que precisa para ver o rosto da sua mãe. A professora Helena Valentim socorrer-se deste exemplo para nos sugerir a singularidade de uma relação criada a partir da visão.

Na nossa cultura, a visão adquire um significado de compreensão, de cuidado, de entendimento.

“Usamos frequentemente expressões como «estás a ver», para aferir se estás a perceber, se estás a compreender. Mas há outra expressão: «o olhar por», que revela cuidado. Emerge o sentido de uma relação de qualidade”, reconhece.

Contemplar, reparar, são atitudes que partem de um primeiro olhar que se tem e a visão é a “porta para conhecer e para a relação”, indica.

A posição dos olhos, colocados no rosto, indicam uma “frontalidade”, um “olhar de frente”: “por si só, um convite à relação: eu convoco o outro porque o olho. Ao mesmo tempo digo-me disponível porque o olho. Há uma circulação que o olhar permite operar na relação.

Mas, reconhece a professora de Linguística, se o olhar convoca a uma relação, há também uma dimensão “menos luminosa”, de que somos “protagonistas” e “herdeiros”: “o olho de Deus, a omnisciência de Deus; intuímos que não é tanto o olho que dá o ser, mas é o olho que vigia”, reflete.

“Continuemos herdeiros desta representação do olho de Deus, mais ligados ao Antigo Testamento do que ao Novo. Um olhar que pune”, assume.

Mas na Bíblia multiplicam-se exemplos da forma como somos olhados por Deus:

O Livro do Génesis, no relato da criação, diz «E Deus viu que tudo era bom»; o salmo 139 diz «Senhor, tu me vês e me conheces».

Helena Valentim sublinha um “olhar de Deus que é criador”, “confirma e “dá futuro, porque o que é bom é para permanecer, continuar e perdurar”, provocando a «espantosa realidade das coisas», de que fala Alberto Caeiro.

«Eu vi o sofrimento do meu povo», um excerto do livro do Êxodo, sugere que somos vistos por Deus e que o nosso encontro é com um “olhar de Deus que liberta”, tratando-se de um “eco do olhar criativo de Deus, porque este olhar criativo, cria e gera mas gera libertando, ajudando e permitindo que seja”.

Helena Valentim lamenta que o olhar humano não reflita, “necessariamente”, a “dimensão libertadora e criativa de Deus”.

Também o Livro do Génesis indica um olhar de domínio: «sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra, submetei-a, faça-se o homem para que domine sobre…»

“É um olhar que projetamos e que não é certamente o olhar criador e libertador de Deus. Fomo-lo interpretando de uma forma predadora”, lamenta.

Através do olhar de Jesus somos convidados a mudar este paradigma – «Olhar por».

“Há quem fale na conversão de Jesus aos outros por aquilo que ele tem de capacidade, de ver para lá da superfície, do que era considerável estigmatizável, pecado. Jesus olha para cima, para Deus, certamente, e vê-lo muitas vezes recolhido, mas olha também para o lado”, sublinha.

Recordemos a história de Jesus e Zaqueu, que lemos no Evangelho de Lucas: “ Zaqueu sobe ao sicómoro para olhar e não para ser visto. E Jesus surpreende-o, e convida-o a descer, a nivelar o seu olhar, a sintonizar com o seu olhar, com as suas palavras, com o seu desejo”.

Também o encontro com a samaritana, no Evangelho de João: Jesus sentou-se junto ao poço e é a partir daí que o diálogo começa.

“Colocar-se ao nível da samaritana é físico mas é também uma busca da sua mundividência. Olhá-la ao mesmo nível é o interesse que ele manifesta sobre a sua vida. Há aqui pedagogia de Jesus para dialogar, que passa por um olhar que se dirige, nivela, que se detém sobre estas pessoas”, indica.

O olhar de Jesus pode ser “a chave para o nosso olhar de cuidado e acolhimento que transforma: a nós, porque somos surpreendidos pela inteireza e dignidade dos outros quando olhamos; também o nosso olhar, quando se demora nos outros, pode transformar a relação e os outros, acreditemos”.

“O olhar de Deus continua a acontecer nos nossos olhos quando os projetamos”, indica.

Helena Valentim afirma a falta de preparação para lidarmos, tantas vezes, com o que olhamos.

“A vida nova que é constantemente prenunciada em tantas visões, no tecido dos nossos dias, não temos sempre capacidade de a apreender e de a antecipar”.

A cruz, indica a professora, “é necessária”.

“Quando se fala em ver a cruz, penso na passagem do centurião que se encontrava frente da cruz e que, ao suspiro de Jesus, clama «verdadeiramente este homem era o filho de Deus». Há uma visão da cruz, quando se vê, desarma. A visão do sofrimento, é um enigma, algo insólito, profundamente perturbador, assim como vemos este homem desarmado diante da morte, também nós experimentamos este espanto diante de todas as mortes e sofrimento. É um mistério”, reconhece.

Mas há um itinerário para chegar à cruz, proposto pela via-sacra: “Nestes quadros sucedem-se os olhares que recaiam sobre Jesus e o seu sofrimento; eram olhares anónimos que, podemos interrogar… como cada um olhava? Como espetador daquele sofrimento, daquela história, que sínteses se faziam?”

“E esta é a interrogação que podemos continuar a fazer: perante o sofrimento que hoje desfila diante dos nossos olhos e, verdadeiramente desfila nos nossos ecrãs, como vemos esse mistério do sofrimento?”

Sugere Helena Valentim que a paixão e a morte de Jesus “desinstala da banalidade do sofrimento”.

“A banalidade do sofrimento tende a ser percecionada por nós convocando a emoção, o sentimentalismo, o pathos. Colocamos nas redes sociais o emoji da lágrima. Perante o sofrimento de Jesus não nos fixamos no emoji da lágrima, há qualquer coisa que nos move. Precisamente porque tem um horizonte de vida nova, só pode ser traduzida em ação, porque nos convoca à transcendência. Não é uma compaixão que paralisa e tem um horizonte de transcendência”.

Susan Sontag tem um livro «Olhar o sofrimento dos outros», em que reflete sobre a compaixão que a abundância de imagens suscita, ao mesmo tempo cria uma emoção instável, esta expressão é dela. Não se traduz em ação.

“Mas o sofrimento de Jesus não foi para ser rememorado, foi caminho que nós: não entendemos, mas intuímos e continuamos a buscar e a aprofundar nas nossas vidas. Somos mobilizados para uma vontade: a morte e o sofrimento dos nossos irmãos não têm a última palavra”, sublinha.

 

O elogio do olhar noturno

Helena Valentim sugere que o olhar diurno “tende para a velocidade” e ao invés, o olhar da noite “é lento, que se tem de esforçar, tem outros ritmos e que nos convida a ver de outra maneira”.

“O olhar diurno é um olhar apressado mas que configura o olhar técnico, científico. A técnica faz-nos, hoje, crer, que podemos ver tudo, há um mito de transparência, como se o nosso olho pudesse processar, mesmo do ponto de vista neurológico, como um computador o processa. O computador torna-se um padrão e o olho é um recetor. Todos experimentamos a acumulação das visualizações, de informação que retemos, como se fosse o critério para o que se vê e se conhece. É o elogio da velocidade, é um olhar rápido que só pode ser superficial é o olhar do ver por ver, que podemos questionar até que ponto vemos, até que ponto não reparamos: vemos mas não reparamos porque não paramos para ver”.

A noite, ao contrário, é “propiciadora de um olhar mais demorado, mais lento”, “antevê o tropeço dos passos pelo receio de não vermos onde colocamos o pé”.

“A experiência do olhar à noite convoca outros sentidos”.

 

 

“Num tempo da visibilidade absoluta, das luzes leed que iluminam ostensivamente as nossas noites, impõe-se retomarmos este olhar na noite, um olhar que encare a escuridão e perceba o obscuro e a fragilidade inerente a qualquer ver”, sugere.

“O filme, «O Esplendor», aborda a delicadeza dos sentidos: há um fotógrafo que está a perder a visão e há uma jovem que vai ensinando como olhar o mundo, invisível aos olhos, vai aprender a contemplação”, recorda.

“Quando deixa de ver, aprende a contemplação”.

 

 

“O próprio Deus é este oculto e é na medida em que é oculto que nos relacionamos com, é importante manter esta relação de mistério que alimenta o nosso desejo. Porque Deus não tem rosto, emerge na história com um rosto de um homem, num gesto e numa proximidade. É desta necessidade da relação com Deus que decorre a geração de Jesus na história”, indica.

Perceber que Deus não tem rosto “é um convite à humildade”.

“Quando nos olhamos, a partir da perspetiva da misericórdia, acontece uma comunicação diferente: colocamo-nos mais inteiros perante o enigma da existência de cada um e o diálogo ganha outra qualidade”, sugere.

Helena Valentim recorda o pensador Martin Buber ao afirmar que o ódio se opõe ao olhar misericordioso porque não toma a pessoa na sua totalidade, mas parcial – o ódio incide sob um aspeto da pessoa. O amor opõe-se a esta lógica.

“A grande experiência da fé é a certeza do olhar incomensurável de Deus. Somos vistos por Deus deste jeito”, finaliza.

chef Kiko Martins

O Paladar

O património familiar e o paladar

Os sabores tropicais acompanharam o crescimento de Francisco Martins, mais conhecido por chef Kiko: nascido no Rio de Janeiro, no Brasil, é ali que radica o seu gosto em misturar.

“Nasci no Rio de Janeiro e cresci com sabores tropicais; tenho maior apetência para gostar de sabores tropicais: a manga, o coco, o caju, a feijoada, mas isso vem desde criança”, recorda.

O património que cada pessoa tem ao nível do paladar “acompanha a vida” e muito se relaciona com “o que se gostou e comeu durante a infância”.

Numa mesa onde se sentam oito irmãos, o sabor misturava-se com “muita azáfama e confusão”, mas fazia sobressair o essencial que não o paladar.

“Quando considerarmos o gosto e o paladar como o mais importante, reduzimos a mesa à sua insignificância. O gosto tem um sentido importante mas este só ganha o seu expoente máximo quando é complementada com outras pessoas”, indica.

“O mais importante da mesa é a capacidade de estarmos à mesa, de silenciarmos e olharmos nos olhos uns dos outros, de crescermos e nos conhecermos à volta da mesa. O que bebemos e comemos potencia tudo isto. Reduzir ao ato de comer, reduz e entristece algo tão bonita, importante e histórica que é a mesa”, sublinha.

O “gostar” ou “não gostar” de algo, relaciona-se com “a velocidade”.

“Temos de comer com calma. Nos dias atuais estamos a comer e a conversar e estamos de tal forma distraídos que de repente parecemos glutões a ingerir alimentos sem saborear. A comida merece atenção, e só saboreamos se, entre as garfadas, formos conversando com calma e atenção”.

O sentido do paladar leva uma pessoa a convocar outros sentidos: os olhos e os ouvidos também comem.

“O que é saborear uma torrada sem ouvir o crocante? Ou saborear uma laranja sem sentir o seu aroma? Tapamos o nariz e experimentamos dar uma trinca numa laranja…O nosso gosto precisa obrigatoriamente de outros sentidos”.

Numa casa com oito irmãos mais velhos, Francisco Martins tinha de aprender a ajudar, ser útil e “desenrascar”.

“Na cozinha eu sentia-me útil, podia ajudar e era o local onde eu obtinha pontos juntos dos meus irmãos para conseguir outras coisas. Era uma bolsa de favores e obrigações que me dava jeito”, recorda. Nesse tempo radica a calma que o espaço da cozinha lhe traz.

“Eu sei que a muita gente a azáfama da cozinha cria ansiedade, mas a mim não. É um lugar que me dá paz. A cozinha dá-me calma. O toque e manusear os alimentos dá-me calma: agarrar numa cenoura, alho, cebola, umas bochechas de porco, vinho tinto, tomilho, sal e pimenta e estufar e ver que daqui a 2h30 aquela bochecha pode dar alegria a outra pessoa. A cozinha dá isto de forma imediata”, indica.

O chef Kiko diz que cozinhar é respeitar o tempo.

“A cozinha necessita de amor. Parece piroso mas é muito verdade. A cozinha precisa de atenção. Quando estamos a cozinhar precisamos de estar presentes. É preciso azeite, marcar as bochechas, selá-las por fora…. Depois fazer um bom puxado com os legumes, ganhar cor, juntar o vinho e fazer um processo de «glaçaje», tirar a parte escura e juntar as bochechas, o sal e a pimenta… O carinho, o amor, é o acompanhar, o estar presente. Olhar para as coisas com atenção”.

O tempo para cozinhar é o mesmo tempo que deve respeitar os alimentos, sabendo que “o tomate não sabe sempre ao mesmo” ou a “cenoura que, às vezes, é está mais amarga”.

“É preciso sensibilidade, precisa por isso de presença. É como um amigo ou como uma mulher”.  

 

Crescer com a comida e com as relações

Foi pelos 18 anos, quando Francisco Martins começou a ser voluntário com a instituição Comunidade Vida e Paz (CVP), uma instituição particular de solidariedade social, ligada ao patriarcado de Lisboa, que presta auxilio às pessoas em situação de sem-abrigo, que descobriu o poder que os alimentos poderiam ter.

“Quando nos apercebemos do prazer, quase egoísta, de fazer o bem e podermos chegar às outras pessoas através da comida é algo que nos enche a alma”, recorda.

Na CVP, o chef Kiko percebeu que a comida é um veículo para aproximar as pessoas.

“Se a comida fosse um fim em si mesmo, nós tomávamos um comprimindo e não perderíamos tempo. Mas a comida tem o lado mais importante que o seu lado nutricional. Com a CVP aprendi isso, e foi um motor de mudança na minha vida”.

Foi nessa altura que recordou todas as vezes que ia para a cozinha de sua casa fazer bifes, porque a mãe os “passava demais”, das vezes que fazia bolos para ganhar uns trocos entre os vizinhos, e de sempre se sentir confortável na cozinha.

“A comida é um veículo para construirmos relações, olhar nos olhos das pessoas, oportunidade para nos rir de nós próprios. Uma mesa precisa de tempo: os alimentos precisam de tempo para ser cozinhados, mas também para ser degustados e vividos. Durante uma semana há 14 momentos de convívio social, por alguma razão é assim”, reconhece.

A experiência com a CVP ajudou o chef Kiko a perceber o quanto os alimentos podem ter uma responsabilidade social e humana.

“Vi uma frase num livro de um casal que vive nos Estados Unidos da América, «Hungry Planet», e tinha fotos de famílias pelo mundo com fotos de alimentos que comiam durante uma semana: famílias chinesas, do Maláui, da Síria, e à frente os alimentos que comiam. Na contra capa do livro dizia que não havia nada mais importante para a humanidade do que a alimentação”.

O sentar à mesa é também uma oportunidade para “transmitir valores, costumes. Se perdemos o momento da mesa perdemos as tradições, perdemos os valores. É à mesa que nos educamos, aprendemos”.

O chef Kiko fala igualmente em “alimentos especiais para alturas especiais”.

“No tempo frio gosto de comer uns grelos salteados, um ovo estrelado e uma alheira, com arroz de forno, que fica crocante em cima – não me imagino a comer isto com 40 graus no verão, tal como não me imagino a comer amêijoas no inverno com uma sangria. Saber que em determinada altura vou comer isto e não aquilo, cria o sentido de promessa”, reconhece.

Quando em 2008 Francisco Martins rumou com a sua mulher Maria, para durante um ano serem Leigos para o Desenvolvimento em Moçambique, a possibilidade da cozinha já se desenhava na sua cabeça.

Em terras africanas viu crescer alimentos.

“Das coisas que tenho pena na minha vida foi não ter crescido no campo; sou uma pessoa urbana e citadina, nunca tive contacto com o campo, nunca vivi ao pé de cenouras, batatas, da agricultura. Em Moçambique foi uma descoberta, de poder viver ao lado da terra”, recorda.

“O bonito que foi ver tudo de raiz… Quando faço aqui um caril, normalmente em casa eu salteio um pouco de gengibre, alho e cebola, junto um pó amarelo que já está feito, alguém misturou os cominhos, açafrão, e já me deu este pó amarelo. Misturo os camarões ou frango, misturo o leite de coco, coentros, um pouco de lima e está feito. Ali era de raiz…. Vou fazer uma matapa, que é um prato feito com, folhas da mandioca, folhas essas que em muitos sítios vão para o lixo, essas folhas ai são utilizadas. É feito com amendoim, o amendoim é colhido e eu vi como era, é feito um leite de amendoim, com o coco que se rala na hora, junta-se água quente… é tudo feito de raiz”.

Valorizar o pouco que se tem, aprender a respeitar os alimentos e as suas diferentes utilizações, “ser agradecido pelo que temos” e a certeza de que se adquire “satisfação com menos”.

“A simplicidade é algo que esvoaça nas nossas mentalidades hoje”, reconhece.

Depois de um ano em Moçambique, o chef Kiko sentiu-se confrontado com o excesso que encontrou em Lisboa.

“Mas esta é a minha realidade que eu não posso negar. Posso aprender a ser mais simples, mas não a posso negar, caso contrário, entro em distorção mental. Nós somos nós e as nossas circunstâncias e isso vai-se apoderando de nós. Por muitas vezes que queiramos lutar. Saber que não temos de comer o mundo e que há o suficiente”, recorda.

Um ano depois de chegarem a Portugal, Francisco e a mulher partiram numa viagem que chamaram «Comer o Mundo», um projeto, que nasceu no contexto de calma em Moçambique, que pretendia levá-los a 26 países para se sentarem a comer com 26 famílias.

“O ser humano é mais parecido entre ele do que realmente achamos, mas em boa verdade, no que toca a alimentação e hábitos e sobre a forma de nos comportarmos à volta dos alimentos, às vezes na mesa ou no chão, às vezes com, talher outras vezes com as mãos, essa forma é igual. E todos adoramos este prazer”, explica.

Comer o mundo representou uma “polifonia de alimentos, cores, sabores, novas técnicas e formas de trabalhar, descobrir a verdadeira identidade das coisas” e também ganhar “barriga” para, já em Lisboa, oferecer aos portugueses outros sabores.

“Comer à mesa ou no chão, com o garfo ou com a mão, ajuda a perceber a forma como nos relacionamos com a comida e as pessoas. O chinês acaba de comer e levanta rapidamente, um italiano está a acabar o almoço e a falar sobre o que vai jantar. Como nos comportamos à mesa é a forma como espelhamos os nossos comportamentos na vida”, indica.

Desse ano ficaram muitas histórias e muitas pessoas.

“No norte no Nepal uma família convidou-nos para almoçarmos em sua casa Tinham um prato enorme inox com divisões, cheio de comida, todos a comermos com as mãos. E a troca de mundo que possibilita: tocámos uma música portuguesa, eles tocaram músicas nepalesas e passamos a tarde com eles. Em Fukuoka, no sul do Japão, eu gostava de cozinhar coisas portuguesas a estas famílias e em alguns momentos isso foi possível. Ali eu decidi fazer um almoço para essa família. Preparei uma açorda, para eles é algo inimaginável. Com um pão grande, tirei o miolo, fiz uma açorda e servi a açorda dentro desse pão e pus no centro da mesa. Fiz um caldo com algas e sabores familiares. Eles adoraram”, recorda.

O bom de poder viajar é conhecer sabores diferentes, sendo que é na mistura que a riqueza acontece.

“O interessante é o cruzamento de diferentes cozinhas”, sublinha.

“Manifestamente o fantástico da alimentação é que é tão diferente e nós podemos comer coisas tão simples e tão boas, como podemos comer coisas complexas, longínquas e saborosas. Desde um peixe grelhado, com salada de tomate, poejo e cebola, então se for da nossa costa, é muito bom. Depois, comemos uma boa piza bem feita, com um bom molho de tomate com bom queijo, uma boa feijoada, em França um bom folhado. A gastronomia é tão rica e a sua polifonia é uma graça”.

 

O jejum aprende-se à mesa

Mesa

Tendo crescido num ambiente católico, Francisco Martins dá conta da importância de a cada refeição procurar reunir os seus quatro filhos e, à mesa, dar graças.

“Hoje de forma mais barulhenta e anárquica, mas o motivo está lá”, explica.

É à mesa que a sintonia com Deus também acontece.

“A renúncia, a partilha, através da subtileza das mães que dizem que gostam mais do pescoço do frango para dão o melhor aos filhos. A mãe sempre gosta do pescoço, nunca da perna ou da coxa, e o pescoço não tem que comer, é um ato de generosidade das mães, que é tão bonito. A mesa ajuda-nos a procurar caminhos de sintonia maior com Deus e connosco”, afirma.

Quando a cada domingo o Papa Francisco, após o Ângelus, se despede com «rezem por mim, bom almoço e bom domingo», “confere humanidade e indica a importância da família”.

“Todo o nosso crescimento, se olharmos bem, os grandes acontecimentos foram à mesa ou ali celebrados: os casamentos celebram-se à mesa. A mesa sempre teve este papel de celebração e de união. O domingo é um convite à celebração da família. Não há nada mais importante para a família do que a mesa”.


Cátia Tuna, investigadora

O Tato

Uma vida contada pelo toque

Estaremos, provavelmente, pouco treinados na arte da pele e da valorização da superfície, assim começa por nos dizer Cátia Tuna.

A investigadora parte de uma reflexão do professor da Universidade Católica Portuguesa, Alfredo Teixeira, que dizia que “tendemos a valorizar a profundidade e a descriminar as coisas superficiais como algo de somenos importância, e a superfície pode ter coisas muito relevantes sobre a realidade do outro”.

Se no princípio era o tato, como primeiro contacto de uma criança no ventre da sua mãe, o mesmo se pode dizer que, quando os outros sentidos faltam, o tato emerge como caminho de comunicação.

“A minha avó, com 102 anos, ouve mal e vê mal e para tentar reconhecer as pessoas ela toca, começa a percorrer o rosto. Também o meu avô, na reta final da sua vida, quando não havia palavras, porque ele não falava e não sabíamos se ele via ou ouvia, a minha comunicação com ele nunca foi tão profunda como nesses dias em que a forma de comunicar era apertar a mão ou o braço”, recorda.

O toque e a pele podem ser um meio de comunicação, “às vezes o último e o mais arriscado” e que “sintetiza melhor o que temos para comunicar ao outro”.

Mas há, regista Cátia Tuna, uma necessidade de partilha do mesmo código, caso contrário, “estamos desencontrados na forma de comunicar”.

“Eu posso valorizar muito a palavra mas como o outro não me diz nada apesar de me comunicar através do toque ou do tempo, eu não consigo interpretar o que ele me diz porque não tenho a gramática prévia que me permite valorizar isso”.

A investigadora remonta ao século III para recordar o Cântico dos Cânticos de Orígenes, para sublinhar a importância dos cinco sentidos sensoriais como experiência de conhecimento.

“A nossa noção de conhecimento é muito diferente, está muito racionalizada. Ele valoriza muito o tato como instância que através do toque, os esposos do Cântico dos Cânticos mas metaforicamente o crente e Deus, se podem conhecer e promover a união mística. Ele faz uma reflexão entre os sentidos corporais e os sentidos espirituais”, explica.

A história de uma vida pode ser construída ou destruída pelos toques, pelos que se deram ou se recusaram.

“Pelo gesto e pelo toque temos o poder de construir ou destruir o outro. É nossa opção que os nossos toques transfigurem ou desfiguram. Acredito muito no poder das pequeninas coisas e nas pequenas transfigurações que ocorrem à nossa volta”, valoriza.

“O sorriso, por exemplo, pode ser visto como uma pequena transfiguração. Aprender a acariciar é mais difícil do que aprender a bater. É um grande desafio, reaprendermos as pequenas coreografias da doçura”.

Explica a investigadora que o corpo espiritual se compõe com as marcas dos gestos corporais.

“Talvez a única riqueza que acumulemos é a riqueza corporal dos gestos que marcaram os outros e aqueles que nos marcaram, que carregamos como gestos de amor, e fazem uma espécie de tatuagens invisíveis de dádiva, de generosidade pura”.

Sensibilidade e delicadeza são convocadas quando estamos no domínio do toque.

As mãos podem assumir diferentes gestos e personificam diversos talentos, devendo, sublinha Cátia Tuna, ser alvo de grande respeito.

“As mãos dos outros merecem muito respeito porque nos servem de múltiplas formas”.

Gestos de oração, de pedido de esmola – “vazias e abertas”, são movimentos que acompanhamos quotidianamente.

“Na esmola o mais importante é o toque: porque não fazer desse pequeno e rápido encontro, um pretexto para tocar. Poder repensar a prática da esmola, muito valorizada no mundo islâmico, e que se perde no mundo cristão”.

 

O toque de Jesus

Cátia Tuna recorda a forma como o verbo «tocar» é tantas vezes conjugado nos Evangelhos com a ideia de “multidão”.

“O toque é singularizador e resgata de anonimato, ou de características transversais. O toque conhece e reconhece. E conhecer, em português não se nota tanto, mas em francês, sim – «connaitre», co-nascer – que confirma a ideia de que a experiência do tato como experiência primeira e reconhecimento do outro, e imediatamente como ser relacional”.

A investigadora dá conta de como os milagres de Jesus são descritos, e pela sua prática, se distanciam de tantos outros milagreiros do seu tempo.

“Ele não fazia milagres para se auto exibir, fazia-os com grande pudor e descrição e apenas centrado no outro, na sua necessidade. Jesus recorria pouco a mediações, a objetos que intermediassem essa cura, era pouco sofisticada… Os seus milagres implicam sempre um toque no outro, a capacidade de rasgar os protocolos do interdito, tocar no intocável”.

E quem consideramos nós que é intocável? “Às vezes somos nós mesmos os intocáveis”, indica.

A Quaresma, enquanto “grande retiro da Igreja” é um tempo “muito sugestivo espiritualmente”.

“O jejum dos toques pode levar a essa aprendizagens da despossessão dos outros e a melhor diferenciação do toque, do afeto e a antropofagia. O toque pode ser uma forma de queremos consumir o outro. Há gestos que lemos, lá no fundo, que tem algo de manipulador, de umas mãos que querem forçar alguma coisa”.

Cátia Tuna recorda uma leitura que fez do livro «Adam, o amado de Deus», do padre Henri Nouwen, muito amigo de Jean Vanier, e esteve ligado à comunidade «A Arca», pesando assistência numa comunidade em Toronto, no Canadá.

«Ele conheceu o Adam, portador de uma deficiência profunda, que vai acabar por morrer, e o sacerdote holandês, que nessa ocasião pensava escrever um livro sobre o credo, acaba por escrever este livro e percebe ser o melhor texto capaz de descrever a sua compreensão sobre o mistério de Jesus, evidenciado na relação que estabeleceu com Adam que não falava mas que, ao cuidar, ao tocá-lo, foi sendo trabalhado para se tornar sensível”.

Esta relação transformadora, sobretudo para o padre holandês” mudou-lhe a perceção de Deus”.

Em 2002, Cátia Tuna ouviu numa conferência D. José Policarpo, antigo cardeal-patriarca de Lisboa, estabelecer cinco etapas para a relação humana e também para o relacionamento com Deus:

“Atracão: há sempre um fator de fascínio, que cria uma relação de magnetismo, pode ser razões muito pequeninas, e isso acontece também com Deus; Revelação: onde existe uma comunicação recíproca, uma troca de conhecimento de si e do outro, geradora, depois, da Contemplação: deslumbramo-nos com o que o outro revelou de si; Intimidade: num nível mais profundo; Ternura: que implica o toque, o contato ou o tato. Nesta fase o corpo é devolvido, mas já ‘retrabalhado’ pela confiança que se cria, pela revelação e pelo caminho feito onde o corpo do outro, sendo o mesmo é novo e diferente. Isto acontece também na nossa relação com Deus”. 


Sandra Chaves Costa, Gabinete de Escuta

A Audição

Ouvir e escutar

Sandra Chaves Costa, coordenadora do Gabinete de Escuta (GE), um serviço apoiado pelo Patriarcado de Lisboa, com cerca de três anos de atividade, começa por amplificar o sentido da escuta.

“A escuta de alguém significa acolhimento, hospitalidade daquilo que ele é em luzes e sombras, aceitando-o com respeito sagrado e sem julgamento. Escuta significa compreensão. Na verdade, se há uma maneira privilegiada de se ser empático é através da escuta porque nem mesmo uma resposta pode ser considerada empática se não partir de uma escuta ativa do quanto a pessoa nos transmite e diz”.

Na expressão de Santo Agostinho «quero que tu sejas», definição de amor, entende-se o que é a escuta.

“A escuta é um ato de amor. É um ato de amor porque queremos que a pessoa que está à nossa frente, seja. E é um ato de amor também porque implica um espécie de esvaziamento de nós mesmos, que nos esqueçamos de nós e se dê protagonismo a quem escutamos”.

Escutar, é por isso, muito mais do que ouvir.

Sandra Chaves Costa chama a atenção para o facto de todos nascermos com a capacidade de ouvir, nem todos sabermos escutar.

“Na atitude de escuta cultiva-se o prestar atenção ao que o outro diz, mas também ao que ele não diz e nos transmite pela sua maneira de estar, com a sua presença. Escutar implica, por isso, usar o olhar, que possui um enorme poder para recolher mensagens e captar significados”, indica.

Trata-se de uma escuta com o coração: embora seja mais exigente, permite-nos recolher muito mais, pois é mais “mais profunda” e convoca todos os sentidos.

A coordenadora do GE explica que uma pessoa pode falar cerca de 140 a 160 palavras por minutos, mas tem a capacidade de escutar até 600.

“E o que fazemos nós com o tempo que nos sobra? Normalmente usamo-lo para preparar uma resposta, para pensar no que temos para fazer ou onde gostaríamos de estar ou, ainda, para julgar a outra pessoa, enfim, em tudo menos no acolhimento do outro”, lamenta.

No processo de escuta acontece, assiduamente, as pessoas “não conseguirem verbalizar o que sentem”.

“É função de quem escuta recolher o mundo emocional e devolver-lhe, atribuindo um nome aos sentimentos, pois só assim eles podem ser assumidos e integrados. Quem escuta funciona como um espelho que reflete de forma ordenada o que ouve, vê e sente. Desta maneira, a pessoa que é escutada em clima de respeito e confiança, com ausência de julgamento, sente-se compreendida e digna de respeito e continua a explorar-se. Este processo dinamiza um movimento interior que é altamente terapêutico”.

O GE quer ser um serviço de apoio “desburocratizado, portanto de acesso rápido, e de proximidade”, funcionando em três locais distintos: igreja de São Mamede, prestando apoio às pessoas do centro de Lisboa; Centro Comercial Colombo, mais direccionado para os residentes em Benfica, Amadora e linha de Sintra; Oeiras, que presta apoio às pessoas de toda a linha de Cascais.

A pessoa pode entrar em contacto com o centro de Escuta através de um número de telefone centralizado, o 964400675, através de e-mail, gescuta@gmail.com, ou através do nosso site, www.gabinetedeescuta.pt

O GE funciona com uma equipa de voluntários, “com formação específica para o efeito, que presta apoio psico-emocional através do método de Relação de Ajuda, que lança mão dos conceitos da Psicologia Humanista e de Counselling e por isso exige uma formação formal”.

O objetivo, esclarece Sandra Chaves Costa, é “acompanhar alguém para que se faça responsável pela sua vida, mobilizando os seus próprios recursos, assumindo os seus limites pessoais, para que seja capaz de enfrentar o seu problema ou consiga viver de forma saudável o que não pode ser mudado”.

 

Uma mudança de vida para receber tesouros

Depois de 20 anos a trabalhar na indústria farmacêutica, Sandra Chaves Costa, com formação em engenharia química, confronta-se com a morte de uma amiga, “muito próxima” e entende a inabilidade de muitos em lidar com a situação em si e com o sofrimento.

“A morte era o elefante branco em cima da mesa de quem toda a gente se dava conta, mas que ninguém queria aceitar e por isso acerca do qual ninguém queria falar. Por isso, senti que nunca fui capaz de acolher verdadeiramente esta minha amiga e as suas necessidades”, lamenta.

O seu processo de cura começou quando partilhou as suas inquietações com um sacerdote amigo, que lhe lançou o desafio de integrar a equipa fundadora, colocando-a perante uma “mudança de paradigma de vida”.

“Percebi que eu, enquanto pessoa, para ter uma vida mais plena, para ter um sentimento de maior realização pessoal tinha de viver de forma mais próxima dos meus valores pessoais”, valoriza.

Escutar o outro, iniciar este caminho no GE, permitiu a Sandra Chaves Costa, um exercício de humildade, “de dar protagonismo ao outro, de me anular e esvaziar em prole de quem tenho à minha frente” e, simultaneamente, receber tesouros.

“O reconhecimento do quanto a escuta pode reconfigurar a vida das pessoas, valida a nossa existência, que nos permite ser quem somos, que nos faz sentir valorizados e dignos de respeito”, sublinha.

Perante uma das maiores necessidades do ser humana, a escuta, importa “silenciar o ruído interior, a verborreia, muitas vezes autorreferencial, que consome e distrai, porque só se escuta verdadeiramente com silêncio interior”.

Sandra Chaves Costa acredita ser nesse silêncio que quem escuta se encontra e também procura Deus.

Precisamos de aprender a escutar a Palavra de Deus, reconhece: “há uma aprendizagem a fazer”, indica, porque quem “escuta, compromete-se e quer configurar-se com Deus”.

“Se nós não pomos o que ouvimos em prática então não entendemos nada do que a Palavra de Deus nos diz. Se o nosso coração não sair inflamado quando escuta Palavra de Deus, se não sentirmos vontade de mudar o mundo e de personificar essa mudança, então é porque não a escutámos verdadeiramente”.

Sandra Caves Costa reconhece, no entanto, que a história dos crentes é um caminho à procura de escutar a voz de Deus.

“A vida do crente é sempre um lugar de caminho nunca terminado, é um lugar de combate e de incerteza. Em que o silêncio do Pai é tantas vezes interpretado como um abandono e não como o silêncio de quem escuta”.

 

A escuta do isolamento profilático

No momento presente, “neste tempo estranho, neste território desconhecido e em terreno inaugural”, Sandra Chaves Costa afirma a possibilidade de uma mais radicalidade “de entrega e de renúncia”.

Inspirando-se na reflexão da psicóloga italiana Francesca Morelli, a coordenadora do GE, indica:

“Num momento histórico em que muitos governos tomam medidas discriminatórias e xenófobas, aparece um vírus que nos reduz à nossa mais frágil condição humana de forma igual, independentemente da raça, país, orientação política, religiosa ou sexual; uma cultura orientada para o consumo, aparece um vírus que nos ensina a fazer escolhas e a viver do essencial; Numa sociedade em que os valores de rapidez, eficácia e produtividade são ensinados nas escolas e faculdades, e professados profissionalmente, aparece um vírus que nos obriga a estar em casa, a relativizar estes conceitos e a perceber que só sobreviveremos se não pusermos neles o nosso coração; Num espaço em que é privilegiada a independência e a individualidade como critérios de emancipação, surge um vírus que nos faz perceber a nossa verdadeira natureza – a de sermos seres interdependentes; Num tempo que descarta os idosos ao abandono e ostraciza os mais frágeis aparece um vírus que nos convoca a todos para os proteger, que salienta a nossa generosidade e solidariedade”.

“O coronavirus convoca-nos a sermos mais. A perceber que não há eu e o mundo mas que o mundo e eu somos um só. Neste tempo que vivemos somos todos convocados, tal como escreveu Etty Hillesum no meio do holocausto no seu Diário, a mostrar como a vida é bela e cheia de sentido. Ela que, tendo a opção de escapar aos campos de morte, optou por cumprir o destino do seu povo e não abandonar Deus porque entendeu que Ele precisava dela”.

Este tempo, indeterminado e desconhecido, pode ser “duplamente profilático”, indica, uma vez que para além da prevenção da contaminação, “pode ajudar a prevenir o sentimento de solidão”.

“Há que aprender a estar só para não se sentir sozinho. A solidão ensina-nos a não ter medo dos nossos demónios, porque é nela que os conseguimos conhecer e dominar antes que sejam eles a dominar-nos”.

O isolamento é também condição para o “crescimento espiritual e está no íntimo da experiência religiosa”.

“O isolamento e a solidão dele decorrente é indispensável para a exploração espiritual que está subjacente à experiência mística, pois é o único caminho para a introspeção e comunhão com o divino. Tudo isto será certamente propício para a escuta de Deus e de nós mesmos, porque ela exige um permanecer, um habitar o tempo em silêncio”. 

Texto: Lígia Silveira; Grafismo: Manuel Costa

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