Sandra Côrtes-Moreira, Diocese do Algarve

Há alguns dias atrás, aparecia-me no mural de uma rede social uma imagem do Papa Francisco a falar, de pé. Ao seu lado estava sentada uma menina, que agarrava a mão do Papa com firmeza, olhando, suponho eu, para o resto das pessoas presentes. Com um mínimo de pesquisa, voltei ao acontecimento. Foi em outubro de 2017, numa audiência geral, onde estava a equipa italiana paraolímpica de futebol. A criança, Gemma Pompili, não importa a razão, acabaria por estar ali, ao lado do Papa e este, enquanto pronunciava as palavras que tinha preparado, mantinha a mão da criança na sua.

Não consegui distanciar-me daquela imagem que, provavelmente, alguns já consideram banal, dados os gestos públicos e espontâneos de ternura do Santo Padre para com inúmeras crianças e que eu própria comprovei, também numa audiência geral. Esta imagem, todavia, fez-me meditar na minha própria condição de humana, de filha, de amiga. Mas sobretudo de católica. Até porque há um pormenor: a criança tem Sindrome de Down, o que para mim nada significaria por si só, mas que acaba por ser relevante num contexto em que a inclusão, a aceitação do outro e da sua diferença, seja ela qual for, é cada vez mais importante.

Nestes tempos em que tudo é criticável, discutível, radicalizável, onde fica a misericórdia? Esta pergunta não pretendeu ser, no meu interior, um mero exercício retórico, uma “intelectualice” católica, mas um verdadeiro desafio, assumido por alguém que tem de viver quotidianamente, na sua relação com os demais, aquilo que considera serem os valores fundamentais para a construção de um mundo melhor, do bem de todos, o bem comum, expressão de que gosto tanto.

Busquei em mim, como acho que devem buscar todos os que procuram em Cristo a sua salvação, perceber o que estou a fazer, qual o meu pequeno papel neste projeto proposto aos batizados, de construir uma sociedade assente na solidariedade para com os pobres e todos os mais “pequenos”, na luta pela justiça social e na responsabilidade pela criação. Mas, sobretudo, busquei a coragem que tem Francisco quando nos desafia a encontrar a valentia de dizer, somente, aquilo que Jesus veio dizer. Onde está a misericórdia na minha vida? Onde está a misericórdia no dia-a-dia dos cristãos?

No livro O Nome de Deus é Misericórdia (2016), o Papa descreve este espaço de verdadeira comunhão e construção comum que é a Igreja, como um lugar onde cada um se deve sentir amado, próximo, esperançoso e sempre capaz de ser resgatado do seu pecado e do seu sofrimento. Descreve o papel da Igreja como o de um «hospital de campanha», onde todos, sem exceção, deverão sentir-se verdadeiramente amados, escutados, acolhidos tal como são. Não julgados, mas merecedores de um sentido de justiça que ultrapassa o meramente humano e busca a conversão, não a condenação. Não pede mais do que MISERICÓRDIA, essa capacidade de sermos empáticos com os outros; no fundo, de nos colocarmos no seu lugar e assumir aquilo que sentem, para depois chegarmos à compaixão e à ação, à vontade de ajudar.

Tomás Halik, teólogo que admiro, descreve Francisco não como um revolucionário ou progressista, mas como «um misericordioso» e considera ser essa «a chave para se entender a sua personalidade e a sua reforma», porque não pretende mudar «regras escritas» ou destruir «estruturas externas; no entanto ele transforma a praxis e a vida» a partir do interior da Igreja, «espiritualmente» e «através do espírito do Evangelho» e da «essência da mensagem de Jesus».

Onde está a misericórdia naqueles que vociferam e criticam tudo e todos e, tantas vezes, pecam e fingem ser cristãos e, com a sua dupla vida, provocam escândalo, interroga Francisco no seu livro (cap.VII).

Regresso, num exercício de contemplação, ao episódio descrito em Mc 10:13-16 e Mt 19:14, no qual Jesus, perante as crianças que o rodeavam, exorta os que estão à sua volta para deixar vir até Ele os pequeninos. Todos os pequeninos, todos – os pobres, os doentes, os refugiados, os idosos, os homossexuais, os recasados/divorciados, os desempregados, os deprimidos, os portadores de deficiência……………. -, como aquela menina da foto, precisam dessa mão que os ampara e acarinha, que lhes dá força. E terei eu sido essa mão para outros? Sei, com segurança, que tantas vezes foi uma mão que susteve a tempestade interior que se levantava e agitava dentro de mim. E foi através dessa misericórdia, oferecida generosamente por outro ser humano, que eu senti a presença de Deus.

É essa Igreja da Misericórdia, «a revolução da misericórdia», nas palavras de Halik, em que acredito, porque é só nela que vejo Cristo, portador da Boa Nova do mandamento do Amor. E vocês? Sei que sim.

 

Tomás Halik citado a partir de: https://setemargens.com/a-revolucao-da-misericordia-e-um-novo-ecumenismo-ensaio-de-tomas-halik/

 

Sandra Côrtes Moreira

É Licenciada em Comunicação Social, pela FCSH da Un. Nova de Lisboa, Mestre em Comunicação Educacional, pelas Faculdades de Letras e de Ciências Humanas e Sociais das Un. de Lisboa e Algarve e Mestre em La Educación en la Sociedad Multicultural pela Universidad de Huelva. É doutoranda em Educomunicación y Alfabetización Mediática pela Universidad de Huelva.

Técnica Superior de Línguas e Comunicação na Câmara Municipal de Faro, é também Assessora do Gabinete de Informação da Diocese do Algarve, membro da equipa da Pastoral do Turismo e da ONPT.

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