As histórias de três padres raptados na Síria, Iraque e Iémen

Dias de cativeiro

Ser raptado e sobreviver aos algozes. Lembrar o tempo de cativeiro e compreender que foi a fé que sustentou os dias, sossegou o medo, fez lembrar o essencial. Jacques Mourad, Douglas Bazi e Tom Uzhunnalil têm em comum essa experiência limite às mãos de jihadistas. E aceitaram partilhar essa memória que é, também, um enorme testemunho de fé.

Iraque, 2006. “Depois da Missa, ia visitar uns amigos, e, no caminho, de repente, dois automóveis bloquearam a estrada à minha frente e fizeram-me parar. Saltaram muitos homens, de rosto tapado e armados. Rapidamente abriram a porta do meu carro, puxaram-me e meteram-me no porta-bagagens.”. O Padre Douglas Bazi estava a começar a viver uma das experiências mais assustadoras da sua vida. Os raptores queriam um milhão de dólares por ele, mas acabou por ser libertado sem que houvesse o pagamento de qualquer resgate. No entanto, as marcas desses dias terríveis ficaram para sempre. Até hoje. Síria, 2015. “Naquele dia, um grupo de jihadistas entrou no mosteiro de Mar Elian, onde eu vivia há 15 anos…” Começa assim o desfolhar da memória de cativeiro do Padre Jacques Mourad. Esteve preso durante cinco meses. Fugiu numa aventura que daria um filme de Hollywood. Mas isso é-lhe irrelevante quando recorda as longas semanas em que foi prisioneiro de um dos grupos jihadistas que puseram a Síria a ferro e fogo. Iémen, 2016. “Saí de casa das Irmãs [a caminho do] lar de idosos, mas a meio ouvi dois tiros. Vi as outras duas [irmãs] serem alvejadas na cabeça, por trás.” O Padre salesiano Tom Uzhunnalil nunca mais vai conseguir esquecer aquele trágico dia 4 de março. Raptado por terroristas, esteve 18 meses sem saber sequer onde se encontrava…. Todos os dias era ameaçado. Todos os dias podiam ser o fim… Todos os dias rezava.

Oração do Terço

Quando recordam os dias de cativeiro, estes três sacerdotes falam dos momentos íntimos de oração como, talvez, os mais intensos que já experimentaram em toda a vida. Deixaram o Padre Douglas nove dias sem comer nem beber. Esteve sempre algemado. É uma memória que não o larga. “As algemas tinham exatamente dez argolas.” Os dedos do Padre Douglas iam acariciando as argolas das algemas numa oração ininterrupta de “ave-marias”. Batiam-lhe, massacravam-lhe o corpo, mas ele era livre. Não podiam prender a sua alma. Jacques Mourad esteve preso cinco meses em 2015. Hoje, este monge de aspeto frágil e voz doce vive no Curdistão iraquiano. Quando regressa a esses dias, a memória de Mourad detém-se sempre nas Missas que celebrou no silêncio do seu coração. “Tinha sede de me unir a Jesus. Por isso, celebrei sempre a Missa no meu coração e dei-lhe um nome: ‘A Missa da nostalgia’. Simplesmente…” Também o Padre Tom não deixou de celebrar a Eucaristia apesar de estar preso, apesar de estar só. Apesar até do medo. Também no seu caso os algozes nunca descobriram o que aquele homem de olhar sereno estaria a fazer. Rezava. Rezava e continuava livre. Não havia arma nem terrorista nem ameaça maior do que a força da sua fé. “Não tinha o pão, nem o vinho, nem os livros… Então dizia as orações da Missa e pedia ao Senhor que provesse espiritualmente o pão e o vinho.” Jacques Mourad, Douglas Bazi e Tom Uzhunnalil estiveram presos às mãos de terroristas. Estiveram presos por serem padres, por serem cristãos. São exemplo para todos nós. Exemplo de que a oração é sempre mais poderosa do que o medo.

Paulo Aido | www.fundacao-ais.pt

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