Padre Jorge Guarda, diocese de Leiria-Fátima

Jesus deixou-nos a Eucaristia para se dar em comunhão aos seus discípulos, através do pão e vinho. Foi o modo que ele inventou para os unir consigo pelo seu amor. Mas também para os unir entre eles, formando juntos com ele um só corpo. Assim lhes comunica o amor e a vida de Deus, para serem suas testemunhas e mensageiros no mundo. É esse memorial do Senhor que a Igreja celebra em cada Eucaristia.

“Tomai e comei” é o dom que, também hoje, através da Igreja e dos sacerdotes, Ele continua a oferecer aos cristãos, como o fez à primeira geração dos que escolheu e amou. Ele fala deste dom do seu amor com “pão da vida”, como alimento que veio do Céu, sacia o coração humano, “dá a vida ao mundo” e “dura até à vida eterna”. Ele torna-se também, através dos cristãos, da sua ação e do seu testemunho movidos por Cristo neles, força transformadora do mundo.

Há hoje quem está a obscurecer a luminosidade do mistério deste “dom inestimável” com a discussão se deve ser recebido na mão ou na boca. Será que o dom de Cristo e o seu amor, mais do que pela fé e o amor com que o recebemos, estão condicionados pelo órgão do nosso corpo que os recebe? Não foi todo o nosso corpo igualmente santificado pelo batismo ou haverá discriminação entre os nossos membros, sendo um mais digno do que outro para receber a comunhão com o Senhor? Não vem Cristo a nós, na Eucaristia, recebido na mão ou diretamente na boca, para santificar todo o nosso ser, corpo e alma? Não quer Ele inundar-nos com a vida divina e fazer-nos viver segundo Deus, irradiando o seu amor e a sua misericórdia para os outros à nossa volta?

Poderá alguém objetar: “Mas eu não me sinto digno de o receber na mão”. Então, não dizemos nós, antes da comunhão, “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo”? Não acreditamos na eficácia da misericórdia de Jesus que pedimos com estas palavras? Em tudo e sempre, é Jesus que, com a sua graça e o seu perdão, nos torna dignos de o receber, seja na mão, na boca ou no coração. Não devemos complicar o que para Jesus é simples. Para o receber, se temos o coração purificado dos nossos pecados, basta um ato de fé e de amor a Jesus.

A discussão referida e o pôr-se da parte de alguns católicos contra a decisão dos bispos por optarem, na atual grave situação de pandemia, por razões de saúde pública, pela comunhão exclusivamente na mão, não ofenderá a nosso Senhor e não afastará dele, contrariamente ao que desejamos quando comungamos o seu Corpo “eucaristizado”? Pôr em causa a autoridade dos bispos nesta matéria é ferir a unidade da Igreja e afastar-se dela. Santo Inácio de Antioquia (séc. I) diz, a propósito da Eucaristia, estas palavras fortes: “… quem faz algo às ocultas do bispo serve o demónio”. E São Cipriano de Cartago (séc. III) adverte: “Deus não acolhe o sacrifício oferecido por quem guarda inimizade. Quer que ele se afaste do altar e vá primeiro reconciliar-se com o irmão, porque Deus não pode ser propiciado por quem reza com o coração agitado pelo ódio. O mais alto sacrifício aos olhos de Deus é a nossa paz, a concórdia fraterna e o seu povo reunido na unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.

A objeção à comunhão na mão faz-me lembrar a atitude de alguém que recusa um presente precioso dado por amor, somente por não vir embalado como se julga conveniente ou se deseja. Então, eu, que amo a Cristo e nele acredito, vou ficar aborrecido e recusar o seu dom, somente porque não me é posto na boca? Que fé e amor são estes? Honremos a Cristo, acolhamos o seu dom, gratuita e gratamente, e comunguemos como ele se nos oferece como os pastores e outros ministros da Igreja no-lo entregam em seu Nome. E ele fará maravilhas na nossa vida, na sua Igreja e no mundo.

 

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