Cónego Manuel Maria Madureira, Arquidiocese de Évora

Da nossa experiência milenar, sabemos que alma não tem qualquer atividade separada do corpo. No entanto, é a alma que faz que o ser vivo seja vivo e capaz de se mover. O problema da alma, tal como o da vida ou o de Deus e muitos outros filosoficamente fundamentais, é complexo e, por isso, difusivamente confuso. Primeiro, porque remonta aos tempos perdidos no horizonte da memória e tem raízes claramente mitológicas; depois, porque nesta noção se misturam tradições conceptuais radicalmente heterogéneas e até opostas; finalmente, porque é um dos temas que se pressupõem adquiridos no leite da nossa cultura tradicional e sabidos a partir da doutrina religiosa que nos foi comunicada quando éramos assíduos aos bancos da catequese… Junta-se a isto o facto de sermos herdeiros de doutrinas racionalistas acerca da nossa identidade. Foi René Descartes que nos ofereceu a definição de que, antes mesmo de sermos um corpo, somos “uma coisa que pensa”, uma “res cogitans” que, de forma estranha, através da glândula pineal, se junta ao corpo, o nosso, e nos permite dizer que somos racionais. Antes, desde o tempo dos filósofos gregos antigos, dizia-se que somos “animais” que partilham amigavelmente a matéria com algo imaterial a que se dá o nome de “razão” e nos faz ser animais racionais. A diferença está na primazia dada à alma ou dada ao corpo. Para Descartes, somos “razão” metida no corpo animal; para os antigos, somos “animal” a que se juntou a razão. Temos que afirmar que o homem é muito mais que um animal e que uma res cogitans. É uma unidade. Mas Descartes não se apercebeu disso. Sem querer, contribuiu para que todos (racionalistas e idealistas posteriores) ficassem presos à importância da razão consciente, para poderem continuar a encher os pulmões de ar denso e trovejar que somos racionais! Em estrita lógica, nunca deveríamos falar de união da alma com o corpo, mas da alma com a matéria. Um corpo sem alma é simplesmente um cadáver e ninguém diz que somos a união da alma com o cadáver… União da alma com o corpo é já uma repetição, porque o corpo, tal como o pensamos e sentimos, já está “enformado” de alma, ou seja, é um corpo vivo. Neste caso, a alma identifica-se com a vida. O corpo é mortal e a alma é imortal. Por isso, se perguntarmos a um cristão, protestante ou católico, intelectual ou não, o que ensina o Novo Testamento sobre o futuro individual do homem após a morte, salvo raríssimas exceções obteremos sempre a mesma resposta: a imortalidade da alma. Esta opinião, apesar de ser comum, corresponde a um dos mais perigosos mal-entendidos do cristianismo. Em lugar nenhum do Antigo ou do Novo Testamento se fala em imortalidade da alma, mas em ressurreição da carne. O conceito de alma (comumente usado) é originário da filosofia grega (órfica e platónica) e não do Evangelho. Na Bíblia, o termo “alma” refere o “homem inteiro”.

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