Antes de programar, escutemos

Padre João António Pinheiro Teixeira, Diocese de Lamego

A fluência com que se fala aparenta sinalizar agilidade na comunicação. Acontece que, muitas vezes, tal fluidez deixa entrever um pensamento desarrumado e um descontrolo emocional, que indiciam uma perturbadora imaturidade pessoal.

Daí que, como propugnam algumas correntes, a comunicação careça mais de «slow cooking» (cozedura lenta) do que de «fast food» (comida rápida).

É verdade que mudar o paradigma não é fácil, já que (até nas escolas) se valoriza a resposta «na ponta da língua» como sinal de destreza intelectual. Quem aprecia o aluno que admite precisar de pensar antes de responder?

No fundo, nós não vivemos numa «cultura da comunicação», mas numa «cultura da pressa». Tudo tem de ser verbalizado no momento, o que perturba a ponderação e faz crescer a irritabilidade.

Parece que o silêncio é um entrave, um indicador de ausência, um sintoma de inaptidão.

E, no entanto, «o silêncio é a oração dos sábios» (Augusto Cury) e «um dos argumentos mais difíceis de refutar» (Josh Billings). Ele evita querelas inúteis em que os interlocutores não se escutam, apenas se sobrepõem e neutralizam.

O silêncio constrói, não esbanjando lugares-comuns. E, coisa absolutamente necessária, higieniza o relacionamento humano.

O silêncio dá espaço ao outro, acolhe o outro, permite conhecer o outro e até possibilita que o outro se conheça melhor a si mesmo.

Quando não há silêncio na comunicação, as palavras atropelam-se e o tom conta mais que o conteúdo e a sensibilidade. Longe do silêncio, as palavras chegam a irromper como punhais arremessados em impulsos de fúria.

O silêncio «reifica» a comunicação, dispensa atenção e oferece compreensão. A pessoa silenciosamente atenta e compreensiva fixa-se no outro, não tortura o telemóvel nem dirige o olhar para o vazio.

Não é só vocalmente que comunicamos, pelo que o silêncio também transporta uma linguagem e carrega uma mensagem. Emite mais respeito e empatia do que possamos imaginar.

Em momentos de tensão, o silêncio consegue reprogramar discussões para quando despontar um registo mais cordial e apaziguador.

Impõe-se, por isso, alterar o padrão. Porque é que ficamos intrigados quando alguém não diz nada, inquirindo logo: «O que se passa»?

Quem se espanta por alguém falar? Passe a ironia, parece que só o antigo rei espanhol teve o arrojo de confrontar um já falecido — e loquaz — estadista: «Por qué no te callas»?

É pena que os silenciosos sejam vistos como inábeis, quase como inexistentes.

É pena que o silêncio não seja valorizado como fornecedor de acalmia e oportunidade, para que cada um se expresse com mais tranquilidade e liberdade.

Não menorizemos a eloquência do silêncio. Ele ajuda a organizar o pensamento, a controlar as emoções e a ajustar as palavras à pessoa que temos à nossa frente e ao entorno em que nos encontramos.

Neste alvorecer de um novo ano pastoral, em que se cruzam propostas e se ordenam planos, não desterremos o silêncio.

Antes de programar, escutemos. Operantes como Marta, orantes como Maria (cf. Lc 10, 38-48) e a missão amanhecerá em cada dia!

 

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

Partilhar:
Scroll to Top