Igreja/Ambiente: Comissão Teológica Internacional propõe definição de «pecado contra a criação e o Criador»

Novo documento defende sistema económico alternativo, «ao serviço da vida de todos»

Foto: Lusa/EPA

Cidade do Vaticano, 02 set 2026 (Ecclesia) – A Comissão Teológica Internacional (CTI), organismo ligado ao Dicastério para a Doutrina da Fé (Santa Sé), publicou hoje um novo documento onde propõe que a degradação ambiental seja definida formalmente como um “pecado” contra Deus e a natureza.

“Propomos que se entenda este pecado contra a Casa Comum como um pecado contra a criação e contra o Criador, na medida em que viola o sentido da criação pretendido por Deus”, assinalam os teólogos, na reflexão que contou com a aprovação do Papa Leão XIV.

O texto, intitulado ‘Cuidar da nossa Casa comum: Resposta responsável e fraterna ao Deus trinitário’, defende uma formulação que “implique simultaneamente o dano infligido à natureza e o desrespeito, ou mesmo a rejeição, do desígnio do Criador, que prevê a confiança aos seres humanos da custódia e do cuidado da Casa Comum”.

A nova proposta surge em detrimento de conceitos seculares como “ecocídio” ou do termo genérico “pecado ecológico”.

“Propomos definir o pecado ecológico como uma ação ou omissão contra Deus, contra o próximo, a comunidade e o ambiente”, pode ler-se.

É um pecado contra as gerações futuras e manifesta-se em atos e hábitos de poluição e destruição da harmonia do ambiente, em transgressões contra os princípios da interdependência e na rutura das redes de solidariedade entre as criaturas e contra a virtude da justiça.”

A CTI recorda o ensinamento de Leão XIV, que “associa simultaneamente o dano à natureza ao desvio do plano confiado aos seres humanos pelo Criador”.

“Uma formulação adequada do que constitui o pecado aqui em questão deve expressar ambos os fatores: não só o dano ambiental ou ecológico, mas também e, em primeiro lugar, a recusa em seguir o desígnio querido por Deus para a criação”, precisam os especialistas.

A comissão evoca, a este respeito, a forma como se “consolidaram progressivamente as noções de pecado social e de estruturas de pecado”.

“O momento histórico que vivemos exige de todos, a começar por aqueles que são responsáveis pela vida pública, uma ação urgente em favor da sustentabilidade do planeta e da habitabilidade da Casa Comum. Não se trata apenas de uma exigência ética, mas também teológica”, insistem os responsáveis.

O texto aponta o dedo ao atual modelo económico, propondo “um sistema alternativo, que se coloque ao serviço da vida de todos, seja regido pelo critério da sustentabilidade e respeite os biorritmos da Casa comum”.

O documento, elaborado ao longo do último quinquénio e cuja publicação foi autorizada no último dia 21 de agosto, repudia o “antropocentrismo predatório” que atribui à humanidade o direito ilusório de usar e abusar dos recursos naturais sem limites.

Em simultâneo, os teólogos católicos distanciam-se de filosofias ambientais extremas como o “biocentrismo” ou o “ecocentrismo” radical, alertando que estas perspetivas suprimem a diferença de valor entre a pessoa humana e os restantes seres vivos, abrindo caminho a um “novo panteísmo” tingido de neopaganismo.

O organismo tutelado pelo Dicastério para a Doutrina da Fé propõe como alternativa o “antropocentrismo situado”, um conceito apoiado pelo Papa Leão XIV na sua encíclica ‘Magnifica humanitas’, que reposiciona o ser humano como “administrador e servidor” da criação.

A reflexão sublinha ainda a ligação entre o “grito da terra” e o “grito dos pobres”, exigindo uma “conversão ecológica” integral que promova o diálogo inter-religioso, a sobriedade, o jejum de consumos insustentáveis.

“A viragem ecológica não é apenas uma mudança de paradigma que diz respeito à mente, mas implica uma profunda conversão espiritual, à semelhança da que foi testemunhada por São Francisco de Assis”, indica a CTI.

A posição da Igreja Católica sobre a crise ecológica ganhou destaque em 2015, com a publicação da encíclica ‘Laudato Si’, de Francisco, que tem inspirado a ação e a reflexão dos vários responsáveis eclesiais, ao longo da última década.

OC

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