Um Cristianismo Festeiro

Padre Victor Pereira, Diocese de Vila Real

Padre Vitor Pereira, Diocese de Vila Real

Quem passe pelas igrejas em muitas partes do nosso país, durante estes meses de verão e, sobretudo, durante o mês de agosto, e se depare com os programas festivos e com o frenesim que toma conta de muitas paróquias, o número de sacramentos que se celebram, chegará facilmente à conclusão de que as comunidades cristãs têm uma participação extraordinária de cristãos, a vivência cristã está bem e recomenda-se, o compromisso cristão na Igreja é grande. Bem poderá ser fogo de vista. As Igrejas, e desculpem o exagero, tornam-se o salão de festas dos muitos cristãos que nem um minuto por lá passam durante o ano.

Há uma certa cultura errada instalada nas nossas comunidades cristãs, que tem de ser seriamente refletida: a celebração de festas e sacramentos sem a vivência do Domingo, dia central para os cristãos, e sem a participação na vida da comunidade de que se faz parte. É habitual, mais do que seria expectável, encontrarmos muitas famílias que se apresentam na igreja com filhos para batizar ou para fazer as comunhões, que andam completamente alheadas da vida paroquial e têm uma ligação à Igreja muito pobre, para não dizer nula. Cada vez se acentua mais esta vivência errada da fé cristã. Reduzir o cristianismo só a meia dúzia de festas, para se quebrar rotinas e se poder celebrar qualquer coisa com a família e os amigos e fazer bonitos álbuns de fotografias, é uma desfiguração inaceitável da fé cristã e um reducionismo religioso inconcebível. O Cristianismo tem as suas festas, mas é muito mais do que festas, é seguimento de Jesus Cristo, é viver como discípulo, é comunidade e caminhada de fé com os outros, é compromisso com o Reino de Deus, é testemunho audaz e coerente do Evangelho, é oração, relação e comunhão com Deus, na Igreja e com a Igreja. Esquecer isto ou não estar disposto a vivê-lo, querendo-se só a Igreja para festas, é viver uma mentira diante de Deus, instrumentalizar e desvirtuar a religião e viver um cristianismo superficial e adulterado.

O mesmo se diga para os festeiros e romeiros das romarias de verão, que não aparecem numa missa durante o ano e que pouco ou nada se importam com a vida da comunidade que assumiram e com a qual se comprometeram, ou para os jovens casais, que vêm celebrar o casamento na Igreja e só se voltam a ver nos dias dos batizados dos filhos, ou até para as famílias que pedem missas pelos defuntos durante a semana e raramente participam na Eucaristia do Domingo, centro da comunidade cristã. Aliás, vivemos atualmente uma contradição gritante na Igreja, que deve fazer pôr os cabelos em pé a Jesus Cristo, salvo seja: pedir-se um sacramento ou participar numa festa não para progredir na fé e aprofundar a relação com Deus e com a Igreja, porque é para isso que se celebra um sacramento, mas para se continuar indiferente a Deus e se abandonar a Igreja. Roça o escandaloso e é um testemunho inaceitável e indigno de quem se diz cristão. Sem as festas e sacramentos, muitos nunca mais apareceriam numa Igreja. A fé em vez de ser vista como um tesouro e um dom que dá sentido, grandeza e plenitude à vida, ao invés, é entendida, e só pode ser por má ou falta de formação, como uma obrigação ou um estorvo, de que devemos prescindir e de que nos devemos libertar, porque pouco ou nada importa na vida.

Temos de repensar seriamente estes comportamentos e estas práticas, que não são corretas e não ficam nada bem a quem se diz crente cristão. Não há qualquer argumentação que as sustente. Temos de rever as nossas práticas pastorais, apontar novos caminhos e rever o sentido e o significado de alguma tradição cristã, que não cria adesão a Deus e não gera comunidade, presença e intervenção cristã. A Igreja está de portas abertas e alegra-se pelo facto de as famílias quererem batizar e crismar os seus filhos e de desejarem introduzi-los na comunhão com Deus e com a Igreja, exulta com os muitos casais que pedem o casamento católico, mas ficarmo-nos só por aí, sem se assumir a sério a vivência da fé e um verdadeiro compromisso com Deus e com a Igreja, é patrocinar uma insanável falsificação da vida cristã. Continuarmos no cristianismo das festarolas é nutrir uma certa vivência da fé oca e vazia, de fachada, aparatosa, mas estéril e sem alma, que Jesus condenou nos judeus do seu tempo, e que jamais aceitará aos seus discípulos e à sua Igreja.

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