«Fátima é o nosso altar», afirmou Rosa Leite, há 25 anos em França, que anualmente vai até ao Santuário da Cova da Iria para agradecer pela vida, pelo trabalho e pelo acolhimento no país onde reside

Fátima, 13 ago 2026 (Ecclesia) – Um grupo de emigrantes portugueses da paróquia de Gentilly, na capital francesa, acompanhado do pároco português Rui Pedro, participou, durante o período de férias em Portugal, na Peregrinação do Migrante e do Refugiado a Fátima, que terminou hoje.
“Nós estamos aqui para lembrar também que também somos gente e que também temos as nossas exigências e que nos sentimos lá longe, igreja que recebeu o batismo em Portugal e que lá continua a sua vida cristã, e que também temos ânsia de direitos, de uma atenção particular”, afirmou o sacerdote português, esta quarta-feira, à Agência ECCLESIA, no Santuário mariano.
“Que Portugal também nos dê aquilo que nós precisamos para que também não sejamos discriminados como emigrantes”, destacou.
Há menos de um ano que o padre scalabriniano Rui Pedro deixou o Luxemburgo, onde esteve 12 anos, e foi enviado pela congregação para Paris, concretamente para a paróquia de Gentilly, que já conta com mais de 50 anos e que assistiu à passagem de muitos missionários.
“E lancei o desafio a esta comunidade de virmos à peregrinação. Nós estamos de férias aqui em Portugal”, explicou, indicando que paroquianos “aderiram muito bem” ao repto e que foi confiada ao grupo uma vigília noturna da peregrinação.
“Estamos aqui para nos abraçarmos, para nos reencontrarmos em tempo de férias”, referiu.
Em declarações à Agência ECCLESIA, o padre Rui Pedro lembrou que “Portugal não pode esquecer que por cada 10 emigrantes no estrangeiro há apenas três imigrantes” no país e que, apesar de o tema da imigração estar “muito atual” a nível nacional, tal “não pode abafar a questão da emigração”.
O pároco de Gentilly observa que “há narrativas negativas”, de “racismo”, de “xenofobia” contra aqueles que escolheram Portugal para viver, recordando que, há uns anos, o povo português passou “pelo mesmo”.
Esta onda de narrativa negativa que se vive em Portugal, e hostil à imigração, também contagia as nossas comunidades, portanto, eu próprio, no lidar diariamente com os meus paroquianos, digamos assim, emigrantes, noto que também eles se deixaram já levar por algumas tendências, digamos, de não aceitação dos estrangeiros”, denuncia.
O sacerdote partilha que tem tido dificuldade em lidar com a situação, descrevendo que tem trabalhado para que emigrantes saibam “ser pessoas positivas”, que lançam apelos e “dão testemunho de que a dignidade humana, seja de quem for, tem que ser defendida”.

Falando na comunidade de portugueses em Gentilly, o padre Rui Pedro ressalta que já existe uma geração que não lida tão bem com a língua portuguesa.
“Todos os sacramentos que eu faço têm que ser em duas línguas, porque é uma comunidade que está integrada, enraizada, e já há vizinhança, já há amigos, já há casamentos mistos, etc. A própria Missa é bilíngue, que é o único modo que nós temos para não excluir ninguém”, explicou.
O sacerdote nota que o que mais une os emigrante já não é o idioma, mas o espaço: “Aquela igreja, aquela paróquia, tem sido um lugar de experiência de fé, entre gerações, sem dúvida, onde ali se realizaram momentos bonitos, da fé das famílias”.
Sobre a renovação de gerações, o pároco admite que não se pode lamentar, uma vez que este ano houve 80 crismas e relatou que há um coro juvenil na Missa de sábado.
“Grande parte dos catequistas são jovens, temos rancho folclórico […] Eu até me admirei um bocadinho, quando cheguei lá e vi algumas festas, ver a terceira geração a cantar o ‘Malhão Malhão’”, testemunhou.
“Isso também me ajuda no meu ministério sacerdotal, porque às vezes nós pensamos que estas comunidades são só de idosos, não, ali temos um pouquinho de tudo”, enfatiza.
O padre Rui Pedro expressou que “a paróquia só sobreviverá se se abrir, de facto, a outros e a esta experiência comunitária não apenas linguística”.
O sacerdote lembrou também a visita do Papa a França, entre 25 e 28 de setembro, informando que a paróquia está envolvida e já está a mobilizar para estar com Leão XIV.
“[Que]recebamos da parte do Papa uma confirmação de que também nós, emigrantes, seja qual for a nossa nacionalidade, temos uma missão importante de rejuvenescer a fé, despertar para a vida comunitária e também enriquecermos a Igreja com a nossa cultura, a nossa diferença e a nossa tradição religiosa”, concluiu.
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