Presidente da peregrinação do migrante e do refugiado, D. Andrés Carrascosa Coso, sublinha que «ninguém é estrangeiro em Fátima», em conferência de imprensa

Fátima, 12 ago 2026 (Ecclesia) – O presidente da Peregrinação do Migrante e Refugiado a Fátima, D. Andrés Carrascosa Coso, defendeu hoje que o povo português não tem direito a ser xenófobo, na conferência de imprensa que decorreu esta tarde no Santuário.
“Um cristão não tem direito a ser xenófobo, a dizer que todo mundo é mau. Com a fé, com o Evangelho na mão, não temos direito. Mas se não temos direito como cristãos, eu acho que o povo português é um povo que não tem direito a ser xenófobo”, afirmou o núncio apostólico em Portugal.
D. Andrés Carrascosa Coso lembra que, em tantos momentos da sua história, os portugueses tiveram que sair do país para “procurar melhores condições de vida para a própria família” noutros lugares e sofreram com isso.
“Eu vivi junto com eles, como padre. Eu ia lá ajudar na paróquia, em muitas conversas”, recorda o representante do Papa em Portugal, que já passou por vários países, destacando que ficou “feliz” por ser convidado para ser o presidente desta peregrinação.
Promovida pela Comissão Episcopal da Mobilidade Humana, em conjunto com o Santuário de Fátima, a conferência de imprensa desta tarde reuniu D. Andrés Carrascosa Coso, Eugénia Quaresma, diretora da Obra Católica Portuguesa de Migrações, e D. Pedro Fernandes, presidente do organismo da Conferência Episcopal Portuguesa que organizou a iniciativa.
“Cheguei ao país em fevereiro. Acho que foi em abril que bispo me convidou para presidir esta celebração”, recordou.
O núncio apostólico espera que a peregrinação do migrante e do refugiado seja marcada pela presença da migração, de quem de Portugal saiu para outros lugares e por pessoas que encontraram no país um lugar para viver.
“Quantas famílias eu vi portuguesas, migrantes em outros lugares, que a própria fé os ajudou a manter-se. Essas imagens de Nossa Senhora de Fátima levadas na mala. E que eu compreendo porque voltam à Fátima. Porque aqui está a raiz da fé deles, que ajudou a viver momentos de dificuldade”, referiu.

D. Andrés Carrascosa Coso destacou que esse emigrantes são esperança nas comunidades cristãs onde residem, tendo também recordam quem chega de outros horizontes e que são um ponto positivo nos lugares aonde chegam.
“Aqui descobrimos que somos todos filhos da mesma mãe. E aqueles que são filhos da mesma mãe, são irmãos. Falando línguas diferentes. Eu acho que isso, para mim, é a imagem desta peregrinação. Filhos na casa da mãe. Onde ninguém pode dizer que o outro não é de casa. Ninguém é estrangeiro em Fátima. E nas comunidades cristãs, ninguém é estrangeiro”, sublinhou.
Na intervenção, o núncio apostólico lembrou que já serviu várias geografias ao longo do percurso diplomático, tendo começado na Libéria, passando pela Serra Leoa, Guiné-Conacri e Gâmbia; também a América latina foi uma das suas moradas, bem como a Europa.
“Sobretudo na Suíça, eu trabalhei nas Nações Unidas, em Genebra, e no Canadá, na Ottawa, a capital, eu tive contato com imigrantes portugueses”, disse, indicando que ali viu histórias de superação, mas também de sofrimento, “de quem acha que todos os estrangeiros são maus”.
| Na conferência de imprensa, a entrada de milhares de imigrantes em Ceuta foi um dos assuntos abordados, com o núncio apostólico a afirmar que a situação “não é uma crise migratória”, “é outra coisa”.
“Nada pior do que querer dar soluções fáceis a problemas difíceis. Porque você acaba no populismo, de um lado ou de outro, eu não quero cair nisso. É uma crise de outro tipo”, disse. D. Andrés Carrascosa Coso referiu-se à geopolítica internacional e à União Europeia, ressaltando que cada um dos membros tem os próprios processos políticos de eleições e que, muitas vezes, os interesses de um chocam com os de outros. O representante do Papa em Portugal lembrou o administrador apostólico da Diocese espanhola de Cádis e Ceuta, D. Ramón Valdivia, para abordar a falta de resposta para acolher tantos migrantes na região, assim como as organizações não governamentais. “Não é uma situação fácil. Mas, quero dizer, não é uma questão de migração normal, é de outro tipo. E essas coisas estão muito bem orquestradas”, assinalou. Falando ainda no tema da migração, o núncio apostólico admitiu que este “é muito complexo” e observou que, quando toca a partidos políticos, tando de um lado como de outro, normalmente propõem-se “soluções simples a problemas complexos”. “É óbvio que um país tem que sentar e dizer qual a capacidade que temos de acolhimento. Como se fosse uma casa, tem que acolher alguém. Primeiro tem que sentar e ver quantos quartos tem e quantos podemos acolher. Porque se posso acolher um, não posso acolher quatro”, explicou. “Se você vai além da capacidade, cria xenofobia. E se você não acolhe, estamos em choque com o evangelho. Temos que ser muito realistas. E a Europa está a fazer uma experiência complicada, desde os últimos 10, 15 anos […] Isto é muito complexo e muito preocupante”, expressou. |
HM/LJ
Notícia atualizada às 18h40
