Eugénia Abrantes sublinha que novos desafios exigem liderança «colaborativa» e «manual fundamental» de procedimentos

Lisboa, 22 ago 2026 (Ecclesia) – A diretora do Instituto de Estudos Avançados em Catolicismo e Globalização (IEAC-GO) alertou para a urgência de uma liderança colaborativa face à inteligência artificial (IA), apontando a dimensão comunitária como antídoto para a “fragmentação” social.
“Nós temos de aumentar a reserva de amor nas diferentes estruturas sociais, porque só o amor é quase como uma liga de conspiração contra a fragmentação”, disse Eugénia Abrantes à Agência ECCLESIA, evocando os ensinamentos da mística Etty Hillesum.
Segundo a entrevistada, a fragmentação gerada pelas feridas “narcísicas” da atualidade exige uma mobilização comum em torno de uma “nova forma de humanismo”, sustentada pela solidariedade ativa.
“Temos de trabalhar essa dimensão com muita urgência, a dimensão do amor. A nossa grande condição e a única capaz, do meu ponto de vista, de fazer frente a essa fragmentação é a dimensão do amor”, insistiu.
A teóloga e psicóloga entende que a atitude da sociedade perante as novas tecnologias corre o risco de cair nos extremos prejudiciais do fascínio cego ou do medo paralisante.
“É um tema de que nós já ouvimos falar há anos, mas não nos preparámos “, advertiu.
Para a investigadora, é preciso desconstruir a ilusão provocada por estas ferramentas, que exploram a carência afetiva e o individualismo contemporâneo para comercializar soluções personalizadas de bem-estar
“A relação humana não pode ser dual, ela é trinitária, é comunitária, é o nós todos, porque o bem não é o meu bem pessoal, é o bem comum”, defendeu a diretora do IEAC-GO.
A redução da vida ao mero processamento textual, acrescentou, gera um simulacro de interação que jamais conseguirá reproduzir o abraço humano e a experiência física da realidade.
“A inteligência artificial não tem dimensão espiritual, ela vende produtos espirituais”, sustentou, Eugénia Abrantes ao sublinhar a incapacidade das máquinas para o alcance da consciência histórica e ética.
A entrevistada aponta a um trabalho “interior” para desenvolver a capacidade de responder à superficialidade digital.
“Os místicos falavam muito nesta questão do conhecimento interior, da busca do essencial. Quando eu consigo trabalhar esta dimensão, estou apto a trabalhar qualquer realidade, seja ela qual for”, apontou.
A diretora do IEAC-GO defendeu ainda uma capacitação institucional nesta área, por parte das várias instituições católicas, com a criação de equipas formativas multidisciplinares de âmbito nacional, em vez da proliferação de pequenas ações locais desconectadas entre si.
“Acho que era essencial um manual fundamental para as diferentes áreas”, declarou.
A entrevista que vai ser emitida este domingo, na RTP Antena 1 (06h00), é a terceira de um ciclo de conversas sobre a IA, à luz da encíclica de Leão XVI publicada a 25 de maio, que aborda os enormes éticos e antropológicos levantados por estas ferramentas digitais.
OC
