Venezuela: Bispo auxiliar de Caracas, lusodescendente, afirma «há muito por fazer», passado um mês da «tragédia»

A «experiência pessoal» de D. José Dionísio Gouveia, com raízes madeirenses, tem sido «acompanhar, visitar os lugares afetados, falar com as pessoas»

Foto: Lusa/EPA

Caracas, 22 jul 2026 (Ecclesia) – O bispo auxiliar eleito de Caracas assinalou que “passado um mês desta tragédia” dos sismos na Venezuela “há muito por fazer, há ainda muito movimento da terra para buscar vítimas”, e destaca a proximidade da Igreja Católica para apoiar a população.

“Passado um mês desta tragédia, há agora muito por fazer, há ainda muito movimento da terra para buscar vítimas,  alguma pessoa viva, para retirar muitos cadáveres que ainda faltam. E, agora, o desafio ue se apresenta é procurar) habitação para as pessoas que ficaram sem casa, e seguir dando comida, roupa, de medicina, de atenção médica”, disse D. José Dionísio Gouveia, em declarações à Agência ECCLESIA.

O bispo lusodescendente explicou que as pessoas estão a se organizar “em refúgios, acampamentos”, e estão o governo, muitas entidades a trabalhar, a acompanhar estas pessoas, por isso, o “grande desafio agora”, é irem tirando os escombros “e limpando, mas também pensando nestas pessoas”.

“Está-se a fazer um grande trabalho também de engenharia, de olhar para muitos edifícios, para certificar-se que pode habitar ou tem que ser demolido, arranjado, antes de as pessoas continuarem morando aí”, acrescentou.

O território venezuelano foi atingido no passado dia 24 de junho por dois sismos consecutivos com magnitudes de 7,2 e 7,5 na escala de Richter; o número de mortos aumentou para 5.346, segundo o último balanço oficial, divulgado esta terça-feira.

Sobre o auxílio à população, o bispo auxiliar eleito de Caracas destaca que a arquidiocese católica da capital venezuelana organizou “um comité de emergência para atender todas as pessoas” que foram afetadas pelo duplo sismo, “não só na arquidiocese, mas também em apoio à Diocese de La Guaira, também muito afetada”.

“Através deste comité de emergência está-se visitando as pessoas no acampamento, a ver que necessidades têm as pessoas de comida, de roupas, de medicina, de atenção médica, e também fazer acompanhamento espiritual, psicológico, celebrações litúrgicas para animar as pessoas, olhar também os sacramentos, para as pessoas que ainda não têm”, desenvolveu D. José Dionísio Gouveia, que é natural de La Guaira, onde nasceu a 4 de junho de 1966.

Foto: D. José Dionísio Gouveia (Facebook)

O responsável destaca que a Arquidiocese de Caracas está a fazer “um trabalho muito grande”, sobretudo com este Comité de Emergência, que faz parcerias com a Cáritas de Venezuela, com as Cáritas paroquiais e também com muitas instituições religiosas que “estão a atender meninos, anciãos, doentes, e a visitar os hospitais, as pessoas nas casas, “a acompanhar o enterro dos seres queridos que vão aparecendo”,  a bênção das cinzas, para “dar tranquilidade, uma fortaleza a todas estas pessoas”.

D. José Dionísio Gouveia adiantou que vão assinalar o primeiro “mês da tragédia dos terremotos na Venezuela”, e esta sexta-feira, dia 24 de julho, vão celebrar “uma Santa Missa na Arquidiocese de Caracas, na igreja São Judas Tadeu, para elevar uma oração pelas vítimas, para também animar as pessoas”.

“A minha experiência pessoal neste tempo tem sido acompanhar, visitar os lugares afetados, falar com as pessoas, dar ânimo, escutar os testemunhos do que viveram, rezar pelo seres queridos perdidos, olhar para os doentes”, partilhou.

Segundo o bispo auxiliar eleito, “tem-se feito muito”, muita companhia na pastoral arquidiocesana, nas paróquias, nas visitas e a “ter contato com essas pessoas, que estão agora a passar essas grandes necessidades, para fazer presença do Nosso Senhor e da Igreja”.

Ordenado sacerdote 24 novembro de 2001, D. José Dionísio Gouveia foi nomeado bispo auxiliar de Caracas – Santiago de Venezuela, titular da Sé de Fuerteventura, pelo Papa Leão XIV, no dia 18 de março deste ano.

A ordenação episcopal do atual reitor do Seminário arquidiocesano de Santa Rosa de Lima vai realizar-se a 15 de agosto, solenidade da Assunção de Nossa Senhora e festa de Nossa Senhora do Monte, padroeira da Madeira, na igreja de São João Bosco, em Altamira; onde participará o bispo do Funchal, D. Nuno Brás, que vai visitar a Venezuela, de 12 a 16 de agosto, a convite do arcebispo de Caracas, D. Raúl Biord.

CB/OC

A Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) está a apoiar sacerdotes, religiosas e leigos que trabalham diretamente com as vítimas dos sismos na Venezuela, a sua presidente executiva visitou o país da América latina, no dia 7 de julho, para manifestar solidariedade com a Igreja local e as comunidades.

“Eu não esperava encontrar um nível de destruição tão grande. Quando se chega lá e vê montanhas de escombros por toda a cidade, equipas de homens e escavadoras a remexer os destroços (eles já não procuram sobreviventes, passou demasiado tempo) ou se vêem enormes prédios inclinados onde obviamente ninguém pode estar vivo, é algo de apocalíptico”, relatou Regina Lynch, na informação enviada hoje à Agência ECCLESIA, pelo secretariado português da fundação pontifícia.

A AIS para além da assistência imediata, também destinou uma ajuda inicial de 100 mil euros, está a preparar novos projetos para reconstruir estruturas da Igreja e oferecer apoio às pessoas que enfrentam traumas, para a presidente executiva a situação da Venezuela e a destruição causada pelos terramotos, supera qualquer expectativa, e descreve a realidade em La Guaira como “apocalíptica”.

“Foi possível ver como a Igreja está bem organizada na Venezuela. Eles têm uma grande operação em andamento. Havia muitos voluntários, de todas as idades, ajudando a separar as doações enviadas por outras pessoas do próprio país. Parecia uma colmeia”, acrescentou Regina Lynch.

A Fundação Ajuda à Igreja que Sofre está presente nas Dioceses venezuelanas de Caracas e La Guaira desde 2011, “quando começou a grave crise económica e social no país”, e construiu uma “relação de confiança” com a Igreja local ao longo destes quase 15 anos, segundo a presidente executiva as infraestruturas construídas com recursos da AIS resistiu aos terramotos, enquanto muitos conjuntos habitacionais desabaram completamente.

Partilhar:
Scroll to Top