LUSOFONIAS – Papa Leão, Angola, três meses depois…(I)

Tony Neves, em Luanda

Foto: Lusa/EPA

O Papa Leão XIV visitou Angola há 3 meses. O tempo vai passando e decantando o essencial dos seus gestos e palavras. Desafiei algumas pessoas angolanas (clérigos, religiosos ou leigos) a escolher a frase do Papa que mais deixou marcas na sua vida e que tem potencial para ajudar Angola a crescer. As reações vieram do mundo inteiro, desde Angola a Inglaterra, de Portugal ao Paraguai, da Nigéria à Itália, da Guiné Bissau a França, da Espanha à África do Sul, da Holanda à Ilha Reunião, da RCA ao Brasil, de Cabo Verde aos Camarões, da Suíça ao Quénia. O resultado final foi fantástico e, por isso, tenho a alegria de partilhar esta seleção de provocações papais, feitas no Kilamba, na Muxima, no Saurimo, na Senhora de Fátima ou no Palácio Presidencial. Dada a quantidade (e qualidade) das reações, publico duas crónicas sobre esta visita tão marcante como estimulante para o futuro do país.

“África é, para o mundo inteiro, uma reserva de alegria e esperança’ – eis a escolha de D. Belmiro Chissengueti, o coordenador-geral da visita do Papa. A mesma frase foi sublinhada pela Irmã Florência Cassinda, pelo P. Alexandre Tchombe, pela Irmã Laurinda Severino, por Paula Gustavo e Alexandre Chombe. Acrescentaram Maria Mussolovela e o P. António Quimino: ‘…que eu não hesitaria em definir como virtudes políticas’. Ou – como destacou Cristina Afonso –  ‘a alegria e a esperança, frequentemente vistas como sentimentos privados, são, na verdade, forças sociais poderosas. Elas contrariam a resignação e o isolamento. Pelo contrário, a tristeza e o medo podem tornar as pessoas vulneráveis à manipulação, ao fanatismo e à divisão’ . A Irmã Júlia Clementina cita assim o Papa: ‘Nesta cena do Evangelho (discípulos de Emaús), vejo refletida a história de Angola, deste país belíssimo e ferido, que tem fome e sede de esperança, de paz e de fraternidade’.

A Irmã Tecla Chitula dá continuidade: ‘Hoje é necessário olhar para o futuro com esperança e construir a esperança do futuro, não tenhais medo de o fazer’. Alzira Simões, o P. Cândido Luhuma e Gualberto Domingos insistem: ‘Juntos, podeis fazer de Angola um projeto de esperança’; Leonardo Pinto dá força ao desafio do Papa: ‘a história do vosso país, as consequências ainda difíceis que suportais, os problemas sociais e económicos e as diversas formas de pobreza exigem a presença de uma Igreja que saiba estar próxima no caminho e saiba ouvir o clamor dos seus filhos. Uma Igreja que, com a luz da Palavra e o alimento da Eucaristia, saiba reavivar a esperança perdida’. As escolhas de Leila Dias e de Chimerem Mbadugha vão na mesma linha: ‘Nós podemos e queremos construir um país onde as antigas divisões sejam superadas para sempre, onde o ódio e a violência desapareçam, onde a chaga da corrupção seja curada por uma nova cultura de justiça e partilha. Só assim será possível um futuro de esperança’.

A Irmã Elisabeth Cassongo e o P. Felisberto Sakulukusu salientaram: ‘O verdadeiro líder é aquele que tem a humildade de ouvir o seu povo e a firmeza de colocar a vida humana acima de qualquer lucro imediato’. O P. David Sandambongo, Óscar Freitas e Borges Pongolola defendem que não se pode permitir que Angola continue a ser tratada como um terreno de saque e citam o Papa: ‘caríssimos, referia-me às riquezas materiais nas quais, inclusivamente no vosso país, interesses prepotentes põem as mãos. Quanto sofrimento, quantas mortes, quantas catástrofes sociais e ambientais acarreta esta lógica extrativista!’. Por sua vez, Arminda Camati, o P. Jerónimo Lubongo e o P. Pascoal Domingos optaram por esta partilha: ‘Desejo ouvir e encorajar aqueles que já escolheram o bem, a justiça, a paz, a tolerância e a reconciliação. Ao mesmo tempo, com milhões de homens e mulheres de boa vontade que constituem a principal riqueza deste país, pretendo também invocar a conversão dos que, escolhendo caminhos opostos, impedem o seu desenvolvimento harmonioso e fraterno’.

Termino com duas seleções marcantes: O P. Alberto Tchindemba e a Irmã Júlia Capela escolheram: ‘quando a injustiça corrompe os corações, o pão de todos torna-se propriedade de poucos’. Por sua vez, o P. Celestino Epalanga (da Comissão Justiça e Paz da CEAST), Gustavo Silva, o P. Joaquim Kapango, o P. Arnaldo Loureiro, o P. Amílcar Gonga, o P. Alfredo Mavinga, António Faria e Félix Lussasse optaram por este pedido do Papa: ‘Colocai o bem comum acima do das partes, não confundindo nunca a vossa parte com o todo’.

E muitas outras palavras do Papa Leão foram sublinhadas…terão o seu espaço na próxima crónica. Dada a sua importância, não perderão pela demora!

Tony Neves, em Luanda

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

Partilhar:
Scroll to Top