Sociedade da Boa Nova: «Ser missionário no Japão é aprender a escutar antes de falar», afirma padre Hipólito Vida

Nascido em Moçambique, sacerdote partilha experiência missionária na Ásia. Já o padre José Armando Vicente, com as mesmas origens, retrata realidade da missão no Brasil

Padre Hipólito Vida; Foto Agência ECCLESIA/LS

Cucujães, 15 jul 2026 (Ecclesia) – O padre Hipólito Vida, da Sociedade Missionária da Boa Nova (SMBN), nasceu em Moçambique e, logo depois de ser ordenado sacerdote, foi enviado para o Japão, onde está há 10 anos e onde os católicos são uma minoria.

“Eu tenho dito que ser missionário no Japão é aprender a escutar antes de falar e é isso que nós, como membros, temos estado a viver lá no Japão”, afirmou o sacerdote, em declarações à Agência ECCLESIA, em Cucujães, na Diocese do Porto, onde está a decorrer a 15.ª Assembleia Geral da SMBN.

O sacerdote destaca que o país asiático tem uma percentagem de católicos inferior a 1% e que, por isso, ali a fé “não se impõe”, mas propõe-se como um modo de vida, através da escuta do outro, da coerência e da paciência.

“Tanto quanto os primeiros missionários tiveram dificuldades nas primeiras missões, como Moçambique, Angola, no Brasil, nós também enfrentamos esta realidade de dificuldade de integração, mas é ali onde o Senhor nos chama a proclamar a boa nova nesta missão ad gente, como é o lema do próprio Instituto”, referiu.

O padre Hipólito Vida explica que a Sociedade Missionária da Boa Nova tem três missionários no Japão, que apoiam as comunidades paroquiais e escolas.

“Houve ali uma fusão de duas dioceses e estamos lá há mais ou menos 25 anos em missão e neste momento somos três membros que estamos distribuídos um pouco pelas paróquias, a começar pela Catedral [de Osaka]”, onde o português padre Nuno Lima é pároco, indicou o sacerdote.

O missionário lembra que foi “um grande desafio” a transição de culturas, desde o continente africano até ao asiático.

“Eu como jovem, quando eu fui para o Japão, eu ia com muitos sonhos, com muitas ideias, com muitas propostas, mas quando eu cheguei, eu percebi que no Japão é preciso morrer primeiro, deixar de lado as suas ideias e aprender do zero”, relatou.

O padre Hipólito Vida recorda que veio de um país de toque e de abraço e que se deparou com uma realidade marcada pela distância física e onde não se pode falar de qualquer maneira.

“Estes meus 10 anos de padre como missionário foram de muito desafio, mas ao mesmo tempo de muita confiança, de muita esperança. Aos poucos fui criando, fui vendo, fui aprendendo, dois anos de estudo só de japonês e da cultura japonesa e só depois é que o bispo nomeou-me para a paróquia, neste momento sou pároco de três paróquias”, salientou.

O missionário, que é também responsável da pastoral brasileira na Diocese de Osaka-Takamatsu, expressa que é no estar, escutar e visitar os doentes que vai aprendendo e crescendo.

“’Como é que consegues falar de Deus num país onde pouco se fala de Deus?’ Eu costumo dizer, eu não falo de Deus, eu vivo Deus e é o que eu procuro fazer enquanto missionário no Japão”, realçou.

Padre José Armando Vicente; Foto Agência ECCLESIA/LS

Na 15.ª Assembleia Geral da SMBN, que reuniu membros do instituto, participou também o padre José Armando Vicente, de Moçambique, que há 25 anos se encontra em missão no Brasil.

“Por mais que o Brasil tenha um número elevado de católicos batizados, hoje continua a ser missionário, no sentido em que existem vários desafios, sobretudo nas nossas comunidades cristãs, a formação das lideranças nas comunidades cristãs e também a visita aos doentes. Existe um número elevado de doentes idosos e a nossa missão justamente passa por aí”, testemunhou.

O sacerdote colabora atualmente na Arquidiocese de Belo Horizonte, no estado de Minas Gerais.

“A nossa inculturação é com as dioceses. Nós, segundo a nossa origem na sociedade, nós surgimos como padres diocesanos e nós também temos como objetivo, justamente, inserirmo-nos nas dioceses para onde nós somos enviados”, referiu.

Sobre a 15.ª Assembleia Geral da SMBN, o padre José Armando Vicente aponta como desafio o número reduzido de membros padres, salientando a necessidade de refletir sobre a presença missionária, para que seja “muito significativa”.

O encontro foca-se na preparação do próximo mandato diretivo, um ciclo temporal que termina em 2030, centenário da fundação da SMBN, inicialmente destinada a auxiliar o esforço missionário da Igreja em Portugal; nos últimos anos a Sociedade Missionaria tornou-se internacional.

LS/LJ/OC

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