Missionário português dedicou a sua vida à promoção da língua portuguesa e ao apoio aos timorenses desde o ano em que chegou ao território, em 1971

Díli, 03 jul 2026 (Ecclesia) – Faleceu hoje em Díli o padre João Felgueiras, aos 105 anos, informou a comunidade dos jesuítas na capital timorense.
Missionário em Timor-Leste desde 1971, o padre João Felgueiras é natural das Caldas das Taipas, no concelho de Guimarães, e entrou na Companhia de Jesus em 1954.
Após os estudos de Filosofia em Braga e Teologia em Burgos, em Espanha, foi ordenado sacerdote a 30 de julho de 1950, em Oña, em Espanha.
Nos primeiros anos de sacerdotes, o padre João Felgueiras trabalhou em Braga, com a juventude, e em Lisboa, onde foi professor e diretor espiritual dos alunos no Colégio S. João de Brito; entre 1962 e 1967, foi reitor do Colégio Apostólico da Imaculada Conceição, em Cernache.
No dia 22 de janeiro de 1971 partiu para Timor-Leste, onde dedicou o seu trabalho missionário à promoção da língua portuguesa entre os timorenses e ao apoio da população durante a ocupação indonésia, acompanhando de perto as vítimas do massacre de Santa Cruz, a 12 de novembro de 1991.

O missionário jesuíta foi condecorado em 2002 pelo presidente da República Jorge Sampaio como Grande Oficial da Ordem da Liberdade; em 2016 chefe de Estado timorense Taur Matan Ruak com a insígnia da Ordem de Timor-Leste; e em 2022 por Marcelo Rebelo de Sousa com a Grã-Cruz da Ordem de Camões.
Em setembro de 2024, por ocasião da visita a Díli, o Papa Francisco saudou o padre João Felgueiras durante o habitual encontro com os membros da Companhia de Jesus, que fazia parte do programa das viagens apostólicas internacionais.
Em comunicado enviado à Agência ECCLESIA, a Província Portuguesa da Companhia de Jesus “agradece a vida e a entrega do P. João Felgueiras, que sempre manifestou um espírito de grande amor e união à sua Província de origem”.
“Em grandes missionários como o P. João Felgueiras, os jesuítas portugueses encontram o exemplo e a inspiração de uma vida dedicada a Deus, profundamente espiritual e próxima do povo a quem foi enviado e serviu ao longo de tantas décadas”, acrescenta.
A Província Portuguesa da Companhia de Jesus expressa a sua gratidão pelo exemplo e inspiração do padre João Felgueiras e “manifesta ainda a sua proximidade e oração à comunidade jesuíta de Timor-Leste, aos companheiros jesuítas, aos religiosos, religiosas e leigos que apoiaram a acompanharam com tanta dedicação” o sacerdote que hoje faleceu.
| O Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal manifestou o seu “profundo pesar” pelo falecimento do padre João Felgueiras, que “dedicou mais de meio século à missão em Timor-Leste, sempre ao lado do povo timorense, inclusive nos momentos mais difíceis de 1975.
“A sua vida, marcada pela generosidade, entrega e fé foi reconhecida por condecorações do Estado português e timorense. À sua memória, o nosso respeito e gratidão”, afirma o ministério de Paulo Rangel numa publicação nas redes sociais. José Ramos-Horta afirmou que o padre João Felgueiras foi uma “presença constante e silenciosa na vida de várias gerações de timorenses” e uma “figura excecional” da história de Timor-Leste. “A República Democrática de Timor-Leste despede-se hoje de uma figura excecional da nossa história contemporânea, cuja vida foi integralmente dedicada ao serviço do próximo, à educação, à dignidade humana e à construção da nossa identidade nacional”, afirmou o presidente da República de Timor-Leste numa mensagem de condolências.
José Ramos-Horta destacou o “educador incansável”, que “dedicou a sua vida à formação de jovens, à promoção da língua portuguesa e à criação de espaços de ensino e de dignidade humana, entre os quais se destaca a Escola Amigos de Jesus, projeto que simboliza o seu compromisso permanente com a educação como instrumento de liberdade e transformação social”. “Para mim, pessoalmente, o Padre João Felgueiras foi sempre mais do que um Missionário ou Educador. Foi um Amigo de longa data, um Conselheiro sereno e uma presença inspiradora”, afirmou. O presidente da República Democrática de Timor-Leste disse que o padre João Felgueiras é um “Profeta da Educação e da Solidariedade”, que “nunca abandonou” o país nem “deixou de acreditar” no futuro dos timorenses, acrescentando que “o seu legado permanece vivo”.
Taur Matan Ruak, antigo presidente da República e primeiro-ministro de Timor-Leste referiu, por sua vez que o país e o mundo “despedem-se de uma das personalidades mais inspiradoras” da atualidade. “O Padre João Felgueiras fez de Timor-Leste a pátria do seu coração e consagrou toda uma vida ao serviço do povo timorense, transformando a sua missão num extraordinário testemunho de fé, solidariedade, coragem e amor ao próximo”, afirmou. Para o major-general, “o Padre Felgueiras não foi apenas um Missionário Jesuíta”, mas também “um verdadeiro Amigo de Timor-Leste, um educador de exceção, um protetor dos mais vulneráveis e um guardião incansável da língua portuguesa, da cultura e da identidade” dos povo timorense.
Visita regular e em família do padre João Felgueiras, Taur Matan Ruak recorda encontros “inesquecíveis de um homem de extraordinária simplicidade, serenidade e sabedoria, cuja presença transmitia paz, confiança e esperança”. “Sempre lhe dedicámos um carinho muito especial e uma profunda admiração pela sua humildade, pela sua dedicação incansável e pelo exemplo de vida que ofereceu a todos nós”, acrescentou. “Timor-Leste chora hoje a partida de um dos seus Grandes Mestres e de um verdadeiro Bom Pastor, mas sente também uma profunda gratidão por ter sido a terra que ele escolheu para viver, servir e, agora, repousar para sempre”, acrescentou o presidente da República Democrática de Timor-Leste entre 2012 e 2017 e primeiro-ministro do VIII Governo Constitucional (2018–2023). |
PR
(Notícia atualizada às 18h38)
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