Quanto mais fundo, mais alto

José Luís Nunes Martins

Foto de Radek Kozák na Unsplash

As dores engrandecem-nos e enobrecem-nos. Podem fazer de qualquer um de nós um herói ou um fugitivo. Uma simples mudança brusca na vida pode criar uma revolução interior. Aquilo que se alterou no exterior obriga-nos a transformar o interior, e isso dói sempre — mesmo quando é para melhor.

A dor revela-nos até a nós próprios, porque onde nos dói a dor é também onde reside aquilo que nos salva – que só desperta quando levamos ao limite as nossas forças – aquelas que julgávamos ser todas quanto tínhamos, mas que… afinal tínhamos mais. E bem fortes.

O sofrimento é, apesar de tudo, uma fonte de significado, autenticidade e sabedoria. A vida é uma enorme sequência de decadência e de crescimento, de decomposição e de renascimento, de podridão e de regeneração, de perdas e de ganhos. Só o amor permanece e resiste a tudo. Se o amor não subsiste ou se perde, será outra coisa que até se pode confundir com amor na superfície, mas que, na verdade, não é.

Quem ama torna-se capaz de florescer no meio do sofrimento. As mais belas flores surgem nos contextos mais adversos, como se a dor se fizesse a sua raiz.

Cuidado, há muitos olhos que sorriem e que, assim, escondem grandes dores. Por vezes, essa é uma forma de acrescentar o sofrimento da solidão ao sofrimento já existente. Outras vezes, porém, o sorriso pode ser o princípio do triunfo. De facto, é difícil para a maioria de nós acreditar na dor de quem a partilha com um sorriso.

As grandes dores chegam a impor uma espécie de lei do silêncio. Nem lágrimas nem sorrisos. Mas é muitas vezes quem sofre que mais depressa e melhor socorre a dor dos outros.

As dores que na nossa vida se sucedem são como uma escadaria para o céu: edificam-nos, elevam-nos e divinizam-nos.

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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