LUSOFONIAS – México em tempo de Mundial

Tony Neves, em Roma

Começou, também no México, o Mundial de Futebol. Visitei o país quando o aeroporto da capital estava virado do avesso, com obras para acolher as multidões de pessoas atraídas por este evento. Mas lamento não falar de bola, apenas de Missão e fujo para bem longe dos holofotes dos estádios.

‘Quando um Vallense chega ao inferno, a primeira coisa que faz é pedir ao diabo um cobertor’! – dizia-me com humor fino, sem sorrir, um líder indígena em Tanlajás, a povoação das montanhas da Huasteca Potosina que acolheu os primeiros espiritanos no México em 1971. De facto, as temperaturas podem ultrapassar largamente os 50 graus naquela região que pertence à diocese de Ciudad Valles, no Estado de San Luis de Potosi.

Cheguei a este ‘forno’ ido de Tampico. A estrada foi-me mostrando as grandes ganadarias com vacas e bois de que não se consegue saber a quantidade. Quando não há gado, há extensões de plantação de cana de açúcar, a perderem-se na linha do horizonte. De tempos a tempos lá aparece uma área povoada por árvores de ‘palo rosa’, a encher de cor o caminho, como acontece com os jacarandás em Potosi ou em Lisboa!

Antes de me instalar nesta ‘paróquia-missão’, passei por El Pujal (a 150 kms de Tampico), onde o P. Slawomir, polaco, me ofereceu um reconfortante ( e bem picante) almoço. A etapa seguinte foi San Antonio, onde encontrei o P. Christian Choquereau, um espiritano francês, que chegou ao México há uns 40 anos! Aqui estagiou o Irmão Manuel do Carmo e esteve em primeira missão o P. Tiago Barbosa. Depois de mais uns kms em estrada recentemente arranjada, sempre ladeado de paisagem tropical, fui recebido pelos Padres Kazimierz (polaco) e Benjamim (da Serra Leoa) e assim começamos a visita. Representantes dos líderes laicais desta paróquia-missão vieram encontrar-me para um tempo de partilha e de jantar. Tive a oportunidade de visitar o Centro de Formação Humana e Espiritual (fundado e orientado pelos Espiritanos) e fazer uma ‘caminhada’ matinal pelas ruas desta povoação plantada em plena serra, saudando as pessoas que confessam apreciar a presença dos missionários, nesta que é a ‘casa-mãe’ dos Espiritanos no México, uma vez que é a terra da nossa fundação.

Coube ao P. Kazimierz levar-me a Coxcatlan, outra povoação nesta Huasteca Potosina onde os Espiritanos vivem e trabalham. Pelo caminho, assustei-me com o grasnar dos chachalacas, uma espécie de patos bravos que fazem um barulho infernal. Ali seríamos recebidos com foguetes, tapetes e colares de flores. Uma multidão nos acolheu à porta da Igreja que está prestes a celebrar 500 anos, pois foi construída em 1532! Fui entregue e confiado aos Padres Victor (mexicano) e Michel (do Congo Brazzaville), párocos. Depois das saudações efusivas, pudemos usufruir da frescura da Igreja onde teve lugar uma Eucaristia cantada ao ritmo da cultura local. Seguiu-se uma almoço de confraternização onde não faltaram as lideranças laicais das muitas comunidades espalhadas pelas montanhas, bem como as autoridades locais. Mas o dia ainda reservava mais duas Eucaristias celebradas em comunidades cravadas naqueles belos montes, onde as cores das árvores e das buganvílias enchiam de beleza os olhos.

As numerosas crianças das Capelas de S. André de Lapani e Bernal também tinham reservados colares de flores e muitos sorrisos. No fim das missas, saboreamos os apetitosos petiscos que o povo trouxe para a confraternização. Nestas áreas vivem os povos nahuatl e tenec que tentam preservar as suas culturas ancestrais. É bom saber – lembrava-me com orgulho um catequista – que ‘chocolate, amendoim, cacau e abacate são palavras de origem nahuatl!’.

Impunha-se o regresso a Tampico para a Ordenação do P. Josué Martinez, que teria lugar na Paróquia de S. David Roldan, confiada aos Espiritanos nesta cidade portuária no Golfo do México. A cerimónia encheu a Igreja, sob a presidência de D. Roberto Garcia, Bispo de Ciudad Valles. No fim da Missa, todo o povo saiu à rua onde se serviu um almoço para todos, animado com ritmos tradicionais, garantindo festa até às tantas.

O regresso à Europa, de coração cheio e agradecido, fez-me pensar e faz-me rezar por um povo, uma Igreja e uma Família Religiosa que vivem num contexto marcado por desigualdades e problemas sociais gritantes cuja solução estará ainda longe de se encontrar. Mas devo confessar que fui acolhido de braços e coração abertos. Lá senti que a Missão acontece ao ritmo do Espírito. Por isso, desejo a quantos me ouvem ou leem, um bom Mundial de Futebol em que se tome a sério o que o Papa Leão disse em Barcelona: ‘o futebol é um jogo de equipa. Quem nunca passa a bola vai perder!’.

Tony Neves, em Roma

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

 

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