Canárias: Papa defende vias seguras para migrantes e ataca «indústrias da morte»

Leão XIV condena «máfias» do tráfico humano e «indiferença» de quem o permite

Foto: Vatican Media

Arguineguín, Espanha, 11 jun 2026 (Ecclesia) – O Papa Leão exigiu hoje a criação de vias legais e seguras para as migrações, advertindo a Europa contra a transformação do oceano num cemitério.

“Este drama deve tornar-se um exame de consciência: para as nações de origem, que devem criar condições de paz, justiça e desenvolvimento; para as nações de trânsito, chamadas a proteger e a não deixar os mais fracos nas mãos de redes criminosas”, denunciou Leão XIV, no porto de Arguineguín, primeira paragem da sua visita ao arquipélago das Canárias.

“A Europa não pode proclamar a dignidade humana e habituar-se a que o Mediterrâneo e o Atlântico sejam cemitérios sem lápides; a comunidade internacional é chamada a uma cooperação eficaz e perseverante”, acrescentou, motivando um aplauso dos presentes.

O Papa chegou esta manhã à ilha da Gran Canária, terceira etapa da sua viagem apostólica a Espanha, que já passou por Madrid e Barcelona, desde 6 de junho.

“Não podemos habituar-nos a contar mortos. A dignidade humana não tem passaporte nem perde valor ao atravessar uma fronteira”, apontou.

O encontro começou com testemunhos de migrantes e de quem os assiste, que relataram as dificuldades encontradas por quem tentar chegar à Europa.

“Também hoje existem monstros que espreitam estes mares: máfias que traficam com o desespero, traficantes que escravizam mulheres e crianças e a indiferença de muitos que permitem que os pobres sejam engolidos pela exploração ou pelo esquecimento”, declarou.

O Papa condenou o lucro obtido através do desespero humano, falando em “indústrias da morte”.

“Não acreditem naqueles que prometem paraísos fáceis em troca do vosso corpo, do vosso dinheiro, do vosso silêncio ou da vossa liberdade”, acrescentou, dirigindo-se diretamente aos migrantes.

O pontífice exigiu uma responsabilização das instâncias internacionais, preconizando que “cada barco que chega não traz apenas migrantes”.

“Que mundo construímos, se tantos irmãos têm de arriscar a morte para procurar a vida?”, apontou.

Leão XIV sustentou que a dignidade humana “exige vias legais e seguras, resgate e assistência, cooperação real contra os traficantes, proteção efetiva às vítimas, processos sérios de acolhimento e integração, e políticas que permitam a cada pessoa viver com dignidade na sua própria terra”.

A Igreja não pode ignorar estas águas nem qualquer lugar onde a fome, a sede, a violência, o medo ou o exílio continuem a ferir a dignidade humana. Os discípulos de Jesus não podem considerar alheio o clamor daqueles que gritam na escuridão da noite.”

O Papa falou do “direito de não ter de migrar”, convidando as comunidades católicas a assumir uma atitude proativa e permanente no acolhimento dos migrantes, que “não pode ser algo secundário nem delegado apenas a alguns voluntários”.

“Que a história não tenha de nos acusar de ter transformado a dor dos que sofrem numa paisagem habitual das nossas costas”, concluiu.

Este encontro com as entidades de acolhimento marcou o arranque da visita, a primeira de um Papa ao arquipélago das Canárias.

“Não basta gerir as chegadas, distribuir números, reforçar as fronteiras ou lamentar as mortes quando estas já ocorreram”, advertiu o pontífice.

Foto: Vatican Media

Leão XIV homenageou as vítimas das rotas atlânticas com uma coroa de flores, guardando um minuto de silêncio, e abençoou uma cruz de madeira fabricada a partir dos restos de um barco naufragado.

O Papa conclui a sua viagem de sete dias à Espanha esta sexta-feira, na ilha de Tenerife, onde visita um centro de acolhimento especializado e preside a uma Eucaristia no porto de Santa Cruz.

OC

 

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