Dia Mundial do Ambiente: «A promoção da paz é claramente um ato ecológico», afirma Juan Ambrosio

Teólogo defende mudança da conceção de estilos de vida e lamenta que governantes de nações influentes neguem alterações climáticas

Lisboa, 05 jun 2026 (Ecclesia) – Juan Ambrosio, da Rede ‘Cuidar da Casa Comum’ (RCCC), associou hoje o cuidado da natureza à paz, falando na degradação ambiental que os conflitos provocam, a propósito do Dia Mundial do Ambiente que hoje se assinala.

“A promoção da paz é claramente um ato ecológico, de promoção e de cuidado do ambiente, do cuidado do clima, do cuidado da casa comum, que é mais do que simplesmente o ambiente”, afirmou o teólogo, em declarações ao Programa ECCLESIA, transmitido hoje, pelas 15h (RTP2).

O Papa tem alertado para a destruição da natureza provocada pelas guerras, tendo escolhido como título da mensagem para o Dia Mundial de Oração e Cuidado da Criação, a 1 de setembro, a frase “Transformarão as suas espadas em relhas de arados e as suas lanças em foices”, que destaca a relação entre os conflitos armados e a degradação do Meio Ambiente.

O docente da Universidade Católica Portuguesa (UCP) destaca a posição que Leão XIV tem adotado, “sem rodeios”, perante o cenário internacional marcado por violência e divisões.

“Dizendo claramente, isto não serve, isto é mau, não há guerras justas, não há guerras santas”, lembrou.

O texto de apresentação do Dia Mundial do Ambiente, instituído pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1972, assinala que o “planeta não discute”, “não negocia”, “ele envia sinais — elevação do nível do mar, incêndios florestais intensos, ondas de calor, geleiras derretendo”.

Para Juan Ambrosio, tudo o que está a acontecer revela o descontrolo, a não mudança de estilos de vida e o pouco cuidado dos humanos com a natureza.

“De facto, os ecossistemas ressentem-se, procuram equilíbrios, à custa de cada vez maiores tensões. E essa procura de equilíbrios, em coisas que nós vamos desequilibrando, vai provocar desequilíbrios na nossa vida e nos nossos modos de viver”, referiu.

O professor da Faculdade de Teologia da UCP alerta que sociedade não está a querer perceber os sinais evidentes dos desajustes e das “reações extremas” no meio ambiente, nomeadamente o “muito frio, muito calor, muita água, muita seca”, tudo em “polos extremos”.

“Os ecossistemas estão, de facto, desequilibrados” e “precisam, como é o tema deste Dia Mundial do Ambiente, da restauração e sustentabilidade”, realçou.

Apesar de a mudança de comportamentos ser “urgente”, Juan Ambrosio indica que é necessário ir mais longe, isto é, mudar a maneira de conceber os estilos de vida.

“A maneira como habitamos o planeta, e não só o ocupamos, e como vivemos uns com os outros, vai, obrigatoriamente, ter que mudar, na procura do bem comum. Esse critério máximo”, defendeu.

Lembrando o Papa Francisco, que na encíclica Laudato Si’ escreveu que “tudo está interligado”, o teólogo frisou que “o que se passa num ecossistema, por mais situado e regional que ele seja, acaba por ter impactos a nível global”.

Juan Ambrosio abordou ainda a assunção de políticas internacionais que permitam a salvaguarda do planeta, que considera que não deveriam estar longe da mudança de atitudes.

Muitos dos que governam hoje, grandes nações, nações que são muito influentes, pela sua força, não pelo seu testemunho, mas pela sua força económica, militar, são governados por pessoas que, a nível das alterações climáticas, por exemplo, são negacionistas”, apontou.

“Acham que está tudo bem, nada de diferente, já aconteceu isto noutros tempos. Portanto, se eles não são capazes de ver isso, então que a sensibilidade dos povos, das nações, os obrigue a ver isto”, acrescentou o professor universitário.

Em entrevista, o professor da Faculdade de Teologia da UCP recordou que cada um é responsável por aquilo que depende de si, com a consciência de que tudo está interligado.

“Temos que, em conjunto, colaborando uns com os outros, e, em corresponsabilidade, dar os passos necessários. E isso implica, de facto, mudanças de estilo de vida. Se calhar o downsizing [diminuição do tamanho] que se falava nas empresas vai ser preciso também consumirmos menos, termos menos, os recursos da terra são limitados”, disse.

Juan Ambrosio advertiu que “se alguns têm cada vez mais, isso só pode ser à custa de que alguns tenham cada vez menos”, uma vez que “os recursos são limitados”.

“Eu não estou aqui a fazer a apologia de lutar contra o consumo, não é isso que se está aqui a dizer, é outro estilo de vida que não tenha que estar constantemente a substituir coisas, se elas ainda estão perfeitamente usáveis, perfeitamente utilizáveis. Essa mudança é necessária, de facto”, referiu.

PR/LJ

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