Prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, do Vaticano, alerta para a necessidade de «tomar consciência do que está a acontecer» para que a revolução curso «não se torne uma involução»

Santarém, 01 jun 2026 (Ecclesia) – O cardeal D. José Tolentino Mendonça afirmou que “esperança” e “responsabilidade” são palavras que emergem da encíclica de Leão XIV ‘Magnifica Humanitas’ e alertou para uma grande revolução que “não pode substituir o humano”.
“Esta transformação do mundo não é indolor. E nós não podemos esquecer que a máquina não pode substituir o humano: os computadores não choram, não rezam, não se sentem frágeis, não envelhecem, não adoecem, não hesitam, não se encontram, não amam, não riem. Tudo que é especificamente humano temos de protegê-lo como um património, que deve ser o tesouro das nossas sociedades”, afirmou o prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação em declarações à Agência ECCLESIA.
“A revolução é tão grande que nós precisamos tomar consciência do que está a acontecer, sermos sociedades mais informadas, e que o ser humano possa ter uma palavra a dizer, que o humano seja um factor decisivo no pensamento desta evolução que estamos a viver, para que ela não se torne uma involução, para que não se torne uma regressão a uma época de grande sofrimento e de grande escravidão social”.
Para D. José Tolentino Mendonça, que este domingo presidiu à celebração dos 50 anos das Equipas de Jovens de Nossa Senhora, em Santarém, a primeira encíclica do Papa “é um apelo muito grande a uma tomada de consciência” do que está a acontecer, alertando para a necessidade das sociedades democráticas se informarem melhor “do que se está a passar”, uma vez que as consequências são enormes e irremediáveis”.
D. José Tolentino Mendonça observa que não se podem “deixar de lado” valores como a Declaração dos Direitos Humanos ou “a visão da dignidade universal de todos os seres humanos”, que constituíram um “passo extraordinário” na consciência da dignidade do trabalho humano e também da afirmação, nas grandes constituições dos Estados, “também na Constituição Portuguesa”, da centralidade da pessoa humana”.
“Os valores que são pilares da nossa sociedade têm de continuar, no sentido de que a tecnologia, a inteligência artificial, têm um papel fundamental, vão servir a economia, o desenvolvimento, mas têm de ser segundo uma visão onde a humanidade conta. E é, no fundo, este o apelo permanente nas diversas áreas que o Santo Padre faz, explicando que nós precisamos de uma educação”, sublinhou.
O prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, organismo da Santa Sé, aponta também a “um momento de discernimento”, que as sociedades tenham a liberdade para dizer por onde escolhem seguir, e que não seja só porque “é possível a investigação científica ou tecnológica fazer um determinado caminho, ou aplicação”, que tem necessariamente a acontecer, porque esse “é um fatalismo que se volta contra o humano”.
‘Magnifica Humanitas’ (a magnífica humanidade), a primeira encíclica do pontificado, foi apresentada por Leão XIV há uma semana, no dia 25 de maio, no Vaticano, o Papa escreve sobre ‘A salvaguarda da pessoa humana na era da Inteligência Artificial’.
“Primeiro é um título maravilhoso, magnífica humanidade. O olhar da Igreja, e que é o olhar do Santo Padre, do Papa Leão XIV, à humanidade é um olhar esperançado, é um olhar paterno, é um olhar de quem vê as imensas possibilidades que o ser humano guarda no seu coração. Por isso, a primeira palavra desta encíclica é uma palavra de esperança”, disse D. José Tolentino Mendonça, que lembrou “um mundo em transformação”, com todos os dilemas atuais como a guerra, o “sofrimento”, os imigrantes, e a “situação precária de tantos jovens”.
“A outra é uma palavra de responsabilidade, porque esta hora de revolução digital é uma hora com tantas implicações, a nível social, a nível antropológico, a nível de todas as instituições, sejam os governos, sejam as instituições, por exemplo, do campo da educação, do campo da cultura, da economia, do mundo do trabalho”, acrescentou o cardeal português, colaborador do Papa.
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