CIBERHUMANITAS – O Tempo-Gerado

Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

A história da refeição de Jesus em Betânia, visitando Lázaro e suas irmãs, parece ser uma chamada de atenção do contraste entre acção e contemplação, mas na opinião do jesuíta James Martin SJ, em “Vem para fora!”, é que a resposta de Jesus ao comentário de Marta tem mais a ver com o tempo certo, o Kairos, que chamo de tempo-gerado. Que relação existe entre o tempo-gerado (Kairos) e a dualidade acção-contemplação?

Como em Eclesiastes capítulo 3 (1-8) que vale a pena reler na íntegra e meditar:

Para tudo há um momento e um tempo para cada coisa que se deseja debaixo do céu:
tempo para nascer e tempo para morrer,
tempo para plantar e tempo para arrancar o que se plantou,
tempo para matar e tempo para curar,
tempo para destruir e tempo para edificar,
tempo para chorar e tempo para rir,
tempo para se lamentar e tempo para dançar,
tempo para atirar pedras e tempo para as juntar,
tempo para abraçar e tempo para evitar o abraço,
tempo para procurar e tempo para perder,
tempo para guardar e tempo para atirar fora,
tempo para rasgar e tempo para coser,
tempo para calar e tempo para falar,
tempo para amar e tempo para odiar,
tempo para guerra e tempo para paz.

A isto poderia acrescentar: tempo para fazer, tempo para escutar.

O tempo certo de cada coisa é diferente do tempo sequencial (Cronos) de cada evento.

No Kairos são os eventos que nos mudam.
No Cronos são as mudanças que nos fazem conscientes dos eventos.
No Kairos deixamos que o tempo passe por nós.
No Cronos somos nós que corremos atrás do tempo.
O Kairos é mais sensível às mudanças interiores suscitadas pela contemplação.
O Cronos é mais sensível às mudanças exteriores que podem ser fruto da nossa acção.

A contemplação não é o contrário da acção. É aquilo que impede a acção de se tornar mera agitação. E a acção não é o contrário da contemplação. É aquilo que impede a contemplação de se fechar sobre si mesma como uma intimidade estéril.

Marta e Maria, por isso, talvez não representem dois estilos de vida incompatíveis. Representam antes duas dimensões de uma única experiência do tempo. Há um tempo em que amar pede mãos ocupadas. E há um tempo em que amar pede presença inteira. O problema não está em agir ou contemplar, mas em não reconhecer qual das duas facetas da experiência do tempo pede de nós um algo-mais.

Chamo tempo-gerado ao tempo que não se mede primeiro pelo relógio, mas pela transformação que o encontro produz em nós. Há momentos que duram minutos e permanecem anos dentro de nós. E há horas inteiras que passam sem deixar rasto. O Kairos não nega o Cronos. Mas revela que nem toda a experiência do tempo pesa da mesma maneira na nossa existência.

Quando Jesus responde a Marta, talvez não esteja a desvalorizar o serviço. Seria estranho que o fizesse. O que parece acontecer é mais exigente: Jesus revela que nem toda a urgência coincide com o essencial. Há tarefas necessárias que, num certo momento, podem tornar-se ruído se nos impedem de acolher aquilo que só naquele instante pode ser recebido. Maria não escolhe a passividade. Escolhe a unicidade do momento.

Há um tempo para responder a emails e um tempo para escutar uma pessoa até ao fim. Há um tempo para organizar, planear, produzir e resolver. Mas também há um tempo em que insistir em fazer, impede-nos de receber. Quem vive apenas para o Cronos, mede o dia pelo número de coisas concluídas. Quem aprende a viver também em Kairos, começa a medir o dia pela verdade com que esteve presente.

Muitas vezes julgamos estar a agir bem só porque estamos ocupados. Mas a ocupação pode ser uma fuga subtil àquilo que a contemplação nos mostraria. Fazer muito pode evitar sentir. Resolver tudo pode impedir escutar o que em nós precisa de ser curado. Nesse sentido, a contemplação não suspende a vida, mas devolve-lhe profundidade.

Por outro lado, uma contemplação que nunca se converte em gesto, cuidado, serviço ou decisão, também se desfigura. Torna-se uma espiritualidade sem carne. O tempo-gerado não nos afasta do mundo. Ensina-nos antes a regressar a ele com um centro mais unificado. A contemplação torna a acção mais limpa e a acção torna a contemplação mais verdadeira.

Talvez seja isso que tantas vezes nos falta: não mais tempo, mas outra relação com a experiência do tempo. Não tanto acumular minutos, mas reconhecer momentos. Não tanto controlar o dia, mas discernir o apelo escondido em cada encontro, em cada interrupção, em cada presença. Porque há instantes em que parar é a forma mais alta de agir.


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(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina, e vinculam apenas os seus autores.)

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