«Multipliquemos os oásis de paz, denunciemos e eliminemos as causas do desespero, combatamos quem lucra com a desgraça alheia» – Leão XIV

Argel, 13 abr 2026 (Ecclesia) – O Papa denunciou hoje o tráfico de seres humanos e os novos colonialismos no continente africano, pedindo que o Mediterrâneo e o Saara sejam espaços de futuro, em vez de “cemitérios”.
“Há milénios, o mar e o deserto são locais de enriquecimento mútuo entre os povos e as culturas. Ai de nós, se os transformarmos em cemitérios onde morre a esperança! Libertemos do mal estas imensas bacias de história e futuro”, disse Leão XIV, num encontro com as autoridades políticas, a sociedade civil e o corpo diplomático que decorreu no Centro de Congressos Djamaa el Djazair, na capital argelina.
“Multipliquemos os oásis de paz, denunciemos e eliminemos as causas do desespero, combatamos quem lucra com a desgraça alheia! São ganhos ilícitos os daqueles que especulam com a vida humana, cuja dignidade é inviolável”, acrescentou, numa intervenção em inglês.
O pontífice foi recebido pelo presidente Abdelmadjid Tebboune, após ter começado a sua viagem com uma homenagem aos que lutaram pela independência da Argélia, e denunciou as lógicas neocolonialistas.
“Não é multiplicando incompreensões e conflitos, mas respeitando a dignidade de cada um e deixando-vos tocar pela dor alheia, que podereis tornar-vos verdadeiros protagonistas de um novo curso da história – hoje mais urgente do que nunca – face às tentativas neocoloniais e às contínuas violações do direito internacional”, assinalou.
Leão XIV, primeiro Papa a visitar o país africano, assinalou a hospitalidade das comunidades árabes e berberes, refletindo sobre a dimensão estrutural da esmola e da partilha de bens, comum a cristãos e muçulmanos.
“O injusto é aquele que acumula riquezas e permanece indiferente aos outros. Esta visão da justiça é simples e radical: reconhece no outro a imagem de Deus. Uma religião sem compaixão e uma vida social sem solidariedade são um escândalo aos olhos de Deus”, apontou o pontífice.
O discurso alertou para a escalada de assimetrias económicas e sociais em nações desenvolvidas, reprovando o impacto sistémico da exclusão.
Muitas sociedades que se consideram avançadas precipitam-se cada vez mais na desigualdade e na exclusão. As pessoas e as organizações que dominam os outros – isto a África sabe-o bem – destroem o mundo que o Altíssimo criou para que vivêssemos juntos.”
Leão XIV, que recordou as suas anteriores passagens por território argelino enquanto religioso agostiniano, abordou os extremismos da atualidade e as ameaças à liberdade de consciência.
“Aqui, tal como no resto do mundo, tendem a manifestar-se dinâmicas opostas, de fundamentalismo ou secularização, pelas quais muitos perdem o sentido autêntico de Deus e da dignidade de todas as suas criaturas”, advertiu.
Os símbolos e as palavras religiosas podem tornar-se, por um lado, linguagens blasfemas de violência e opressão e, por outro, sinais já sem significado, no grande mercado de bens de consumo que não saciam. Estas absurdas polarizações, todavia, não devem assustar-nos.”
Numa intervenção saudada com várias salvas de palmas, o pontífice norte-americano apelou à promoção de uma sociedade civil dinâmica e desafiou a classe dirigente a orientar a sua atuação governativa para o “bem comum”, falando perante cerca de 1400 pessoas.
O primeiro dia da viagem apostólica à Argélia prossegue esta tarde, com a visita à Grande Mesquita de Argel.
OC
África: Leão XIV chega à Argélia para iniciar maior viagem do pontificado
