Alocução de D. Armando Esteves na Celebração da Paixão do Senhor

Nestes três dias que nos conduzem à Páscoa da Ressurreição, somos quase obrigados a fixar o olhar e o coração na hora central da vida de Jesus, que é também a hora central da história da humanidade inteira, a hora central da nossa história. É a hora em que, sofrendo livremente na cruz uma morte cruel, Jesus nos diz duas coisas: em primeiro lugar, diz-nos quem é Deus, o Pai, disposto a seguir o filho até ali, até ao alto da cruz, para demonstrar que Ele é todo e só amor e perdão; em segundo lugar, diz que o segredo da justiça, da paz e da fraternidade é dar a vida. É o critério ético maior daqueles a quem se confia a autoridade e o poder nas decisões que têm a ver com todos. É também a mais radical e definitiva negação de qualquer forma de instrumentalização do nome de Deus para justificar a guerra, a violência, a imposição. Quão atual é, também hoje, esta lição de Jesus.
“Não existe Deus da guerra” e qualquer violência em nome Dele é um “ultraje contra Deus”, é uma “traição blasfema” a Deus, dizia o Papa Francisco. «Ele, Deus, deu-nos o exemplo não de como se domina, mas de como se liberta; de como se dá a vida, não de como se destrói.» (Papa Leão).
Na cruz, Jesus lembra o salmo 21 que fala do justo perseguido e fez dele a oração da humanidade sofredora ao Pai: “porque me abandonastes?”. Não é um grito de revolta, mas um grito de quem leva até ao fundo a noite do abandono humano sem romper a comunhão com o Pai. Na cruz, Cristo entra na solidão dos inocentes e transforma o desespero em oração. Por isso, quando ouvimos esse clamor, não devemos ler nele uma derrota de Deus, mas a descida de Deus ao lugar onde o homem já não sabe explicar nada.
A cruz de Jesus não nos autoriza a colocar Deus no banco dos réus e a perguntar diante do sofrimento: “Onde está Deus?”. Ela convida-nos antes a perguntar: onde estamos nós diante do sofrimento, nosso e dos inocentes, e o que fazemos para não acrescentar mais sofrimento e mais morte à morte?
«Jesus purifica não só a nossa imagem de Deus das idolatrias e blasfémias que a mancharam, mas purifica também a nossa imagem do homem, que se considera poderoso quando domina, que quer vencer matando quem é seu igual, que se considera grande quando é temido.» (Papa Leão)
Que é a verdade? Perguntará Pilatos para quem a verdade é o poder, o que o mais forte disser.
Muitos o imitam. A resposta de Jesus é: “a origem do meu reino não é deste mundo. Vem de Deus que é amor.
Rezemos pela paz e por quem decide. Façamo-lo unidos ao clamor dos povos feridos, dos jovens enviados para matar e morrer, das mães e pais que enterram filhos, das crianças mortas e feridas. Mas façamo-lo com a esperança que vem da luz pascal que espreita por detrás das chagas. Mesmo entre ruínas e lágrimas, há sinais de Ressurreição: gestos de proteção, corredores humanitários, voluntários, padres, médicos, famílias que acolhem, comunidades que partilham, pessoas que arriscam a paz, homens e mulheres que escolhem salvar em vez de destruir. A Páscoa não apaga o grito de Sexta-Feira Santa, responde-lhe com vida nova.
A Sexta-Feira Santa termina na esperança do Pai que não abandona o Filho nem nenhum outro filho.
No ano Jubilar Franciscano, pelos 800 anos da morte de S. Francisco, termino com uma sua oração:
Senhor, Fazei de mim um instrumento de vossa Paz.
Onde houver Ódio, que eu leve o Amor,
Onde houver Ofensa, que eu leve o Perdão.
Onde houver Discórdia, que eu leve a União.
Onde houver Dúvida, que eu leve a Fé.
Onde houver Erro, que eu leve a Verdade.
Onde houver Desespero, que eu leve a Esperança.
Onde houver Tristeza, que eu leve a Alegria.
Onde houver Trevas, que eu leve a Luz!
Peçamos ao Senhor o milagre da paz. Peçamos que nos dê homens e mulheres com estes horizontes de Páscoa, homens e mulheres de paz, à semelhança do Crucificado que agora vamos adorar. Unidos aos muitos irmãos vergados e de joelhos devido à brutalidade de outros, ajoelhemo-nos também nós.
Sé de angra, 03 de abril de 2026
