Homilia do bispo de Vila Real na Missa Crismal

Foto: Diocese de Vila Real

Na manhã de quinta-feira santa estamos reunidos nesta catedral para a Missa Crismal, celebração que se reveste de especial significado para todo o clero. Como Jesus voltou à sinagoga de Nazaré, lugar onde se tinha criado, também nós voltamos a este lugar onde se gerou a nossa vida sacerdotal. Para o Senhor, foi ocasião para ler as profecias e proclamar que se cumpriam na sua pessoa. Para nós é momento para avaliarmos o cumprimento das palavras então ditas e de renovarmos as promessas sacerdotais

Aqui reunidos como presbitério, juntamente com os leigos que rezam connosco e por nós, tomámos consciência de que o Espírito que nos consagrou no dia ordenação, nos acompanha e fortalece na fidelidade à missão. Neste dia agradecemos a Deus esse e tantos outros dons concedidos. Neste dia o Bispo quer também manifestar o seu reconhecimento pelo trabalho e dedicação dos sacerdotes em favor do Povo de Deus desta diocese. Com trabalho empenhativo ao serviço das comunidades, muitas vezes em contextos difíceis, são incansáveis em entrega e disponibilidade.

A Carta Apostólica do Papa Leão XIV, por ocasião dos 60 anos dos importantes documentos conciliares Optatum Totius e Presbyterorum Ordinis tem como título sugestivo «Uma fidelidade que gera futuro». Na vida sacerdotal, é de facto a fidelidade no presente que abre a possibilidade de um futuro melhor. Este tempo desafia-nos, pois,  a uma presença fiel e a um compromisso alegre e disponível. Não pode ser um tempo de cedência ao desânimo ou de receio face às dificuldades.

Como ensinava o Papa Bento XVI, «o presbítero é servo de Cristo, no sentido que a sua existência, ontologicamente configurada com Cristo, adquire uma índole relacional: ele vive em Cristo, por Cristo e com Cristo ao serviço dos homens. Porque pertence a Cristo, o presbítero encontra-se radicalmente ao serviço dos homens, é ministro da sua salvação». A fidelidade sacerdotal encontra assim a sua raiz e a sua força na comunhão com Cristo, exprime-se e consolida-se numa autêntica fraternidade presbiteral.

Pelo sacramento da Ordem passamos a fazer parte de um presbitério, verdadeira comunidade de irmãos, família de discípulos de Cristo ungidos para uma missão comum. Ninguém se faz pastor sozinho, por iniciativa ou conta própria. Somos irmãos no ministério e partilhamos a mesma missão de servir esta Igreja. Importa, portanto, superar as tentações de individualismo e cuidar para que ninguém experimente a solidão. Para isso é essencial reforçar os laços de amizade e valorizar os espaços e modalidades que favorecem a comunhão presbiteral. Os desafios do presente e a renovação da Igreja requerem presbitérios unidos, com forte sentido de serviço.

Numa outra carta, dirigida ao clero de Madrid, o Papa Leão XIV refere a necessidade de refletir com serenidade e honestidade, à luz da fé, sobre o momento presente. Vivemos num contexto marcado por uma crescente polarização social e pelo avanço da secularização que enfraquece um certo substrato comum. Estes sinais, acrescidos pelo proliferar da guerra representam um enorme desafio para a missão da Igreja e o exercício do ministério presbiteral.

A par destes sinais preocupantes começam a despontar outros que são de esperança: a abertura à fé por parte da geração mais jovem, bem como a busca da fé e a redescoberta de Jesus Cristo e das Escrituras por parte de um número crescente de pessoas. É fundamental discernir estes sinais, reconhecendo que podem ser reação ao vazio e a solidão de uma sociedade da abundância que promete tudo mas, falha no essencial, ou então à cultura da hiperinformação e da tecnologia, incapaz de gerar felicidade. Acolher estes sinais e encontrar respostas adequadas é o grande e novo desafio.

Estes sinais valorizam a atualidade do sacerdócio e o seu papel na resposta a estes desafios. Não se trata de inventar novos modelos, de copiar a vida mundana ou replicar modelos do passado, mas de ser discípulo fiel do Senhor. Para o Papa Leão, o tipo de padres que a Igreja precisa neste momento «não é de homens definidos pela multiplicidade de tarefas ou pela pressão dos resultados mas homens configurados a Cristo, capazes de sustentar o seu ministério com base numa relação viva com Ele, nutrida pela Eucaristia e expressa numa caridade pastoral marcada pelo sincero dom de si mesmo».

Jesus Cristo é de facto a razão de ser do nosso ministério. Ele nos escolheu e nos chamou, nos encheu da sua graça e confiou o cuidado do Seu povo. Para viver o ministério de forma mais plena é necessário reforçar a intimidade com Ele, sem nunca perder de vista que Ele é o modelo de pastor, o amigo que está connosco em todas as horas. «É aquele que nos ama e pelo seu sangue nos libertou do pecado e fez de nós um reino de sacerdotes para Deus», como proclamava o Apocalipse.

Para o sacerdote e para todos os batizados, a celebração da Páscoa convida, antes de mais, a reafirmar a nossa fé. É momento especial para ver com olhos límpidos a originalidade e a força da fé. Tantas vezes a rotina pode gerar cansaço, a repetição suscitar distração, as contrariedades produzirem desgaste interior. Na Páscoa reencontramos o centro da nossa fé e a razão do nosso ministério. Junto do Senhor e no meio da comunidade dos seus discípulos fortalecemos a fé. Assim poderemos vencer a tentação da tristeza e o risco da incredulidade e sermos verdadeiros e alegres anunciadores da fé pascal, aquela que salva e liberta, aquela fé que o mundo busca e carece.

Neste ano que em a Igreja nos convida ao aprofundamento e à implementação do percurso sinodal, manifesto o meu apelo a que as assembleias sinodais que se irão realizar nos vários arciprestados e paróquias signifiquem experiências de graça e comunhão e representem marcos de uma verdadeira renovação pastoral. Passados mais de meio século do concílio é tempo de concretizar uma comunhão mais plena na vida da Igreja e uma participação mais efetiva dos leigos. O crescimento da sinodalidade deverá ter ainda como efeito a revitalização do ministério dos presbíteros, exercido cada vez mais numa lógica de colaboração, partilha e entreajuda. O espírito sinodal favorecerá a reorganização das nossas comunidades, aprofundará a colaboração entre elas e ajudará os sacerdotes a trabalharem de forma mais articulada.

Jesus saiu da sinagoga após clarificar o sentido da sua missão. Daí em diante passou por momentos de reconhecimento e de sucesso, bem como de incompreensões e oposições que o conduziram até à cruz. Da mesma forma, partiremos desta solene celebração mais conscientes da missão e preparados para as variadas circunstâncias da vida pastoral. Mas partiremos animados pela confiança que o Senhor deposita em cada um de nós, mais confortados na fé. Levaremos ainda para as várias comunidades, como é tradição, os santos óleos, com os quais vamos santificar os fiéis. De facto aqui fomos ungidos para ungir os irmãos; aqui fomos santificados para santificar os fiéis; aqui renovamos a fé e o compromisso sacerdotal para os testemunhar a todos os crentes.

Ao longo do tríduo pascal acompanhemos Jesus, tomemos parte na sua Páscoa. Sem dúvida um dos grandes enigmas da Páscoa que merece reflexão diz respeito aos discípulos. Homens simples e frágeis escolhidos por Jesus que nas horas difíceis abandonaram o Mestre e se dispersaram mas que viriam a tornar-se, por obra do Espírito, apóstolos inquebrantáveis da Boa Nova.

«O Espírito do Senhor está sobre Mim…», revelou Jesus em Nazaré. Esse foi o mesmo Espírito que animou os apóstolos e que nos impele, hoje a viver e a anunciar a Páscoa do Senhor.

A cada um de vós e às vossas comunidades votos de Santa Páscoa.

Vila Real, 2 de Abril de 2026
+António Augusto de Oliveira Azevedo

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