Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Dom José Francisco Sanches Alves, digníssimo Arcebispo Emérito de Évora; Reverendíssimos Senhores Cónegos, e demais Presbítero,s Caros Diáconos, Estimados Seminaristas, Meus irmãos e minhas irmãs
1. Saúdo-vos a todos com a alegria cristã de nos reunirmos em nome do Senhor, para celebrarmos a Missa Crismal, em Quinta-feira Santa. Bendito seja Deus por cada um de vós. Bendito seja Deus pelo Presbitério Eborense e por todos os que o acompanham no Amor Fraterno da oração e do serviço.
Convido-vos a todos a rezarmos pelos Irmãos Presbíteros que partiram para a casa do Pai desde a última Quinta-Feira Santa, e que estarão para sempre vinculados a este presbitério. Refiro-me aos saudosos:
- Padre António Marques dos Santos falecido a 30 de abril de 2025;
- Padre António José Nabais Fernandes falecido a 23 de maio de 2025;
- Cónego António Henrique Freitas Guimarães falecido a 31de julho de 2025;
- Cónego António Gata Lavajo Simões falecido a 15 de outubro de 2025.
É nosso dever trazer a nossa oração os sacerdotes mais idosos a residir na Casa Sacerdotal, no Seminário de São José em Vila Viçosa: Pe. Manuel Lopes Botelho, Pe. Manuel Luís Sanches Manso e Pe. Hérmino dos Santos Geraldes e no Convento de Santa Helena do Monte Calvário; Pe. Humberto César Gonçalves Coelho e Cónego Silvestre António Ourives Marques. Acompanhemos com a nossa oração a delicada situação de saúde dos Diáconos Frederico Zagalo e Jorge Portel. Como não recordar em união o calvário vivo e Eucarístico que diariamente vive o caríssimo D. Manuel Madureira Dias. Que a Eucaristia viva que é na oferta da sua vida em união a Nosso Senhor Jesus Cristo, regue de bênçãos a Igreja de Évora e do Algarve.
Unimo-nos também aos nossos Padres Diocesanos que residem fora da Diocese, mas que permanecem membros deste Presbitério, e regularmente se correspondem com o prelado desta Igreja Metropolitana.
Bendito seja Deus pelos diáconos que no seio desta Igreja Mãe, nasceram para o ministério ordenado do Diaconado:
Diácono Samora Marcel a 5 de janeiro de 2025 na Igreja de N. a Sr.a Auxiliadora;
Diácono Úlvio Gregório Jimenez, a 19 de outubro de 2025 na Igreja Matriz de Borba e que será ordenado Presbítero querendo Deus a 26 de abril de 2026 pelas 17 horas nesta Catedral.
Diáconos Rafael Morais, Éder Ferreira e Tácio Oliveira a 8 de dezembro de 2025 na Catedral de Évora.
2. Com o propósito de aprofundar o Ministério Presbiteral, o Santo Padre Leão XIV, por ocasião do 60o Aniversário dos Decretos Conciliares OPTATAM TOTIUS E PRESBYTERORUM ORDINII, dedicou uma Carta Apostólica com data de 8 de dezembro de 2025 intitulada UMA FIDELIDADE QUE GERA FUTURO.
O Papa começa por expressar a sua gratidão pelo testemunho e dedicação dos sacerdotes que, em todas as partes do mundo, oferecem a sua vida, celebram o sacrifício de Cristo na Eucaristia, anunciam a Palavra, absolvem os pecados e se dedicam generosamente dia após dia, aos seus irmãos e irmãs, servindo a comunhão, a unidade e cuidando em particular, de quem mais sofre e passa necessidade.
Leão XIV lembra que: « O Concílio Vaticano II situou o serviço específico dos presbíteros no âmbito da igual dignidade e fraternidade de todos os batizados, como bem testemunha o Decreto Presbyterorum Ordinii, e cita: «Os sacerdotes do Novo Testamento, em virtude do sacramento da Ordem, exerçam no Povo e para o Povo de Deus o múnus de pais e mestres, contudo, juntamente com os fiéis, são discípulos do Senhor, feitos participantes do seu reino pela graça de Deus que nos chama, regenerados com todos na fonte do Batismo, os presbíteros são irmãos entre os irmãos, membros dum só e mesmo corpo de Cristo, cuja edificação a todos pertence». Dentro desta fraternidade fundamental, que tem a sua raiz no Batismo e une todo o Povo de Deus, o Concílio realça o particular vínculo fraterno dos ministros ordenados entre si, fundado no mesmo sacramento da Ordem, citamos: «Os presbíteros, elevados ao presbiterado pela ordenação, estão unidos entre si numa íntima fraternidade sacramental. Especialmente na diocese a cujo serviço, sob o Bispo respetivo, estão consagrados, formam um só presbitério. […] Cada membro do colégio presbiteral está unido aos outros por laços especiais de caridade apostólica, de ministério e de fraternidade». Assim sendo, a fraternidade presbiteral, mais do que uma tarefa a realizar, é um dom inerente à graça da Ordenação. É necessário reconhecer que este dom nos precede: não se constrói apenas com boa vontade e em virtude de um esforço coletivo, mas é dom da Graça, que nos torna participantes do ministério do Bispo e se realiza na comunhão com ele e com os irmãos presbíteros».
«Precisamente por esta consciência, os presbíteros são chamados a corresponder à graça da fraternidade, manifestando e ratificando com a vida o que foi estipulado entre eles não só pela graça batismal, mas também pelo sacramento da Ordem. Ser fiel à comunhão significa, em primeiro lugar, superar a tentação do individualismo, que não condiz com a ação missionária e evangelizadora referente, desde sempre, à Igreja como um todo. Não por acaso, o Concílio Vaticano II falou dos presbíteros quase sempre no plural: nenhum pastor existe sozinho! O próprio Senhor «constituiu Doze – a quem chamou apóstolos – para que estivessem com ele» (Mc 3, 14): isto significa que não pode existir um ministério desligado da comunhão com Jesus Cristo e com o seu corpo, que é a Igreja. Tornar cada vez mais visível esta dimensão relacional e comunitária do ministério ordenado, na consciência de que a unidade da Igreja deriva «da unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo», é um dos principais desafios para o futuro, sobretudo num mundo marcado por guerras, divisões e discórdias.
A fraternidade presbiteral deve, portanto, ser considerada como um elemento constitutivo da identidade dos ministros, não como um simples ideal ou slogan, mas como um ponto a ser trabalhado com renovado vigor.
A beleza de uma Igreja feita de presbíteros e diáconos, que colaboram unidos e em harmonia pela mesma paixão ao Evangelho e atentos aos mais pobres, torna-se um testemunho luminoso de comunhão. É desta unidade, enraizada no amor recíproco, que – segundo a palavra de Jesus (cf. Jo 13, 34-35) – o anúncio cristão recebe credibilidade e força. Por isso, o ministério diaconal, especialmente quando vivido em comunhão com a própria família, é um dom a conhecer, valorizar e apoiar. O serviço, discreto, mas essencial, de homens dedicados à caridade recorda-nos que a missão não se realiza com grandes gestos, mas unidos pelo amor ao Reino e pela fidelidade quotidiana ao Evangelho.
Uma imagem feliz, eloquente e harmoniosa da fidelidade à comunhão é, sem dúvida, a que apresenta Santo Inácio de Antioquia na Carta aos Efésios: «Deveis estar de acordo com o pensamento do vosso bispo, como já fazeis. O vosso memorável presbitério, digno de Deus, está em harmonia com o bispo como as cordas de uma cítara. Esta vossa concórdia e harmonia na caridade é como um hino a Jesus Cristo. […] Vale bem a pena viver em unidade irrepreensível, para poder participar sempre da vida de Deus».
3. No nosso mundo contemporâneo, caracterizado por ritmos acelerados e pela ansiedade de estar hiperconectados, o que nos torna muitas vezes agitados e nos leva ao ativismo, há pelo menos duas tentações que se insinuam contra a fidelidade a esta missão. A primeira consiste numa mentalidade dirigida para a eficiência, segundo a qual o valor de cada um é medido pelo desempenho, ou seja, pela quantidade de atividades e projetos realizados. Segundo esta forma de pensar, o que fazemos prevalece sobre o que somos, invertendo a verdadeira hierarquia da identidade espiritual. A segunda tentação, em contrapartida, qualifica-se como uma espécie de quietismo: assustados pelo contexto, fechamo-nos em nós mesmos, recusando o desafio da evangelização e assumindo uma atitude preguiçosa e derrotista. Um ministério alegre e apaixonado, ao contrário, apesar de todas as fraquezas humanas, pode e deve assumir com ardor a tarefa de evangelizar todas as dimensões da nossa sociedade, em particular a cultura, a economia e a política, para que tudo seja recapitulado em Cristo (cf. Ef 1, 10). Diz Leão XIV que para vencer estas duas tentações e viver um ministério alegre e fecundo, cada presbítero há de permanecer fiel à missão que recebeu, isto é, ao dom da graça transmitido pelo Bispo durante a Ordenação sacerdotal. Fidelidade à missão significa assumir o paradigma que nos deu São João Paulo II quando recordou a todos que a caridade pastoral é o princípio que unifica a vida do presbítero. É precisamente mantendo vivo o fogo da caridade pastoral, ou seja, o amor do Bom Pastor, que cada sacerdote pode encontrar equilíbrio na vida quotidiana e saber discernir o que, de acordo com as indicações da Igreja, é benéfico e o que é o próprio do ministério.
O Santo Padre recorda que educado pelo mistério que celebra na santa liturgia, cada sacerdote deve «desaparecer para que Cristo permaneça, fazer-se pequeno para que Ele seja conhecido e glorificado (cf. Jo 3, 30), gastar-se até ao limite para que a ninguém falte a oportunidade de O conhecer e amar». Por isso, a exposição mediática, o uso das redes sociais e de todos os instrumentos hoje à disposição devem ser sempre avaliados com sabedoria, tendo como paradigma de discernimento o serviço à evangelização. «Tudo me é lícito! Sim, mas nem tudo convém» (1 Cor 6, 12)».
4. Voltemos à proclamação do Evangelho: «O Espírito do Senhor está sobre Mim, para anunciar a Boa Nova aos pobres.» (cf. Lc 4,18). Na sua primeira exortação apostólica, Leão XIV diz que, enquanto Corpo de Cristo, a Igreja sente como sua própria carne a vida dos pobres, que são parte privilegiada do povo a caminho. Por isso, o amor aos pobres — seja qual for a forma dessa pobreza — é a garantia evangélica de uma Igreja fiel ao coração de Deus. Assim, «Cristo Jesus, que, sendo de condição divina, não considerou como um privilégio ser igual a Deus, mas esvaziou-Se a Si mesmo, assumindo a condição de servo». (cf. Fl 2,6-7) A Encarnação é a kénosis do Pai: «Deus amou de tal maneira o mundo que lhe deu o seu Filho unigénito.» (Jo 3,16) O Mistério Pascal é a kénosis do Filho: «Ele, que amara os seus que estavam no mundo, levou o amor por eles até ao extremo.» (Jo 13,1). A Igreja é a kénosis do Espírito Santo que desce sobre os Apóstolos, que se une à sua fragilidade: «Viram então aparecer umas línguas como de fogo, que se iam dividindo, e pousou uma sobre cada um deles.» (cf. At 2,3) Também o nosso “sim” de amor a Cristo e à Igreja é a nossa kénosis.
O nosso despojamento que facilita o amor. Trata-se de um despojamento em função do amor.
É a partir desta kénosis que nos são feitas cinco perguntas no dia da nossa ordenação presbiteral e das quais citamos três: «Quereis celebrar com fé e piedade os mistérios de Cristo, segundo a tradição da Igreja, para louvor de Deus e santificação do povo cristão, principalmente no sacrifício da Eucaristia e no sacramento da reconciliação?»; «Quereis implorar, juntamente connosco, a misericórdia divina para o povo a vós confiado, cumprindo sem desfalecer o mandato de orar?»; «Quereis unir- vos cada vez mais a Cristo, Sumo Sacerdote, que por nós Se ofereceu ao Pai como vitima santa, e com Ele consagrar-vos a Deus para salvação dos homens?».
Sois chamados a ser imitadores de Cristo não só pelo ministério de que sois investidos, mas por este chamamento contínuo a configurar o vosso próprio ser, em cada dia, à kénosis amorosa de Cristo. Esta kénosis, este esvaziamento, é criar espaço para sermos cada vez mais de Cristo e pertencermos cada vez menos a nós próprios. Este “sim” que dissemos à maneira de Maria, o Senhor solicita-o hoje, nesta estação da nossa vida. Mesmo se isso pelas experiências vividas nos parece agora mais complexo do que no dia em que dissemos o primeiro “sim”; ou nos parece mais árduo, mais difícil de realizar. Que o nosso coração confie que o Senhor capacita os incapacitados.
5. Ajudemo-nos, caros Padres, a conservar a harmonia no Presbitério e na Igreja, este seria o contínuo trabalho de casa, para cada um de nós. Somos convidados pelos sinais dos tempos a mostrar a beleza que salva, a harmonia que brota da presença do Espírito de Deus em nós.
Também vós, Fiéis Leigos, batizados e crismados, sois outros Cristos, porque fostes também Ungidos com o óleo do Crisma, que recebe o seu nome de Cristo como referimos. Cristo significa Ungido e Crisma significa Unção. Vós fostes Ungidos na fronte, no Batismo e na Confirmação, com o óleo do Crisma. Além de Ungidos na fronte, no Batismo e na Confirmação, os Sacerdotes foram ainda Ungidos nas mãos com o mesmo óleo do Crisma, e o Bispo foi-o ainda na cabeça.
Também as igrejas e os altares são ungidos com o óleo do Crisma no dia da sua Dedicação. Somos assim cristificados, a Sua presença no mundo.
O óleo do Crisma que vamos consagrar, e os óleos dos enfermos e dos catecúmenos que vamos benzer, constituem, no meio de nós, um autêntico manancial ou programa de vida, igual ao de Cristo. Outros Cristos, Ungidos no coração, para levar o anúncio do Evangelho a todos os nossos irmãos. Se somos outros Cristos, Ele está connosco, em nós, no meio de nós. A messe e a plantação são d’Ele. A Ele a honra, a glória e o louvor para sempre. Ámen.
A concluir o Papa exorta: «Irmãos e irmãs gostaria que fosse este o nosso primeiro grande desejo: uma Igreja unida, sinal de unidade e comunhão, que se torne fermento para um mundo reconciliado». Confio os seminaristas, diáconos e presbíteros à intercessão da Virgem Imaculada, Mãe do Bom Conselho, e a São João Maria Vianney, padroeiro dos párocos e modelo para todos os sacerdotes. Como costumava dizer o Santo Cura d’Ars: «O sacerdócio é o amor do coração de Jesus». Um amor tão forte que dissipa as nuvens da rotina, do desânimo e da solidão; um amor total que nos é dado em plenitude na Eucaristia. Amor eucarístico, amor sacerdotal».
+ Francisco José Senra Coelho
Arcebispo de Évora
