Quinta-Feira Santa – Missa Crismal:
“O Espírito do Senhor está sobre mim: Ele me ungiu e me enviou a anunciar a boa nova aos pobres e a liberdade aos oprimidos”.
Caríssimos irmãos no sacerdócio e povo de Deus:
A Palavra que hoje escutamos não é apenas memória de um momento passado. É a presença viva e a missão da Igreja que continua.
Nesta manhã de Quinta-Feira Santa, Dia do Sacerdócio, dirijo-me a vós, presbíteros e diáconos, com especial afeto. Somos chamados a reviver o dom recebido no dia da nossa ordenação e a unção que recebemos não foi apenas um rito, mas um compromisso oblativo com o Senhor e com a Igreja.
Renovamos hoje as promessas sacerdotais, renovando a disponibilidade de dizer novamente “sim” ao serviço do ministério.
Num mundo marcado pela indiferença, pelo sofrimento e pela perda de esperança, que anseia por paz, somos enviados como sinais vivos da presença de Cristo, Sumo e eterno Sacerdote.
Somos ungidos para anunciar a Boa Nova ao povo de Deus, levando a luz onde há escuridão e a ser pastores segundo o coração de Cristo: em proximidade, misericordiosos e disponíveis.
Somos um povo sacerdotal empenhado na construção da comunhão e na renovação da nossa missão eclesial. Unidos pelo mesmo Espírito, formamos um só corpo, onde cada vocação é dom e serviço. Não caminhamos isolados, mas como comunidade que escuta, que serve e que anuncia. Nesta unidade, encontramos a força para responder aos desafios do nosso tempo e para sermos sinais vivos da presença de Cristo no mundo.
Só o amor transforma a nossa vida, pois Deus amou-nos desde toda a eternidade. “Eu te consagrei” (Jr 1,5). Consagrados pelo dom do Espírito Santo, no dia da nossa ordenação, fomos enviados ao mundo para cuidar do seu rebanho.
“Os Presbíteros constituem com o seu Bispo um presbitério” (LG 28) e colaboram com ele no discernimento dos carismas e no acompanhamento e orientação da Igreja local, com uma atenção particular ao serviço da unidade. São chamados a viver a fraternidade presbiteral e caminhar juntos no serviço pastoral” (DF 72).
Valorizemos a raiz da nossa vocação, o dom do nosso chamamento ao ministério ordenado, vivendo com autenticidade e transparência a nossa identidade sacerdotal.
Como presbitério, somos chamados a identificar a nossa vida com o Mestre, que veio não para ser servido, mas para servir e dar a vida pelo seu povo, tantas vezes abatido e a necessitar de compaixão.
O ideal da vida sacerdotal encontra-se neste caminho exigente e belo de conversão contínua e de formação permanente, onde, dia após dia, procuramos configurar-nos com Cristo, o Bom Pastor. Não se trata apenas de exercer um ministério, mas de viver uma entrega, de assumir um estilo de vida marcado pela doação, pela escuta e pela presença.
Neste horizonte, ressoa com particular força o apelo: “Os presbíteros são chamados também hoje a uma fidelidade que gera futuro, na consciência de que perseverar na missão apostólica oferece a possibilidade de nos interrogarmos sobre o futuro do nosso ministério, ajudando outros a experimentar a alegria da vocação sacerdotal”. (Uma fidelidade que Gera Futuro, nº 1).
Por isso, convido-vos a meditar sobre os pontos a que se refere o Papa Leão XIV: – Fidelidade criativa e serviço. – Fidelidade e sinodalidade. – Fidelidade e missão. – Fidelidade e fraternidade.
Assim, a nossa fidelidade não é estática nem fechada, mas fecunda e geradora. Uma fidelidade que abre caminhos, que inspira novas vocações e edifica esperança.
Citando o Papa: expresso “a minha gratidão pelo testemunho e dedicação dos sacerdotes que, em todas as partes do mundo, oferecem a sua vida, celebram o sacrifício de Cristo na Eucaristia, anunciam a Palavra, absolvem os pecados e se dedicam generosamente, dia após dia, aos seus irmãos e irmãs, servindo a comunidade e a unidade e cuidando, em particular de quem mais sofre e passa necessidade” (Uma fidelidade que Opera Futuro, nº 4).
Agradeço a todos vós o trabalho pastoral realizado em todas as paróquias e serviços da Diocese.
Lembremos, em ação de graças, os sacerdotes em Jubileu sacerdotal: os 75 anos do Padre Carlos Marques de Lima; os 60 anos do Padre Martinho Lopes Moura (Comboniano); e os 50 anos do Padre Delfim Dias Cardoso; do Padre Amadeu Dias Ferreira e do Padre Cláudio Correia Ferreira.
Alerto também que todos precisamos de ser acompanhados e apoiados, sobretudo nos momentos de fraqueza e de fragilidade, seja no início do ministério, na maturidade ou na velhice.
A vida sacerdotal não se vive sozinha. Precisamos uns dos outros, de proximidade, de fraternidade sacerdotal que sustente, anime e nos ajude a caminhar. Reconhecer esta necessidade não é sinal de fraqueza, mas de verdade e de humildade.
Somos chamados a cultivar com cuidado e perseverança as virtudes próprias da vocação sacerdotal: a fidelidade, a humildade, a caridade pastoral, a obediência, a disponibilidade e o espírito de serviço.
Esta celebração é também importante pelo ato de benzer e consagrar os santos óleos, que serão utilizados ao longo de todo o ano na vida sacramental da Igreja: sinais visíveis da graça de Deus que fortalece, cura, consagra e envia. Por meio deles, Cristo continua a tocar a vida do seu povo, santificando-o e acompanhando-o em todos os momentos do seu caminho.
A falta de vocações na Igreja e também ao sacerdócio, com a diminuição do clero, o envelhecimento dos padres e as doenças e provações levam-nos a pensar seriamente no presente e no futuro das nossas comunidades e no modo como podemos servi-las no ministério.
Não podemos adiar a reorganização territorial e pastoral, dando lugar às prioridades da formação e preparação de leigos e ministérios. Precisamos que todos assumam responsabilidades pastorais nas comunidades, promovendo a vocação ao sacerdócio, ao diaconado permanente e aos ministérios laicais.
Anuncio a ordenação diaconal do Francisco Ferreira e do Tiago Rio, no dia 3 de maio, às 17h00, na Catedral. Rezemos por todos os sacerdotes e diáconos, de modo especial os que se encontram doentes, e pelo Diácono Alexandre Ribeiro, que continua o seu estágio a caminho do sacerdócio.
Todos somos responsáveis por uma Igreja sinodal, missionária, em caminho de conversão e de renovação pastoral aberta à mudança.
Confiamos à proteção da Rainha dos Apóstolos, de São José, São Teotónio, Santa Beatriz da Silva, São Francisco de Assis e à Beata Rita Amada de Jesus o dom de novas vocações. Ámen!
Viseu, 2 de abril de 2026
+ António Luciano, Bispo de Viseu
