Igreja/Sociedade: Vaticano defende controlo da Inteligência Artificial para travar «paradigma tecnocrático»

Comissão Teológica Internacional publica documento com alertas contra transumanismo e criação de «Deus virtual»

Cidade do Vaticano, 04 mar 2026 (Ecclesia) – A Comissão Teológica Internacional (Santa Sé) exigiu hoje o reforço da responsabilidade moral no desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA), alertando para os perigos da automação e do “paradigma tecnocrático”.

“Surgem sérias dúvidas quanto aos processos de tomada de decisão automatizados e baseados na IA em áreas sensíveis da vida humana”, adverte documento ‘Quo vadis, humanitas? [para onde vais, humanidade?]. Pensar a antropologia cristã face a certos cenários sobre o futuro do humano’, aprovado pelo Papa Leão XIV e enviado aos jornalistas.

O texto aponta os setores da saúde, concessão de empréstimos, justiça e intervenções militares como pontos críticos da evolução da IA, analisando os impactos antropológicos e sociais das inovações tecnológicas à luz de um “paradigma” de poder e tecnocrático.

“Torna-se evidente uma conceção do sujeito que possui o objeto numa lógica de dominação e transformação para seu próprio uso e consumo. É como se o sujeito estivesse perante uma realidade sem forma, disponível em tudo para a sua manipulação”, pode ler-se.

Os especialistas manifestam preocupação com a utilização da IA em várias esferas da sociedade, sublinhando que os algoritmos “nem sempre são controláveis pelo indivíduo e, por vezes, nem sequer por empresas ou Estados”.

O que garante o desenvolvimento tecnológico como dinamismo positivo é a atenção à dimensão ética do desenvolvimento e, portanto, a atenção à pessoa, à sua dignidade inalienável e à sua responsabilidade. A finalidade do desenvolvimento, de facto, não pode ser confiada a leis ou mecanismos anónimos, regulados apenas pelo potencial das inovações científicas e tecnológicas.”

A reflexão adverte para os riscos de uma futura Inteligência Artificial Geral (IAG), sublinhando que esta tecnologia omnipresente poderá gerar consequências “profundas” que correm o risco de “escapar ao controlo da razão humana”.

A Comissão Teológica Internacional (CTI), organismo ligado ao Dicastério para Doutrina da Fé, fala numa ditadura do “agora”, precisando que a organização da informação em rede está “interessada em recolher e organizar imensas quantidades de dados com base em cálculos de probabilidade, em vez de se dedicar à procura de hipóteses de compreensão ou de explicação”.

Perante o “imparável desenvolvimento tecnológico” da humanidade, o Vaticano identifica “sérios riscos” que “serão ainda maiores para os mais fracos e indefesos, ou seja, aqueles que não contam para nada porque não servem para nada nas engrenagens dos mais poderosos”.

A reflexão do Vaticano fala na emergência de uma “religião digital” que apresenta o poder de criar um “Deus à sua imagem e semelhança” para humanidade que “confia totalmente na tecnologia”.

“O ‘Deus vivo’ pode ser substituído por um ‘Deus virtual’ com a pretensão de ‘salvar’ a humanidade com base em atuações tecnológicas postas à disposição das aspirações espirituais dos seres humanos”, sustenta o documento.

Os teólogos rejeitam a lógica transumanista e pós-humanista, que procura ultrapassar os limites físicos ou desconstruir o sujeito humano, contrapondo a esta corrente a conceção da vida como vocação e dom gratuito.

“A compreensão da sua vida carece muitas vezes de abertura a um sentido último, quer como orientação quer como relação constitutiva”, indica o texto.

O impacto das redes sociais e da comunicação digital mereceu também uma análise crítica, com a CTI a identificar fenómenos de polarização extrema e “tribalização” no debate político.

“A proliferação de notícias falsas é a expressão de uma cultura que perdeu o sentido da verdade e que dobra os factos a interesses particulares”, sustenta o documento.

A Comissão Teológica Internacional sustenta que a pessoa é uma “unidade de alma e corpo”.

“Aquilo de que a família humana precisa, e nela cada pessoa que procura a sua verdadeira identidade, não é de um salto evolutivo para além da condição atual, mas de uma relação salvífica que torne significativa e bela a aventura de se realizar em plenitude”, indicam os peritos.

Este documento foi aprovado por unanimidade pelos membros da Comissão Teológica Internacional durante a sessão plenária de 2025; Leão XIV autorizou a sua publicação a 9 de fevereiro de 2026.

OC

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