Especialistas sublinham impacto do uso militar das novas tecnologias

Cidade do Vaticano, 03 mar 2026 (Ecclesia) – A Santa Sé defendeu a urgência de uma governação global da Inteligência Artificial (IA) para promover o desenvolvimento de sistemas éticos desde a sua conceção.
A posição foi assumida esta segunda-feira durante o seminário “Potencialidades e desafios da Inteligência Artificial”, organizado no Vaticano pela Secretaria para a Economia e pelo Gabinete do Trabalho da Sé Apostólica (ULSA).
O diretor da ULSA, Pasquale Passalacqua, revelou na sessão de abertura que o Papa Leão XIV encorajou a iniciativa, desejando uma “consciência mais profunda neste campo tão atual e complexo”.
O secretário do Dicastério para a Cultura e a Educação, D. Paul Tighe, alertou para os perigos concretos destas ferramentas na ausência de regulamentações internacionais.
“Armas biológicas, propaganda, desinformação, sistemas que escapam ao controle humano”, enumerou o bispo irlandês.
O responsável católico advertiu contra o paradigma tecnocrático que considera estes instrumentos neutros, sublinhando que as grandes potências procuram a superioridade tecnológica no âmbito militar.
A Igreja assume a sua autoridade moral para orientar este desenvolvimento, recorrendo à “sabedoria do coração, capaz de integrar o todo e as partes”.
O padre Paolo Benanti, professor da Pontifícia Universidade Gregoriana e membro do Comité da ONU sobre IA, centrou a sua reflexão nos desafios éticos e na dimensão política destes modelos tecnológicos.
“Qualquer artefacto tecnológico, quando impacta um contexto social, funciona como disposição de poder e forma de ordem”, afirmou o religioso franciscano.
O especialista explicou que as ferramentas de inteligência artificial mudam a natureza dos processos decisórios, criando uma sociedade fortemente definida pelo software que utiliza.
A vertente mais técnica do encontro esteve a cargo do professor Corrado Giustozzi, da Universidade Campus Biomédico de Roma, que detalhou a mecânica dos algoritmos e o problema da introdução de preconceitos.
O investigador explicou que estes sistemas podem implementar mecanicamente “estratégias de escolha que estão na mente de seu criador”, distorcendo os resultados logo na fase de aprendizagem e treino dos dados.
O encontro decorreu no Salão São Pio X e contou com a moderação de Alessandro Gisotti, vice-diretor editorial do Dicastério para a Comunicação (Santa Sé).
OC
