Sínodo: Grupo de estudo propõe nova Comissão Pontifícia para o mundo digital e adaptações canónicas

Documento final aponta a «relações pastorais enraizadas no acompanhamento», mais do que num território

Foto: Vatican Media

Cidade do Vaticano, 03 mar 2026 (Ecclesia) – O Vaticano publicou hoje o relatório final do Grupo de Estudo do Sínodo dedicado à missão no ambiente digital, propondo a criação de um novo organismo da Cúria Romana e a revisão do conceito de jurisdição territorial da Igreja.

“O compromisso da Igreja com a cultura digital pode exigir que se considere alguma forma de jurisdição organizada não territorialmente, mas através de relações pastorais enraizadas no acompanhamento”, indica o documento, enviado à Agência ECCLESIA e publicado online.

O documento, elaborado por peritos de todos os continentes, defende que a Igreja deve deixar de olhar para o digital apenas como um conjunto de ferramentas e passar a compreendê-lo como uma “verdadeira cultura”.

A publicação deste relatório resulta de um processo iniciado pelo Papa Francisco em 2024; a divulgação foi autorizada por Leão XIV.

Entre as propostas dirigidas à Santa Sé está a criação de uma estrutura própria para esta área pastoral.

O relatório sugere a instituição de um “gabinete, departamento ou comissão responsável por acompanhar a missão no ambiente digital”, avançando com o nome de “Comissão Pontifícia para a Cultura Digital e as Novas Tecnologias”.

Este novo organismo teria a missão de monitorizar questões teológicas, pastorais e canónicas, bem como elaborar diretrizes para a Igreja universal.

O documento alerta para o perigo de uma vivência religiosa exclusivamente virtual, a qual correria o risco de permanecer “desencarnada” e de deixar os indivíduos num “isolamento moldado por algoritmos”, como já alertou o próprio Leão XIV.

Neste sentido, a missão digital da Igreja passaria por promover o encontro real e a construção de comunidades, ligando os espaços online à vida sacramental e presencial das paróquias.

O relatório exige também uma distinção clara entre a “digitalização da pastoral”, que consiste apenas em transferir serviços tradicionais para a internet, e uma verdadeira “pastoral digital”, pensada nativamente para este ambiente.

Aos bispos e Conferências Episcopais, os peritos recomendam a criação de equipas digitais diocesanas e a integração desta missão nos planos pastorais ordinários.

Destaca-se também a urgência de garantir uma “formação holística” para o clero e os leigos que envolva dimensões técnicas, teológicas e espirituais.

O relatório final apela à elaboração de diretrizes contra a manipulação, a polarização, as notícias falsas e os abusos no mundo digital.

A Igreja é convidada a uma presença compassiva para com aqueles que vivem nas “periferias existenciais” online, incluindo os que sofrem de isolamento social.

Este relatório, que recolheu o contributo de mais de 1600 missionários digitais de 67 países, incluindo Portugal.

Vimos que a sinodalidade não é apenas um método, mas um caminho necessário para a presença digital da Igreja. A escuta, o diálogo e o discernimento partilhado permitiram-nos encontrar a cultura digital não apenas como um espaço de comunicação, mas como um espaço de comunhão, acompanhamento e testemunho.”

Com a entrega deste contributo, este grupo de estudo dá por concluído o seu mandato.

A Secretaria-Geral do Sínodo, em conjunto com os Dicastérios da Cúria Romana, terá agora a tarefa de traduzir o que emergiu neste relatório em “propostas operacionais” práticas, que serão depois entregues à avaliação e aprovação do Papa.

O Sínodo dos Bispos pode ser definido, em termos gerais, como uma assembleia de representantes dos episcopados católicos de todo o mundo, a que se juntam peritos e outros convidados, com a tarefa ajudar o Papa no governo da Igreja.

OC

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