Sacerdote português que trabalha no Vaticano disse que a Igreja tem a missão de anunciar um Deus que «pôs os pés na terra», num mundo capaz de «pôr os pés na lua»

Horta, Açores, 27 fev 2026 (Ecclesia) – O padre José Miguel Cardoso, do Dicastério para a Cultura e Educação da Santa Sé, alertou para as tentações de “uma “igreja democrática”, excessivamente institucionalizada e “ideal”, na conferência ‘A Igreja que Jesus não quer’, na Diocese de Angra.
Na conferência inaugural do ciclo ‘Diálogos na Cidade’, da Ouvidoria da Horta, na Diocese de Angra, o padre José Miguel Cardoso indicou o que considera serem as três grandes tentações que a Igreja Católica deve evitar hoje, na conferência ‘A Igreja que Jesus não quer’, esta quinta-feira, 26 de fevereiro, divulga o portal online ‘Igreja Açores’.
Segundo o sacerdote da Arquidiocese de Braga, a Igreja Católica deve começar por evitar tornar-se uma “Igreja democrática”, a verdade resulta da vontade da maioria, e salientou que sinodalidade, confundida com democracia, não significa governar por sondagem ou votação.
O orador, que está ao serviço do Vaticano, no Dicastério para a Cultura e Educação da Santa Sé, alertou para uma igreja excessivamente institucionalizada, na segunda tentação, e, neste caso, para os extremos do fechamento num “gueto” e da diluição numa lógica meramente mundana, uma organização que procura agradar à sociedade.
Uma “Igreja ideal”, reservada aos perfeitos e imaculados, foi o terceiro do risco apontado pelo padre José Miguel Cardoso que, após a conferência, indicou ainda três perigos concretos da atualidade, ao ‘Igreja Açores’: a tentação dos números; dos “foguetes”, apenas de momentos festivos sem continuidade; e dos “likes”.
“A Igreja não deve medir-se como uma empresa que precisa de resultados visíveis ou como uma sala de espetáculos que necessita estar cheia”, acrescentou, observando que Jesus “guia-se por nomes, não por números”.
Na primeira sessão do ciclo ‘Diálogo na Cidade”, promovido pela Ouvidoria do Horta, o conferencista indicou que a Igreja Católica nos Açores pode encontrar na piedade popular o seu “verdadeiro anticiclone”, e transformar a geografia insular num caminho privilegiado de silêncio e interioridade para o mundo contemporâneo.

Para o padre José Miguel Cardoso, a piedade popular, enraizada nas ilhas, pode ser um “bastião da Igreja portuguesa”, como testemunho vivo de fé encarnada na cultura, e oferecer um itinerário espiritual alternativo, mais recolhido e contemplativo, num tempo de aceleração, tecnocracia e inteligência artificial.
O sacerdote português que trabalha no Vaticano, autor do livro ‘Os Sapatos De Deus – Para um decálogo do Cristianismo’, disse que, hoje, Jesus pediria aos discípulos para calçar os sapatos da esperança e os do humor.
A Igreja Católica tem a missão de anunciar um Deus que “pôs os pés na terra”, e que oferece um coração a uma humanidade tecnicamente avançada, mas muitas vezes carente de sentido, num mundo capaz de “pôr os pés na lua”, concluiu, na Biblioteca pública da Horta, na ilha do Faial, informa a página na internet ‘Igreja Açores’ da Diocese de Angra.
O ciclo ‘Diálogos na Cidade’ é uma iniciativa da Ouvidoria da Horta, na sequência da iniciativa jubilar ‘Diálogos no tempo’, organizada pelo Instituto Católico de Cultura da Diocese de Angra, que quer continuar a afirmar-se como espaço de encontro entre Igreja, cultura e sociedade, incentivando a participação ativa da comunidade.
CB
