«Sem Distinções nem Discriminações»

Com a chegada do Verão são muitos os emigrantes portugueses, espalhados pelo mundo, que se preparam para vir matar a saudade do seu torrão natal, vir rever e abraçar familiares e amigos. É no contexto desta forte presença de emigrantes em Portugal que a Igreja promove a Semana Nacional de Migrações, que vai na sua 37ª edição.

O apelo à fraternidade e à não discriminação, lançado pelo Papa Bento XVI na sua Mensagem para o Dia Mundial do Migrante e Refugiado deste ano de 2009, foi acolhido como lema da Semana. Em comunhão com as preocupações do Santo Padre, num mundo violento e injusto que, cada vez mais, marginaliza a pessoa humana, queremos colocar os migrantes que vivem excluídos e discriminados como centro da nossa semana de reflexão e oração.

A Semana Nacional de Migrações tem por objectivo promover a oração, reflexão, sensibilização e solidariedade com os migrantes, que se viram forçados a deixar a sua terra em busca duma terra que lhes oferecesse melhores condições de vida, isto é, os meios indispensáveis para viver com um mínimo de dignidade humana.

O contexto de crise económica global, produzida pela especulação financeira desordenada e pelo sistema neoliberal que tem esvaziado o mundo ocidental dos valores fundamentais do humanismo cristão, que transforma o homem em peça descartável duma engrenagem de produção e consumo, promove a injustiça e assimetria social assim como a discriminação e a exclusão. A comunicação globalizada, da notícia em directo, que explora os acontecimentos de forma sensacionalista, com o único objectivo de aumentar audiências, contribui negativamente para a criação de estereótipos generalistas dos migrantes, que muitas vezes são discriminados e marginalizados só pelo facto de pertencerem a determinada etnia, terem determinada cor de pele ou serem oriundos de determinado país. Esta inconsciência de alguns meios de comunicação social tem contribuído para o surgimento de discriminações, racismos e xenofobias que em nada dignificam a pessoa humana e envergonham a cultura da tolerância que Portugal levou às cinco partidas do mundo.

O mundo de hoje tem necessidade de recriar uma nova ética de valores, uma ética que coloque o ser humano no lugar central que lhe pertence; uma ética da fraternidade e da solidariedade que respeite e acolha todos sem distinção nem discriminação que desumaniza e humilha.

Em cada ano coloca-se como intenção especial da Semana as comunidades portuguesas de determinado país ou uma das comunidades de imigrantes residentes em Portugal. Este ano quisemos colocar no centro a Comunidade Brasileira residente em Portugal, como forma de valorizar esta que é a maior comunidade imigrante em Portugal. Por isso, convidámos a presidir à Peregrinação de 12 e 13 de Agosto, D. Alessandro Ruffinoni, Bispo delegado da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, para a pastoral dos brasileiros que vivem no exterior do Brasil.

A verdadeira fisionomia da Igreja, que é universal, encontra-se na dimensão da fraternidade cósmica onde, independentemente da cor da pele, da cultura ou da proveniência todos devem ser acolhidos como filhos do mesmo Pai, redimidos por Cristo, por isso, todo o cristão é chamado a ser promotor da fraternidade e do acolhimento, lutando e denunciando tudo o que seja distinção, discriminação, exclusão ou marginalização, sem perder do horizonte a palavra de Jesus que diz: “Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25, 40), nem as palavras do apóstolo Paulo: “Já não sois estrangeiros nem imigrantes, mas sois conci-dadãos dos santos e membros da família de Deus” (Ef. 2, 19).

 Frei Francisco Sales, director da Obra Católica Portuguesa de Migrações

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