Investigador da Universidade Católica Portuguesa destaca «contributo renovador» deixado há um ano pelo Papa Francisco

Lisboa, 10 mai 2018 (Ecclesia) – O investigador António Martins, da Universidade Católica Portuguesa (UCP), diz que Fátima vive hoje um “desafio fascinante de reinterpretação” à luz dos novos tempos.

Em entrevista à Agência ECCLESIA, o membro do Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião (CITER) considera que este “recentrar” da Mensagem de Fátima na “narrativa primeira, fundadora do acontecimento das Aparições”, é visível “na reflexão que se vai produzindo hoje” a partir do Santuário.

“Quer do ponto de vista teológico, de rigor mais científico quer do ponto de vista da espiritualidade para alimentar a experiência crente dos fiéis”, salienta aquele responsável.

António Martins baseia-se num estudo que o CITER está a promover sobre as publicações que foram feitas entre 2015 e 2017, na caminhada do primeiro centenário das Aparições de Nossa Senhora em Fátima.

Para o investigador, assiste-se atualmente a um esforço de “despojamento” da mensagem de Fátima, de tudo aquilo que são leituras que surgiram para responder a determinados desafios da História e do mundo ao longo dos últimos 100 anos, que hoje já estão “ultrapassados” e “não têm pertinência”.

Como “toda uma linguagem profundamente ideológica, anticomunista, antimarxista, à volta da famosa frase da conversão da Rússia, e o que isso significou no contexto da Guerra Fria e da luta em relação à afirmação da violência das perseguições em países de Leste”, recorda António Martins.

Este especialista em Teologia Antropológica destaca “o contributo renovador que o Papa Francisco deixou” há um ano em Fátima, nos dias 12 e 13 de maio, durante as comemorações do Centenário das Aparições.

Fundamentalmente, no que toca à “revalorização e refontalização de Fátima” naquilo que foi “a presença ou manifestação de Nossa Senhora” na Cova da Iria, e no que disse aos pastorinhos Francisco, Jacinta e Lúcia.

Ao dizer a frase ‘Temos Mãe’, o Papa frisou junto dos peregrinos que eles vão ao Santuário ao encontro “não de uma senhora milagreira, mas de alguém que envia as pessoas constantemente para o seu Filho”, Jesus Cristo.

No entender o docente da UCP, esta posição de Francisco marcou claramente uma posição contra aquela que pode ser hoje uma “excessiva religiosidade espontânea”, ou “reinterpretação piedosa” e “popular” da mensagem de Fátima, “que tem os seus riscos de deriva”, para a recentrar “na mensagem evangélica”.

“Isso constitui, para o presente e para o futuro, um profundo desafio teológico e pastoral”, aponta António Martins.

O CITER prepara-se para promover a 22 de maio um simpósio dedicado ao Santuário de Fátima, intitulado ‘Centenário de Fátima: momento de leitura plural’.

De acordo com António Martins, que participará neste encontro, o objetivo será precisamente refletir sobre um fenómeno, Fátima, que se centrou na experiência de três pastorinhos, de três crianças, mas que tem sido “um acontecimento em sucessiva reinterpretação”.

Aquele responsável recorda o contexto de Lúcia, a mais velha dos videntes, que “à medida que foi vivendo novas situações”, como “o contexto da guerra civil de Espanha”, ou a sua “formação com as irmãs Doroteias”, foi “reinterpretando a experiência originária, fundadora de 1917, com novas aquisições linguísticas”.

“Uma coisa é a experiência ali, no lugar, no tempo, no momento, outra coisa é o dizer dessa experiência através da memória, na elaboração da linguagem”, sustenta António Martins, para quem estas “diferentes narrativas são um desafio hermenêutico, porque de vez em quando se encontram contradições, alterações”.

“Fátima é uma experiência de fé, protagonizada por aqueles três videntes, mas ao mesmo tempo se oferece a sucessivas reinterpretações e por isso o nosso título: Fátima – Um acontecimento interpretativo plural”, completa o investigador.

Este simpósio sobre o Santuário de Fátima tem início previsto para as 09h15, no Auditório Padre José Bacelar e Oliveira, na Universidade Católica Portuguesa em Lisboa.

No painel de debate vão estar oradores como José Pedro Angélico, Teresa Bartolomei, José Jacinto de Farias, Pedro Feliciano, Paulo Fontes, Alexandre Palma, Sérgio Pinto, Alfredo Teixeira e Domingos Terra.

JCP

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