Uma semana de acolhimento, em pleno tempo de férias, em que as dioceses são chamadas a testemunhar a sua real inquietação pela prática da hospitalidade para com todos: visitantes, forasteiros, turistas estrangeiros e nacionais, emigrantes em férias e imigrantes em mobilidade de trabalho no país. Na verdade, todas as comunidades cristãs assinalam nesta altura nas suas celebrações dominicais, festas e convívios a significativa presença de numerosas pessoas que aí não residem habitualmente. Toda a comunidade, fiel à lei da reciprocidade, espera ser bem recebida, escutada, compreendida e reforçar assim os laços humanos da única família humana. Nesta Semana de Migrações, que os nossos bispos nos propõem pela 32ª edição, sejamos discípulos criativos da hospitalidade cristã que semeia nesta nossa sociedade plural, ecuménica e multicultural aquela fraternidade onde ninguém se sente discriminado por ser desconhecido ou estrangeiro! De 9 a 15 de Agosto, é-nos proposta uma semana de divulgação da mensagem do Santo Padre para a 90º Jornada Mundial do Migrante e Refugiado: “Migrações sob a óptica da paz”. Através dos mais diversificados ambientes, lugares, meios de comunicação, debates e conversas os cristãos comprometidos socialmente farão deste assunto uma pertinente ocasião de diálogo com o mundo actual, onde as migrações se tornaram numa das realidades humanas que mais interpela a consciência pessoal e comunitária. Este ano o enfoque é colocado sobre a falta de paz em muitas latitudes do mundo. É ela a impelir dramática e tragicamente pessoas, famílias e comunidades a “fugir” além fronteiras, de forma a poderem ter acesso a direitos e meios de desenvolvimento pessoal. “Consolidar a paz para não ter que emigrar” é o tema que a Comissão Episcopal de Migrações e Turismo lança como mote de inspiração das actividades e celebrações que as paróquias e dioceses certamente têm já em programa. Este ano foi convidado para presidir ao momento alto da Semana, que coincide com a Peregrinação a Fátima nos dias 12 e 13 de Agosto, o Cardeal Stephen Fumio Hamao, delegado do Papa para a Pastoral das Migrantes e Refugiados. Queremos reafirmar a nossa fidelidade e confrontar a nossa acção com as orientações da Igreja Universal para a Pastoral das Migrações. Enfim, uma semana de solidariedade transnacional e de apelo à não indiferença para com os 175 milhões de pessoas (dos quais quase 5 milhões são portugueses!) que no mundo, por falta de trabalho digno e justamente remunerado, segurança de vida, paz e condições de saúde e de liberdade são “forçados” a deixar os seus países. Violência, corrupção, guerra, terrorismo, subdesenvolvimento, opressão, discriminação, pobreza, problemas familiares, doença, racismo, intolerância religiosa e insegurança económica são algumas das causas dos muitos êxodos e exílios hodiernos. Sabemos que algumas delas marcam também a vida de muitos imigrantes e refugiados que só em Portugal, depois de outras peregrinações errantes, encontraram as condições para (sobre)viver com maior dignidade e paz. Acredito firmemente que, se os portugueses conhecessem melhor as histórias de vida dos seus compatriotas que partiram e continuam a partir para o estrangeiro, se se aproximassem mais e escutassem melhor (sem preconceito!) os imigrantes e as causas que os obrigaram a ter que deixar as suas casas, terra, família e a fixarem-se em Portugal, sem dúvida que se ouvirão na rua ou na rádio, se leria nos jornais ou na Internet, menos palavras xenófobas, demagogicamente injustas e, ás vezes violentas, contra a imigração no país. Vou mais longe. Creio que, se ousássemos aproximar-nos de perto da realidade, faríamos do acolhimento digno e da integração gradual destes cidadãos, nossos irmãos, mais uma das questões do tão recentemente proclamado nosso orgulho nacional e patriótico pelo facto de aqui – na nossa sociedade democrática e na nossa igreja solidariamente acolhedora – pessoas em situação de vulnerabilidade social terem encontrado o trabalho, a paz, o refúgio e a dignidade que as suas pátrias hoje lhes negam. Tal como Portugal negou, há décadas, e parece continuar a negar, a muitos dos seus filhos e filhas, sobretudo, em certas regiões do Interior e das Ilhas portuguesas. Pe. Rui Pedro

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