Georgino Rocha

1. A convergência de aniversários de acontecimentos relevantes, a realização do Sínodo sobre a nova evangelização e a verificação de graves deficiências na formação cristã, designadamente na compreensão e na expressão da fé, constituem para Bento XVI a oportunidade providencial para convocar toda a Igreja católica para a celebração do Ano da Fé.

O recurso à pedagogia de dedicar um ano especial a uma temática específica – que faz parte normal da missão contínua da Igreja – tem raízes bíblicas e foi usada por várias vezes, especialmente no pós-concílio Vaticano II. As circunstâncias ocorrentes suscitam e justificam este recurso. É assim com Paulo VI e com João Paulo II. O atual Papa toma iniciativas semelhantes em outras ocasiões. Sirva de referência o Ano Sacerdotal e o Ano Paulino e, agora, o Ano da Fé.

2. “Será uma ocasião propícia para introduzir a totalidade da estrutura eclesial num tempo de particular reflexão e redescoberta da fé” – afirma na Carta apostólica “Porta Fidei”. “É convite para uma autêntica e renovada conversão ao Senhor, único Salvador do mundo”. Por isso lança o apelo aos Bispos de todo o mundo para que, unidos ao Sucessor de Pedro, aproveitem o tempo de graça espiritual que o Senho oferece a fim de comemorar, de forma digna e fecunda, o dom precioso da fé. E acrescenta: “Deverá intensificar-se a reflexão sobre a fé, para ajudar todos os crentes em Cristo a tornarem mais consciente e revigorarem a sua adesão ao Evangelho, sobretudo num momento de profunda mudança, como este que a humanidade está a viver”. Todos os crentes, nomeadamente presbíteros, diáconos, consagrados e leigos que são testemunhas privilegiadas do Senhor Jesus e seus mensageiros em todos os âmbitos da sociedade atual. A este convite/apelo, respondem os bispos portugueses com a Nota Pastoral “Celebrar e Viver o Concílio Vaticano II”, de 19.04.2012.

3. A estrutura eclesial, em todas as suas expressões, universais e locais, é convidada a redescobrir a fé, a colocar-se ao seu serviço e a dar-lhe prioridade na ação pastoral. A Igreja surgirá como instituição mensagem. De contrário, a estrutura eclesial projetará a imagem de uma grande multinacional, organizada para funcionar apenas administrativamente.

“O cerne da crise da Igreja na Europa – confessa noutra ocasião – é a crise da fé. Se não encontrarmos uma resposta para esta crise, ou seja, se a fé não ganhar de novo vitalidade, tornando-se uma convicção profunda e uma força real graças ao encontro com Jesus Cristo, permanecerão ineficazes todas as outras reformas”. Isto é, a reforma da Igreja passa pela vitalidade da fé.

4. Redescobrir a fé é dom que a Igreja acolhe nos seus membros e comunidades, dom a que quer dar resposta generosa e coerente. Exige normalmente que se vença a indiferença e se abra caminho à confiança benevolente, à proximidade amiga, à simpatia atraente, à relação solidária. E que se inicie o itinerário de progressiva adesão a Jesus Cristo e à sua Igreja configurada em comunidades acessíveis e familiares, onde todos tenham voz e vez, onde cada um possa sentir-se reconhecido e responsável e colocar à disposição dos outros os dons e carismas que o Espírito lhe concede para o bem eclesial. Redescobrir a fé leva-nos ao encontro de Jesus Cristo e à comunhão com o seu estilo de vida, à opção pelas suas preferências nucleares, à experiência gratificante de fazer a vontade do Pai no serviço concreto aos irmãos na humanidade e na fé, à paixão corajosa de permanecer confiante na cruz ignominiosa que floresce na manhã pascal.

A reflexão sobre a fé encontra um subsídio precioso e indispensável, um bom alicerce e magnífico guia no Catecismo da Igreja Católica. E Bento XVI recorda a afirmação de João Paulo II, seu venerado predecessor: “Este catecismo dará um contributo muito importante à obra de renovação de toda a vida eclesial (…). Declaro-o norma segura para o ensino da fé e, por isso, instrumento válido e legítimo ao serviço da comunhão eclesial”.

5. Renovar toda a vida da Igreja a partir da fé constitui um objetivo englobante e “provocador” sempre atual, que reveste em cada época, facetas especiais. E hoje com maior impacto. Apesar de tantos esforços, o desencontro de comunicação a agravar-se, a tentação de remeter a fé e a ação da Igreja para o domínio privado, a crise de valores que atravessa a sociedade e se repercute nos comportamentos pessoais e coletivos, a mentalidade que reduz o âmbito das certezas racionais ao das conquistas científicas e tecnológicas, o esvaziamento de muitos símbolos religiosos e a desadequação de linguagens, a fadiga e o desencanto de tantas “pessoas de boa vontade” são características marcantes, entre tantas outras, da época que vivemos e que nos interpelam profundamente.

Constituem, ao mesmo tempo, caminhos a percorrer na renovação pastoral da Igreja que faz suas, em cada tempo, as alegrias e as tristezas das pessoas e da sociedade. E assume positivamente esta solidariedade que deseja recíproca, oferecendo o que tem de melhor, Jesus Cristo. Esta atitude conciliar, com que o Vaticano II abre uma das suas mais notáveis constituições, configura o ponto de partida para a nova evangelização: a partir do humano, falar de Deus, anunciar Jesus Cristo, dar a conhecer o Espírito Santo, construir comunidades eclesiais que sejam “rosto” da Trindade divina e tenham “medida” humana.

6. O humano corre o risco de se fragmentar e deteriorar nas suas enormes capacidades. Jesus Cristo, por meio da Igreja animada pelo Espírito, faz-lhe uma proposta de coesão pessoal e de novidade relacional. Corresponder aos anelos de mais humanidade constitui um dos serviços mais urgentes da nova evangelização.

A Igreja conciliar – a abertura do Vaticano II faz 50 anos no próximo dia 11 – está consciente de que o género humano “se encontra hoje num período novo da história”; por isso recomenda uma atenção especial e interpretativa dos sinais dos tempos para, a partir da fé, dar resposta acertada às interrogações perenes da humanidade. Se os padrões culturais mudaram, impõe-se uma nova versão da fé cristã, designadamente na compreensão e transmissão da mensagem. Por isso, surge a dinâmica da nova evangelização expressa na trilogia: novo ardor, novas linguagens, novos métodos. Em todos os campos, mas sobretudo no tentar captar o mistério de Deus, “dando-lhe” rosto humano e anunciando o amor de salvação que, em Jesus Cristo, se manifesta e realiza plenamente.

7. Que este Ano da Fé “suscite, em cada crente, o anseio de confessar a fé plenamente e com renovada convicção, com confiança e esperança”, seja uma ocasião propícia para intensificar a fé nas celebrações, sobretudo na da eucaristia, e ajude a crescer o testemunho de vida dos crentes na sua credibilidade. Este desejo de Bento XVI fica bem expresso na Carta apostólica que dirige a toda a Igreja. E para lhe dar operacionalidade, encarrega a Congregação para a Doutrina da Fé de redigir uma Nota com algumas indicações a oferecer à Igreja e aos crentes para que vivam nos moldes mais eficazes e apropriados “este Ano ao serviço do crer e do evangelizar”.

As Igrejas particulares (dioceses) contam assim com mais uma série de recursos para o ano pastoral em curso, normalmente programado com antecedência. É-lhes pedido um esforço acrescido para se articularem na harmonia da comunhão efetiva e testemunharem pela ação a sinfonia eclesial.

8. A fé “é companheira de vida, que permite perceber, com um olhar sempre novo, as maravilhas que Deus realiza por nós. Solícita a identificar os sinais dos tempos no hoje da história, a fé obriga cada um de nós a tornar-se sinal vivo da presença do Ressuscitado no mundo” – afirma o Papa após referir o exemplo de São Paulo na exortação a Timóteo.

A estas testemunhas da fé junta outras, designadamente Maria, a Mãe de Jesus, e José seu Esposo, os apóstolos, os discípulos e suas comunidades, os mártires, os consagrados, os cristãos promotores da justiça e os que são chamados a dar testemunho na família, na profissão, na vida pública, no exercício dos carismas e ministérios. Agora é a nossa vez. Por isso, Bento XVI faz convergir a lista das testemunhas para cada um de nós. “Pela fé, vivemos também nós, reconhecendo o Senhor Jesus vivo e presente na nossa vida e na história”. Excelente proposta que deve merecer toda a nossa gratidão, acolhimento e realização. Para redescobrirmos a alegria no crer e reencontrarmos o entusiasmo de comunicar a fé.

Georgino Rocha, pró-vigário geral da Diocese de Aveiro para o diálogo ‘Igreja-Mundo’

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