Ainda o Natal vinha longe; mas já toda a gente, novos, velhos e criançada não pensava noutra coisa. É que esta quadra era uma das mais bonitas da roda do ano. E das mais proveitosas. Para uns significava fato novo; para outros a oportunidade de melhor passadio; para a maioria um sem número de momentos de ternura, de encanto, de magia.

Tudo era, então, calma e tranquilidade. Ninguém sabia o que fossem correrias desenfreadas, em horas de ponta, de loja em loja, na ânsia de comprar presentes e mais presentes sem olhar a preço. Ninguém sabia o que fosse a infelicidade de não poder adquirir o aparelho-última-moda que os grandes movimentos publicitários haviam de implantar no subconsciente de cada qual.

As ambições não impunham grandes exigências que, nesse tempo, cedo se aprendia a viver as realidades. E estas diziam que todos tinham de se satisfazer e ser felizes com muito pouco, com o pouco das coisas simples e naturais: o madeiro, o serão, as nozes, as castanhas, os figos secos, as maçãs, o fumeiro, a Missa do Galo, o cantar das Boas Festas.

Cantar as Festas era tradição das mais queridas do povo da nossa região. Para muitos, que bela oportunidade para compor o estômago! Não que os grupos só visitavam quem podia dar alguma coisa e, em tempo de Natal, tudo convidava a maior generosidade. Por isso, os grupos se organizavam e, noite dentro, lá partiam a honrar o Menino e sua Mãe e a cumprimentar, de casa em casa, quem lho merecia; mas sempre na esperança de serem correspondidos. Pouco bondava: um punhado de figos secos nas quenturas de Agosto e de Setembro, umas cheirosas maçãs de bravo de Esmolfe, uma côdea de broa e uma malga de água-pé.

Boas festas, boas festas,
Aqui hoje neste dia;
Que as manda o Rei do Céu,
Filho da Virgem Maria.
E depois do refrão, logo vinham as quadras sabidas e ressabidas, mas que lá em casa todos ouviam em respeitoso silêncio:

Inda agora aqui cheguei,
Pus o pé nesta escada;
Logo meu coração disse:
Aqui, mora gente honrada.

Cantavam a todos os moradores, começando pelo dono da casa, seguindo-se a mulher, os filhos e, por fim, as criadas, se as havia.
Chegados aqui, só faltava a despedida:

Vamos dar a despedida
Por cima do laranjal;
Vivam todos desta casa,
Vivam todos em jaral.

Alguns, poucos, negavam-se a cumprir a tradição; mas logo os cantadores voltavam em jeito de súplica:

Levante-se lá, senhora,
Desse banquinho de prata;
Venha-nos dar as natairas,
Que está um frio que mata.

Se nem assim, o grupo afastava-se prudentemente e, antes de abalar, deixava a marca do seu descontentamento:

Cantámos e recantámos;
Tornámos a recantar;
Estes barbas de farelo
Não têm nada para nos dar.

Mas a regra era bem outra. Após a última quadra, abria-se a porta, quantas vezes a da adega, onde mãos calejadas manejando habilmente a verruma, faziam saltar do espiche para a malga o tinto apetitoso, cor de cravo, uma delícia. Por isso, a quadra para ir embora era sempre bem sentida:

Vivam os senhores da casa
Com toda a sua virtude;
Pedimos ao Deus Menino
Que le dê muita saúde.

António Lopes Pires

Partilhar:
Share