Venezuela: Bispos reclamam reconstrução transparente e livre de corrupção

Conferência Episcopal pede que «não se repitam os mesmos erros do passado», após devastação provocada pelos sismos de 24 de junho

Foto: Lusa/EPA

Caracas, 23 jul 2026 (Ecclesia) – Os bispos católicos da Venezuela reclamaram uma reconstrução profunda e transparente das áreas devastadas pelos sismos de 24 de junho, alertando contra os perigos da corrupção e da inércia governamental.

“Todos devemos zelar para que nos trabalhos de reconstrução não se repitam os mesmos erros do passado, pois, caso contrário, os mais fracos voltarão a sofrer as consequências da corrupção e da indolência”, adverte a Conferência Episcopal (CEV), em nota enviada às comunidades católicas.

O documento sublinha que a recuperação das comunidades afetadas implica a garantia de acesso à habitação e ao trabalho digno para que as famílias superem a tragédia “sem dependências nem paternalismos”.

Os responsáveis católicos fazem eco da indignação dos cidadãos perante as falhas no socorro inicial, lembrando que “é obrigação das instâncias do Estado estar preparadas” para enfrentar os desastres naturais.

A mensagem pastoral rejeita categoricamente as interpretações fundamentalistas que classificam a catástrofe geológica como um suposto castigo ou “uma espécie de vingança divina”.

O documento destaca que a presença divina se encontra ativamente nas vítimas e nos “samaritanos compadecidos” que prestam auxílio.

O episcopado católico pede que a atual intervenção de emergência não ofusque o dever moral de lutar pela dignidade de outros grupos marginalizados, nomeadamente os “presos políticos, os trabalhadores e os pensionistas”.

A CEV elogia a proximidade solidária do Papa Leão XIV e apelou à manutenção da ajuda humanitária continuada, através das redes paroquiais da Cáritas.

As comunidades católicas vão dinamizar a celebração de Eucaristias no dia 24 de julho para sufragar os falecidos e pedir a rápida reabilitação da nação sul-americana.

O duplo sismo provocou 5398 mortes, segundo o último balanço oficial divulgado esta quarta‑feira, incluindo 130 portugueses e lusodescendentes.

Dois abalos de magnitude 7,2 e 7,5 sacudiram a 24 de junho o norte do país, em particular o estado costeiro de La Guaira, próximo de Caracas, deixando milhares de feridos e desaparecidos, além de elevados danos materiais.

A Arquidiocese de Caracas apresentou esta quarta-feira um balanço oficial de apoio aos sobreviventes dos recentes sismos, revelando a distribuição de quase meia tonelada de ajuda humanitária.

Segundo nota de imprensa, a rede diocesana, em articulação com a Cáritas, “coordenou a entrega de aproximadamente 490 toneladas de bens essenciais”, abrangendo desde “alimentos, água, medicamentos” a “materiais de abrigo”.

Esta operação de emergência contou com o envolvimento de paróquias, empresas e de “mais de 500 voluntários destacados nos centros de recolha”, referiu a instituição.

A intervenção mobilizou o clero em zonas vulneráveis de Caracas e do litoral, promovendo a presença pastoral em “centros de saúde, abrigos transitórios e espaços públicos”.

A prioridade incidiu em proporcionar “contenção emocional, auxílio sacramental e primeiros socorros psicológicos” aos sobreviventes acolhidos em escolas e recintos improvisados.

As celebrações litúrgicas transitaram para “espaços abertos adjacentes”, perante o risco de novos abalos sísmicos.

A conferência de imprensa detalhou a avaliação de “27 templos da área metropolitana”, conduzida em parceria com o Colégio de Engenheiros da Venezuela.

O relatório técnico, estruturado num sistema semafórico, determinou o encerramento por “acesso restrito” (vermelho) de cinco igrejas devido a “comprometimento estrutural ou exigência de estudo patológico profundo”.

A arquidiocese estruturou um plano de recuperação em cinco fases que vai desde a sinalização do perigo à aplicação de “projetos de engenharia sismorresistente e conservação de bens artísticos”.

OC

Venezuela: Bispo auxiliar de Caracas, lusodescendente, afirma «há muito por fazer», passado um mês da «tragédia»

Partilhar:
Scroll to Top