Francisco pede que todos tenham condições para viver final da vida «de forma mais humana»

Foto: Lusa/EPA

Cidade do Vaticano, 09 fev 2022 (Ecclesia) – O Papa rejeitou hoje no Vaticano qualquer forma de antecipação da morte, numa crítica à eutanásia e ao suicídio assistido, pedindo que todos tenham condições para viver o final da vida “de forma mais humana”.

“Devemos ter o cuidado de não confundir esta ajuda com desvios inaceitáveis que levam a matar. Temos de acompanhar as pessoas até à morte, mas não provocar a morte nem ajudar qualquer forma de suicídio”, disse, na audiência pública semanal que decorreu no Auditório Paulo VI.

Francisco destacou que ninguém pode evitar a morte e se deve ajudar a “morrer em paz”, sublinhando que, “depois de ter feito tudo o que era humanamente possível para curar a pessoa doente, é imoral o encarniçamento terapêutico”.

A reflexão valorizou o desenvolvimento dos cuidados paliativos, que permitem a quem vive a última parte da sua vida a possibilidade de morrer “da forma mais humana possível”.

“Saliento que o direito a cuidados e tratamentos para todos deve ser sempre uma prioridade, de modo que os mais fracos, particularmente os idosos e os doentes, nunca sejam descartados”, apontou.

A vida é um direito – não a morte, que deve ser acolhida, não administrada. E este princípio ético diz respeito a todos, não apenas aos cristãos ou crentes”.

Em Portugal, a nova formação do Parlamento deve debater um texto que permita a legalização da eutanásia, após dois vetos do presidente da República.

Em novembro, Marcelo Rebelo de Sousa pediu aos deputados que clarificassem “o que parecem ser contradições no diploma quanto a uma das causas do recurso à morte medicamente assistida”.

O chefe de Estado sublinha que uma das normas apresenta “a exigência de doença fatal para a permissão de antecipação da morte”, mas alarga-a, numa outra norma, “a doença incurável mesmo se não fatal, e, noutra ainda, a doença grave”.

Francisco alertou para a tentação de “acelerar” a morte dos mais velhos, que considerou um “símbolo da sabedoria humana”.

“Os idosos com menos meios recebem menos medicamentos do que precisam e isto é desumano, não é ajudá-los”, lamentou.

Para o Papa, o início da vida e o seu fim são “sempre um mistério, um mistério que deve ser respeitado, acompanhado, cuidado, amado”.

Todas as pessoas têm direito à vida, aos cuidados médicos e aos cuidados paliativos, especialmente os idosos, para enfrentar a morte de forma mais humana”

Partindo da devoção a São José como “padroeiro da boa morte”, Francisco destacou o impacto “terrível” da pandemia, que colocou esta realidade do fim da vida “por todo o lado”.

“Muitos irmãos e irmãs perderam entes queridos sem poderem estar ao lado deles, e isto tornou a morte ainda mais difícil de aceitar e de elaborar”, realçou.

O Papa citou a carta publicada esta terça-feira pelo seu antecessor, Bento XVI, na qual este disse que está “diante da porta escura da morte”.

“Todos nós estamos a caminho dessa porta, todos”, destacou Francisco.

A intervenção sustentou que, a partir da morte, é possível olhar para toda a vida com “novos olhos”, dando outro sentido a várias questões, como as discussões familiares ou a ânsia de “acumular”.

“Nunca vi, atrás de um carro fúnebre, uma carrinha de mudanças. Nunca. Iremos sós, sem nada nos bolsos”, observou o Papa, para quem o mais importante é “morrer reconciliado, sem deixar ressentimentos e sem arrependimentos”.

A reflexão encerrou-se com a recitação de uma Ave-Maria “pelos moribundos, por quantos estão a viver este momento de passagem por essa porta escura e os familiares que estão a viver o luto”.

No final da audiência, o Papa dirigiu-se aos peregrinos de língua portuguesa.

“Rezemos hoje, em particular, pelos profissionais da saúde, portadores de consolação para todos os atribulados, para que, a par dos cuidados adequados, ofereçam aos doentes a sua proximidade fraterna. Oxalá a misericórdia de Deus, nosso Pai, seja sempre o sinal distintivo das vossas famílias e comunidades”, declarou.

Uma das pessoas presentes era Dolores Aveiro, que ofereceu ao Papa uma camisola do seu filho, Cristiano Ronaldo, capitão da seleção nacional de futebol, que trocou breves palavras com Francisco, sendo possível ouvir o pontífice a perguntar como se encontrava o jogador.

OC

Francisco recordou hoje a celebração do próximo Dia Mundial do Doente, a 11 de fevereiro.

“Desejo lembrar os nossos queridos doentes, para que a todos sejam assegurados os cuidados de saúde e o acompanhamento espiritual”, afirmou.

O Papa convidou a rezar pelos doentes, as suas famílias, profissionais de saúde, agentes pastorais e “todos os que cuidam deles”.

 

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