Francisco deu entrevista a televisão mexicana, alertando para a violência contra as mulheres e migrantes

Cidade do Vaticano, 28 mai 2019 (Ecclesia) – O Papa Francisco defendeu, em entrevista a uma televisão do México, que a reforma nas estruturas centrais de governo da Igreja Católica deve superar “estruturas de Corte” que persistem no Vaticano.

“O que está em crise são modalidades da Igreja que devem cair. Tenhamos consciência: o Estado da Cidade do Vaticano, como forma de governo, a Cúria, seja o que for, é a última Corte europeia de uma monarquia absoluta”, referiu, numa conversa com a vaticanista Valentina Alazraki, divulgada hoje.

“Aqui há estruturas de Corte, isso é o que tem de cair”, insistiu.

Durante a entrevista, a jornalista entregou ao Papa a camisa de uma mulher mexicana, Rocío, assassinada diante de um filho.

“Gostaria de dizer àqueles que nos veem que, mais do que uma camisa, esta é uma bandeira, uma bandeira do sofrimento de tantas mulheres que dão vida e dão a vida e passam anonimamente”, destacou.

O pontífice afirmou que “o sangue de Rocío e de tantas mulheres assassinadas, usadas, vendidas, exploradas, tem de ser a semente de uma consciência sobre tudo isso”.

O mundo sem a mulher não funciona. Não porque é ela que que traz as crianças, vamos deixar a procriação de lado … Uma casa sem a mulher não funciona. Há uma palavra que está prestes a cair do dicionário, porque todo mundo tem medo dela: ternura”.

Questionado sobre a atual crise migratória na fronteira entre México e EUA, o Papa sublinhou que os muros não são a verdadeira “defesa”, mas “o diálogo, o crescimento, o acolhimento e a educação, a integração”.

Francisco disse mesmo que “separar as crianças dos pais vai contra o direito natural” e que as pessoas que defendem estas práticas “não podem ser” cristãs.

“É cruel”, atirou.

O pontífice defendeu a criação de “pontes políticas, pontes culturais”, pedindo que os responsáveis políticos nunca se decidam pela repatriação sem ter a certeza da “segurança” das pessoas envolvidas.

A conversa abordou a presença do Islão na Europa, uma realidade que não se pode “ignorar”, o mesmo acontecendo com a presença, nessa religião, de “grupos intransigentes e fundamentalistas”.

O Papa admite erros na gestão dos casos de abusos sexuais no Chile, mostrando a intenção de “pôr um ponto final” nestas situações, afirmando ainda “nada” saber dos casos de que o antigo cardeal Mc Carrick, dos EUA, era acusado, antes de ter dado início aos respetivos processos, no Vaticano.

A entrevista passou por outro caso, Gustavo Zanchetta, ex-bispo de Oran, no norte da Argentina, que foi transferido pelo Papa para o Vaticano, estando atualmente suspenso do seu cargo na Administração do Património da Santa Sé.

Francisco responde às “pessoas impacientes” que o acusam de não fazer nada, sublinhando que os processos podem ser mais complexos e que é impossível “sair por aí a publicar o que se faz, todos os dias”.

O Papa pede respeito pela “presunção de inocência”, evocando um caso recente na Espanha, em que um grupo de padres foi declarado inocente, em Tribunal, após uma ‘condenação mediática’.

“Quem resgata esses homens agora? Um deles já solicitou a redução ao estado laical, porque está destruído psicologicamente”, lamenta.

O pontífice elogiou a “seriedade” com que todos os participantes assumiram a cimeira sobre a proteção de menores e a “grande monstruosidade” dos abusos sexuais, que decorreu de 21 a 24 de fevereiro, no Vaticano, e fala no início de “um bom processo, que será controlado a cada seis meses”.

Francisco apresenta-se como “conservador” e diz que o aborto não é “um problema religioso”, limitado aos católicos e à sua fé, mas “um problema humano”, porque implica “eliminar uma vida humana”.

Quanto às pessoas divorciadas, o Papa começa por sublinhar que “todos são filhos de Deus” e explica que procurou abrir um “processo de integração na Igreja”, tendo com prioridade “quem está fora”.

“Prioridade sim: quem já está em casa, está a ser cuidado, eu vou procurar os outros”, realçou.

Francisco lamentou que alguns jornais tivessem escrito que enviou “homossexuais ao psiquiatra” e sublinha que a sua posição é que todos têm “direito a uma família”.

“Isso não significa aprovar atos homossexuais, longe disso”, acrescenta.

O Papa brinca com as acusações de “heresia” e reafirma a sua ideia de que terá um pontificado “curto”, até pela sua idade.

“A melhor coisa para mim é estar sempre com as pessoas”, confessa o pontífice, eleito em março de 2013 como sucessor de Bento XVI.

OC

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