Francisco contesta preconceitos e discursos de ódio contra quem deixa a sua terra

Foto: Lusa/EPA

Cidade do Vaticano, 10 jan 2022 (Ecclesia) – O Papa alertou hoje no Vaticano, perante embaixadores dos cinco continentes, para a “desumanização dos migrantes”, evocando a sua recente viagem a Lesbos, onde se encontrou com refugiados.

“Diante destes rostos, não podemos permanecer indiferentes, nem se pode entrincheirar atrás de muros e arame farpado a pretexto de defender a segurança ou um estilo de vida”, advertiu, no encontro de Ano Novo com os membros do corpo diplomático acreditados junto da Santa Sé.

O encontro, na Sala das Bênçãos do Palácio Apostólico, evocou a passagem do Papa pelo campo de refugiados da ilha grega, no último dia 5 de dezembro.

“Pude constatar a generosidade de quantos prestam a sua ação para oferecer acolhimento e ajuda aos migrantes, mas sobretudo vi os rostos de tantas crianças e adultos hóspedes dos centros de acolhimento”, referiu Francisco.

O Papa convidou todos os responsáveis políticos a “vencer a indiferença e rejeitar a ideia de que os migrantes são um problema de outros”.

“O resultado desta perspetiva vê-se na própria desumanização dos migrantes concentrados em campos de recolha, onde acabam por ser presa fácil da criminalidade e dos traficantes de seres humanos, ou por se lançar em desesperadas tentativas de fuga que às vezes terminam com a morte”, advertiu.

“Infelizmente, é preciso também destacar que os próprios migrantes muitas vezes são transformados em arma de chantagem política”, acrescentou.

Francisco agradeceu a todos os que trabalharam para garantir acolhimento e proteção aos migrantes, realçando que “há uma diferença nítida entre acolher, embora limitadamente, e repelir totalmente”.

O discurso deixou apelos especiais à União Europeia, desafiando os seus Estados-membros a criar um “sistema coerente e global de gestão das políticas migratórias e de asilo”.

O Papa evocou ainda as populações que deixaram a Síria, o Afeganistão, o Haiti, os “êxodos maciços” na fronteira entre o México e os Estados Unidos da América.

“A questão migratória, bem como a pandemia e as mudanças climáticas mostram claramente que ninguém se pode salvar sozinho, ou seja, os grandes desafios do nosso tempo são todos globais”, precisou.

Francisco considerou “preocupante” que se verifique uma “falta de vontade em querer abrir janelas de diálogo e sendas de fraternidade”, o que acaba por alimentar “novas tensões e divisões, além dum sentimento generalizado de incerteza e instabilidade”.

“É preciso recuperar o sentido da nossa identidade comum de uma única família humana”, sustentou.

183 Estados mantêm atualmente relações diplomáticas com a Santa Sé, a que se somam representações da União Europeia e da Soberana Ordem Militar de Malta.

OC

 

Especial: Papa regressou a Lesbos para denunciar «crise humana», apelando a compromisso de toda a Europa (c/vídeo e fotos)

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