Conferência de imprensa no regresso a Roma abordou inverno demográfico na Europa e riscos da xenofobia

Cidade do Vaticano, 10 set 2019 (Ecclesia) – O Papa Francisco admitiu hoje o risco de um “cisma” na Igreja Católica, lamentando o comportamento de algumas pessoas que “apunhalam pelas costas”.

“Sempre existe a opção cismática na Igreja, sempre, é uma das opções que o Senhor deixa à liberdade humana. Eu não tenho medo de cismas, rezo para que não existam, porque está em jogo a saúde espiritual de tantas pessoas. Que exista o diálogo, que exista a correção se houver algum erro, mas o caminho do cisma não é cristão”, disse aos jornalistas, no voo de regresso a Roma após a quarta viagem do pontificado a África, que se iniciou a 4 de setembro.

Francisco realçou que as críticas ao seu pontificado não se limitam a setores católicos norte-americanos, mas “existem um pouco por toda a parte, mesmo na Cúria” Romana.

“Fazer uma crítica sem querer ouvir a resposta e sem fazer o diálogo é não amar a Igreja, é seguir atrás de uma ideia fixa, mudar o Papa ou criar um cisma”, advertiu, falando em grupos que se separam do povo, “da fé do povo de Deus”.

Segundo o atual pontífice, um cisma “é sempre é uma separação elitista provocada por uma ideologia separada da doutrina”.

“Eles dizem: o Papa é comunista … Entram as ideologias na doutrina e quando a doutrina escorrega nas ideologias, ali há a possibilidade de um cisma. Há a ideologia da primazia de uma moral assética sobre a moral do povo de Deus”, observou.

Durante cerca de hora e meia de conversa, o Papa voltou às preocupações com o desflorestamento e a destruição da biodiversidade, apelando à proteção das florestas e dos oceanos, preocupação que já levou à proibição do plástico, no Vaticano.

“É preciso defender a ecologia, a biodiversidade, que é a nossa vida, defender o oxigénio, que é a nossa vida”, apelou.

O pontífice alertou para a “doença” da xenofobia, apontando o dedo aos que “cavalgam a onda dos populismos políticos”, bem como o perigo do “tribalismo” nos países africanos.

Recordando a passagem por Maputo, Francisco assinalou que a paz no país lusófono “ainda é frágil”, assumindo que fará “todos os possíveis” para que este processo avance.

Questionado sobre o facto de ter visitado um país em campanha eleitoral, o Papa declarou que esta “foi uma opção decidida livremente, porque a campanha eleitoral começa nestes dias e ficava em segundo plano em relação ao processo de paz”.

“O importante era ajudar a consolidar esse processo”, precisou.

Depois de ter visitado Moçambique, Madagáscar e Maurícia, o pontífice mostrou-se impressionado com a “juventude” da África, em contraponto ao que qualificou como “um inverno demográfico muito grave na Europa.

“É necessário que toda a sociedade tenha consciência de fazer crescer este tesouro [os filhos], de fazer crescer o país, de fazer crescer a pátria, de fazer crescer os valores que darão soberania à pátria”, prosseguiu.

O Papa disse que ficou muito impressionado com a convivência entre as várias religiões na República da Maurícia, sustentando que “é a fraternidade humana que está na base e respeita todas as crenças”.

Ainda sobre o país do Índico, Francisco convidou os Estados Unidos da América e Reino Unido a respeitar a decisão da ONU sobre a soberania maurícia do arquipélago de Chagos, que incluem a base norte-americana de Diego Garcia.

“Devemos respeitar a identidade dos povos, esta é uma premissa a ser defendida sempre. Deve ser respeitada a identidade dos povos e assim expulsamos todas as colonizações”, justificou.

Em resposta a uma pergunta da agência espanhola EFE, que celebra 80 anos de existência, o Papa falou sobre o futuro da comunicação, realçando a importância de “transmitir um facto e distingui-lo da narrativa, do que é transmitido”.

“A comunicação deve ser humana, e por humana entendo construtiva, isto é, deve fazer crescer o outro. Uma comunicação não pode ser usada como um instrumento de guerra, porque é anti-humana, destrói”, advertiu.

O Papa regressa esta quarta-feira às atividades no Vaticano, com a audiência pública semanal na Praça de São Pedro.

OC

 

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