«Para lá da Crise» é assinado pelo padre e historiador Roberto Regoli, da Universidade Gregoriana

Cidade do Vaticano, 24 mai 2016 (Ecclesia) – Os cerca de oito anos de pontificado de Bento XVI foram marcados pela “abertura intelectual e o encontro”, defende o padre e historiador Roberto Regoli, autor do livro ‘Para lá da Crise’, sobre o agora Papa emérito.

O professor da Faculdade de História e Bens Culturais da Igreja, na Universidade Gregoriana (Roma), apresentou a obra na companhia de D. Georg Gänswein, secretário particular de Bento XVI, e do historiador Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio.

O arcebispo Gänswein sustentou que o pontificado do Papa alemão ficou marcado pela luta contra a “ditadura do relativismo” e rejeitou a ideia de que a renúncia de Bento XVI se tenha ficado a dever a pressões ou traições.

“Devo dizer de uma vez por todas, com toda a clareza, que Bento XVI não renunciou por causa do pobre e mal aconselhado mordomo [Paolo Gabriele, ndr]”, referiu o secretário do Papa emérito, para quem o chamado caso 'Vatileaks' era algo “demasiado pequeno” para justificar uma decisão “histórica”.

“Após a eleição do seu sucessor, o Papa Francisco, a 13 de março de 2013, não há dois Papas, mas há de facto um ministério alargado, com um membro ativo e um contemplativo”, acrescentou.

D. Georg Gänswein recordou que Bento XVI não renunciou nem ao seu nome nem à sua batina branca.

“Ele não se retirou para um mosteiro isolado, mas continua dentro do Vaticano, como se tivesse dado apenas um passo para o lado, para dar espaço ao seu sucessor e a uma nova etapa na história do papado”, precisou.

Para Roberto Regoli, apenas o Papa alemão poderia “permitir-se algo deste género”, lembrando que vários dos seus predecessores pensaram na renúncia ao pontificado mas nenhum deu esse passo.

“Nas interpretações que vemos por parte de alguns teólogos, também na renúncia a um ministério ativo este homem investido da função de Papa continua a ser Papa. Isto antes não era possível”, observou.

Bento XVI apresentou a renúncia ao pontificado a 11 de fevereiro de 2013após sete anos e dez meses de pontificado, evocando a ‘avançada idade’ para justificar uma decisão que não se verificava há cerca de 600 anos na Igreja Católica e abrir caminho à eleição de um sucessor, Francisco.

Joseph Ratzinger realizou 24 viagens ao estrangeiro, incluindo um visita a Portugal, entre 11 e 14 de maio de 2010, com passagens por Lisboa, Fátima e Porto.

No total, as viagens pontifícias tiveram como destino prioritário a Europa (16), seguindo-se a América (3), o Médio Oriente (2), a África (2) e a Oceânia (1); a estas somam-se 30 visitas em solo italiano.

Bento XVI assinou três encíclicas e presidiu a três Jornadas Mundiais da Juventude, para além de ter convocado cinco Sínodos de Bispos, um Ano Paulino, um Ano Sacerdotal e um Ano da Fé.

As encíclicas, textos mais importantes do pontificado, começaram a ser publicadas em 2006, com a ‘Deus caritas est’ (Deus é amor), um texto breve que apresenta a ‘essência’ do Cristianismo.

‘Spe salvi’ (Salvos na esperança) é o título da segunda encíclica de Bento XVI, dedicada ao tema da esperança cristã, num mundo dominado pela descrença e a desconfiança.

A terceira encíclica, ‘Caritas in Veritate’ (A caridade na verdade), propõe uma nova ordem política e financeira internacional, para governar a globalização e superar a crise em que o mundo se encontra mergulhado.

Outra obra de grande impacto foi o livro-entrevista ‘Luz do Mundo’, de 2010, resultante de uma conversa com o jornalista alemão Peter Seewald, um registo que permitiu dar a conhecer Bento XVI e o seu pensamento sobre temas centrais para a Igreja e a sociedade.

OC

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