Missionário português no centro da tragédia A tragédia que abalou vários países da Ásia e da África no passado dia 26 de Dezembro está a ser vivida na primeira pessoa por um missionário português, a trabalhar na Índia. “A acreditar nas notícias, e depois do que vimos numa zona próxima afectada pelas ondas assassinas, penso que estou em posição de garantir que a primeira ajuda, que consiste em fornecer agua, comida, instalações, e outras acções urgentes, tem sido levadas a cabo de uma forma, no mínimo, satisfatória”, assegura o Pe. Amaro Vieira. O religioso Dehoniano, contudo, considera que a ajuda humanitária não se deve concentrar unicamente no apoio imediato às vítimas, mas também na reconstrução dos locais atingidos. “O mais difícil tem a ver com o futuro; neste momento, ainda se vive sob o entusiasmo solidário da primeira reacção. Mas, infelizmente, o tempo faz esquecer os propósitos e intenções mais altruístas”, afirma o missionário português, num depoimento enviado à Agência ECCLESIA. “Por outro lado temo que, por causa da corrupção, que reina como senhora soberana na Índia, muito dinheiro venha a ser desviado”, acrescenta. Sobre a acção das comunidades religiosas no local, o Pe. Amaro considera que o essencial passa por dois tipos de acção. “A primeira, canalizar parte do dinheiro para instituições credíveis que se dedicam ao trabalho com as populações afectadas; a segunda, fazer um levantamento, em colaboração com o clero local, das famílias que perderam as suas habitações e comprar materiais para a reconstrução”, indica. No local, todos se apercebem de que a solidariedade tem sido imensa. “Nos jornais e na televisão aparecem constantemente informações sobre actores, músicos, artistas, políticos, e muitas instituições e empresas que fazem doações para enfrentar a tragédia”, revela o Pe. Amaro Vieira. Nesse sentido, o missionário Dehoniano recebe com satisfação de que em Portugal há muitas comunidades que estão a juntar dinheiro para enviar para a Índia e todos os outros países afectados. “É um gesto bonito que, pelo que sei se estendeu um pouco por toda a Europa”, assinala. Na Índia, o último balanço das autoridades é de pelos menos 10 mil mortos e quase 6 mil desaparecidos, presumivelmente mortos. A região mais atingida foi o estado do Tamil Nadu, com cerca de 8 mil mortos. 382 mil desalojados encontram-se em 600 campos de acolhimento. “Dos factos que tomei conhecimento, o mais impressionante e o numero das crianças que morreram; sabemos agora que anda muito perto dos 50%. Algumas aldeias viram, literalmente, as suas crianças serem varridas pelo mar”, refere o Pe. Amaro Vieira. Segundo o religioso, algumas razões podem explicar o grande número de crianças entre as vítimas: “a razão principal tem a ver com o facto de ter sido num Domingo. As crianças da costa costumam ir para a praia jogar críquete, o desporto mais famoso na Índia”. “Por outro lado, muitos pescadores salvaram-se porque na altura em que tudo aconteceu já tinham regressado da pesca nocturna”, aponta ainda. O religioso justifica o facto de a Índia ter recusado gentilmente a ajuda externa da seguinte maneira: “não podemos esquecer que em comparação com o Sri Lanka e a ilha de Sumatra na Indonésia, a Índia foi muito menos afectada”. “Aliás, sabemos que a ajuda da Índia ao Sri Lanka foi excepcional pela rapidez e pelos meios postos em acção. Foi de tal modo eficaz que a Presidente do Sri Lanka relevou e agradeceu especialmente a ajuda do governo Indiano”, ilustra. A comunidade religiosa a que este Dehoniano pertence situa-se em Cochin, na região de Keral. Aquando do maremoto, contudo, encontrava-se numa viagem de comboio com o outro Dehoniano português no país, Pe. José Guilherme, pelo que nenhum dos dois foi directamente atingido. “Tudo aconteceu enquanto eu viajava de comboio de Cochin, onde vivo, para Guntur, Andra Praesh, onde os Dehonianos a trabalhar na Índia se decidiram reunir para reflectir sobre o futuro da nossa formação – uma viagem de 22 horas que começou no dia 25 a noite e que terminou no dia 26 a noite -. Vivemos na era da informação global onde rapidamente as noticias chegam aos lugares mais remotos: tenho a certeza que vós soubestes mais depressa do que eu, sobretudo quem tem acesso à televisão por cabo e, especialmente, a Internet”, relata. “A população tem sido fantástica na ajuda aos que mais sofreram com esta tragédia. As carências mais urgentes depois de um acidente deste tipo têm sido combatidas com dedicação”, assinala. Em conclusão, o missionário português deixa um apelo: “esperemos que a solidariedade não morra com o fim da época natalícia. Como costumamos dizer: o Natal é todos os dias”.

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